Arquivo do mês: dezembro 2011

Estação penúltima

Eles balançavam a cabeça de um lado a outro, reprovando e passando aquela insegurança, aquela arritmia, aquela toda negatividade de planos que eram para ser bons. Aquele exército do negro e de cabeças baixas, de tons de reprovação. Aquele exército que a inquietava e a afundava. Não era para se conformar. Não era para se aceitar. Mas dentro de si, algo incomodava. Não era fácil, não sabia se dizer porque. Ao menos parecia que o gritar interno era, ao extremo, e ligeiramente, maior. O egoísmo, porém, não era condizente com as falas alheias que buscavam ideais vazios. Tudo que era dito parecia vir de um sarcasmo e uma cobrança que a afundavam naquele mar a sua frente. Daquele mar sua escolha maior era o fundo, por cima das pedras mais profundas, mas que ainda a deixassem um olhar raso para a superfície de tanta água. A água era muita, mais soava como paladares de café do que como sabores de chá doce, era traduzida por muitos como aquilo que ecoa, não serenamente, nem em paz, mas dentro de limites de conformação: decepção. As ondas batiam, dissipando o sal contido e concentrado por sua pele excessivamente branca. O vestido, também branco, esvoaçava e se misturava com um duro de espelho, indo e voltando, como se, por um momento, estivesse sendo rebatido. Formava um balonê natural, colocado sem pregas, agulhas, ou linhas. Sentou-se na areia branca e sedosa. Sentou, abraçou os joelhos em um relaxar profundo e cheio de pesar. Cheio de lágrima e sumiço. O vazio era indiscritível. Não era mais vazio. Era vácuo. O vazio ainda pode ser colocado em palavras e em lágrimas, mas o vácuo não pode ser colocado em nada. Absolutamente nada de nada. Pois deve-se deixar a perna levar o corpo e não o corpo levar a perna. As pernas são sábias, deve-se ouvir aqueles que tem propriedade na razão e amor no que fazem. As pernas amam levar o corpo adiante, e por isso lutou com os braços e regulou a coluna. Pediu a coluna para que ficasse ereta e a deixasse conduzir tudo e todos. As pernas são boas, mas não sabem até hoje se era isso mesmo que os braços queriam. E Ele. Ele chegou logo ali. A colocou entre os braços. Ela se deixou recostar e sentir o espírito e o respirar de paz, de tranquilidade e serenidade; O sentimento próprio de conseguir ter alguma percepção, de beber uma xícara de chá. Sentiu o apoio logo atrás dela, sentiu esse apoio como um estímulo acetinado. Sentiu como asas que a amparassem e a impedissem de sumir. Ele a abraçou, em um ponto a que se é bom se abraçar…não muito, não pouco, simplesmente confortante. Ele a girou, de modo que ela também o abraçava e sentia seu corpo fresco e deixava o seu próprio ser dominado pela paz. A única paz. Tudo em volta se iluminava, esfumaceava e virava um tão belo passado, a cada instante angélico. Ele a abraçou e a levou para cima, diante de toda branquidão em volta, que povoava aquele ambiente e que foi testemunha maior de tudo aquilo. Ela respirou fundo. Eles subiram, e só subiram. Até o momento em que se perderam em algum fio de infinito. E o branco novamente amanheceu, naquele tom angélico que paira sobre as almas problemáticas esperando por uma resolução de paz.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Cafeteria

Aquele brunch todo obscuro. E todo, por si, lindo, arrumado, de rosas, de flores, bromélias. Aquela vitrola de lado parada, de hora e outra alguém colocava uma moeda e selecionava sua personalidade em notas musicais. Tão profundas e tão sonoras notas musicais. Aquela vitrola tinha mão de barro, que, por vezes, dava um soco seco e era áspera no agradar de todas as memórias. Mas também tinha mão de seda, que afagava o florear dos neurônios em uma plasticidade tão e quão boa, e sem fim, de memórias refletidas em um espelho colorido. O café preto era forte, de arretar as mandalas da alma, de balancear uma energia contida no fundo do peito para cima, rumo a um infinito pessoalizado e, para alguns, tão e portanto, estagnado. Aquele cheiro penetrava as narinas e sensibilizava os receptores, mas ainda assim, acomodação não existia. Sentou na poltrona almofadada. Não costumava gostar desse tipo de poltrona para se alimentar, apesar de confortabilíssima, na prática se demonstrava desajeitada. De desajeitada bastava ela, a pesos e tropeços, mas tinha teor de vida, o que, em sua opinião, era o mais importante, afinal. O quadril demorou a se acomodar, de um lado a outro. E toda vez que se inclinava para alcançar a xícara branca do café, repetia o mesmo processo, de direita a esquerda, o quadril, robusto e gordo, se balançava, aconchegando o resto do corpo em um organismo íntegro. Sentado e íntegro, logicamente no limite em que um organismo consegue estar confortável e íntegro ao mesmo tempo, e hei de dizer que esse limite não ultrapassa muitos degraus além do comportamento basal e, com cheiro de fundo, instintivo. Pois bem, seu id desejava aquele café, mas seu super ego a alertava que aquela postura desajeitada era logo o pecado do mundo: pecado múltiplo de ser transparente como renda, ofuscando linhas congênitas e genuínas, mas reconhecidamente, ou não, simplesmente causas do acolhimento embutido e encolhimento tímido, mais tido por vergonha. Aquele sentimento que acomete os inseguros a todo tempo, e também os seguros, entretanto, modifica-se a forma de projeção e demonstração, tendo por final, a modificação da máscara e do disfarce. Afinal, os seguros são convictos e assumidos camaleões, e não há de se negar a inteligência de tal animal, porém, como sempre generalizações não são bem vindas. Abastou-se, empurrou o prato com a torrada semi mordida para frente, ouvia, em seu estômago, a sociedade anunciar saciedade ao passo que se coração pulava em direção ao mundo, insaciável. Observava o Senhor de bengala, com os nítidos bigodes grisalhos. Observava o florescer pendurado, no local climatizado, em luzes secas e amareladas, e florido, floria, pendurado. Pendurado naquela concessão de mundo, veja bem, naquele espaço entre o amor e o não amor. Não digo entre amor e ódio, porque esse espaço, muitas vezes nem ao menos existe, mas digo entre o amor e a indiferença. Entre o amor e o pêsame, mais provavelmente. Aquele espaço que pende entre o choro e o riso, entre a felicidade e aquele ponto maligno que sempre estará aceso recortando a ferida. Aquele abraço caloroso e acolhedor, aquele beijo quente e desnecessário, mas frutífero em termos de um brotamento interno, deveras, produtivo. O caixa enferrujado traduzia o que sentia por um amor perdido, cheio de dinheiro inválido. O ventilador mais que refletia o coração batente e suplicante do perdão a si. A ansiedade pulsava em pássaros coloridos, cheio de miçangas e cristais, voando por sua cabeça oca de toda racionalidade e, pois, provida de todo sentimento. Guardava em si os sonhos do mundo, e na sala da vida ela era o lustre de diamantes, que reluzia discretamente, mas completava o contexto, a conjuntura e o ambiente, aos olhos ainda de um outro que entrou. Abriu a porta a passos quietos, mas afobados, extremos e ansiosos, atitude grotesca e infiltrada de sentimento, mesmo que ninguém soubesse qual. E então, se descobriu. Foi descoberto o poerque daquele caminho turvo, que chegou da chuva de fora com os fios molhados, o casaco fino encharcado e a mochila deixada de fora, largada e sem medos e receios de ser levada. Ela, ainda de costas, segurava a lágrima que estava para cair, contraindo toda a musculatura ocular, com tanta força que chegava a doer. Concentrava-se em atingir a taça, com aquele líquido alaranjado, ainda buscando a saciedade do buraco negro visceral. Ele a atingiu com uma mão no ombro. Ela se virou, irrompeu em lágrimas interruptas. Eles se envolveram em um abraço acalorado, preso e mordido, estático lateralmente, apertado, ali e sempre, naquele espaço entre o amor e o pêsame, entre o infinito e a brevidade, o oco incompleto, não preenchido por quaisquer compreensões e distrações. Compila-se com força e coragem, amor, distância, convivência plena. Ou não. Ora, enforcada foi a saudade, de modo a pairar temporariamente sobre as nuvens do mundo todo, sempre a fim do catavento disseminar suas sementes e as borboletas semearem seus tão bonitos e esperançosos abraços.

*Texto dedicado a Marília Vomero, pela ideia tão bonita.

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

Cachimbo de ouro

Deu uma longa tragada no velho cachimbo marrom. E velho. O cachimbo era velho e velho ele estava. Digo, muito gasto pelos anos. Deveras, muito gasto. Sua vida já assumia aqueles tons marrons e verdes musgos. Sua cadeira já era daquela madeira escura e o estofado era do nude mais avermelhado. Ele cruzava as pernas e inclinava-se para frente, apoiando o cotovelo direito pesadamente sobre o joelho esquerdo, já tão fraco. Olhava para cima. Mas a cabeça continuava fixa. A cabeça não ousava mexer. O que se movia era unicamente o olhar. Não digo puramente o olhar porque o olhar não tinha nada de puro. Era olhar pesado, eram olhos cerradíssimos, era até doloroso e de dor estava até. Mas não puro. Os olhos se moviam até com certa agilidade perto do ágil que atingia nos últimos anos. Fungou. Tragou novamente. Pensou no velho papagaio que estava no quintal, pensou em ir até a cadeira de balanço para se distrair, mas sentiu preguiça. Sentiu fadiga. Espreguiçou-se ao seu modo, muito lentamente, enquanto pensava nas histórias de Natal que ainda recordava da infância. Pensou na vitrola de verniz vermelho e bocais dourados, pensou no disco de vinil, quão imponente era e teve saudade de ouvir música. A música que faz chorar, que desperta sentimento. Não que ele chorasse, pois era duro. Muito duro. Mas pensou por pensar, divagou, olhou para lareira, ouviu a música de um fogo fictício que atiçava sua alma para frente, para passos e caminhadas, para sons e para um silêncio duro e profundo. Duro e profundo, e essas palavras ecoavam em sua mente. Duro e profundo como ele. Tragou novamente. Sentiu o coração queimar. Levantou-se. Fez a madeira do chão estalar, fez as janelas de vidro serem vistas, fez as tantas árvores lá de fora serem apreciadas e chegou na cozinha. E olhou para os armários embutidos em branco. E olhou a ordem estabelecida. A toalha florida e limpa. O cinzeiro de prata com um cavalo estampado. O vaso de argila com flores artificiais fincadas. Os talheres de madeira escura e pregos dourados. O telefone a rodar. Olhou para aquela mesa. E olhou. E fez ser visto o jarro. E olhou para a pia. Fez ser visto o filtro de barro. Olhou para a mesa. E viu. Viu o cesto de pão, aquele que cabia apenas um único pão. Aquele que estava coberto com um guardanapo de papel todo pintado de frutas, de banana, de maçã e de pêra. Viu o cesto. Vazio. E sentou no banco de madeira de quatro pés, todo riscado pelo tempo e pelas mãos de alheios amigos, conhecidos, inimagináveis. Riscado por histórias. Riscado por amor.
Riscado pelo amor. Soltou um ruído baixo e um tanto quanto inconsolável. Repousou seu chachimbo no cinzeiro limpo e soube que o limpo logo estaria sujo para sempre. Olhou o cesto. E chorou.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Água viva

Mostrava-se em paz do carma em auge indiano, com sua camiseta branca em atrito com seu corpo, a calça folgada nas pernas, confortável. Os pés descalços. A alma descalça de motivos. Os olhos amendoados intrigados. Uma colher de doce na boca. Segurava a colher firmemente e a pressionava contra seus dentes. E no meio do nada, encontrou a inquietude. Foi até a janela. Recostou-se no parapeito. Olhou o que estava fora e o que não sabia se podia ser chamado de paisagem. E não sabia porque estava inquieta. Do outro lado do mundo, lá estava, e sentia como se pudesse ouvir o choro baixo. Sentia como se sua paz estivesse sendo tomada em cenas observadas pela janela em que nada mais acontecia do que o mais simples de qualquer cotidiano. E o diário passava rapidamente pela noite dos olhos. E o corpo era tomado por espíritos angustiados, e confusos e felizes. As flores lhe saltavam aos olhos, e o pólen virava lágrimas. E chorava forte, e chorava mais. E as águas transbordavam em conssonância do mar que a tomava. Mar mais heterogêneo, dolorido. Alívio. A humanidade pedia o alívio prometido aos bons. Todos eram bons. Era um vômito cego. Era um vômito de lágrimas que transbordava. Era uma bola de gelo que prendia a garganta. E a bola esquentava e queimava. E a bola dava a vontade de gritar alto. E a bola fazia libertar no choro explícito. E as amendoas semi-cerradas ouviam o movimentar, a correria, a água, as lágrimas. A paisagem foi vista se transformando. A conformação foi tomando lugar. As pessoas corriam. Todos os seres se esquivavam. Ela estava parada. Ela parou por aquele instante de segundo. Ela estava chocada pela não continuidade dos fatos. Chocou. Chocou mais. Quebrou. Lacrimejou. Não reagiu. Não se moveu. O chão de todos tremeu. O chão de um povo tremeu. Um prédio logo em frente caiu. Os alicerces despencaram traços fundamentais de uma cultura. E ela assistiu a tudo de um camarote inundado. Ela se viu no meio de suas posses perdidas e de seu ser invadido. Seu carma de paz caiu junto a tudo. Todas as bolas de neve saíram do foco de todos os problemas e tudo se traduziu a um assistir doloroso e conformado de vida caindo por terra. A dor conformada. A morte conformada. A inconformação de um segundo. A água viva tomando vidas para si. Um afogar lento, tranquilo. A colher caiu entre gotas coloridas. Os melhores votos da humanidade para todas as almas da vida em destruição, de água, de morte, e de vida. Os melhores votos de vidas pela vida. Por todas as cores do universo.

*Dedicação de votos de paz para todas as vítimas diretas e indiretas dos recentes acidentes no Japão.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Inveja Boa

De rede na varanda, de correr atrás de barata, de apagar a luz, de pular na cama, de dar beijo estalado no rosto, de dar abraço gostoso, do cinzeiro lá de casa, do cigarro do avô, do tempero baiano, da comida dita boa, dos espaços em branco da mente, da correria cotidiana, de quem tem tempo mole, mas de quem para tudo tem tempo certo, do tempo que é errado, da vida que está certa, do tempo que é certo, do tempo que está certo, de tudo que fluí, do cachorro do Romero Brito, dos espelhos que tudo vêm, dos olhos que podem ver tudo, da cadeira lá parada, do vaso em cima da mesa de centro, das almofadas em repouso, da inércia, da cinética, da garrafa vazia de coca cola, da sacola cheia de presentes, do livro ainda não lido, da pessoa ainda intocada, da caveira surpreendida e estática, do candelabro rubro, da tomada rústica, de tons modernos, de falas compridas, da prolixidade de uma vida, da fala, da linguagem, do tio rico, do primo pobre, do passarinho, do brigadeiro na Itália, da toalha cheirando a sabonete muito fresco, do chale no pescoço da madame, das folhas de um coqueiro do qual bebo o coco, das orelhas compridas do moço, da bolsa aberta na mesa, do peixe no aquário redondo, do azulejo um pouco manchado, da cama arrumada, do nostálgico todo empoeirado e do morto. E do vivo.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Por tudo que é sereno

Por tudo que se diz sereno, me dedico a humildade. Por tudo que é sereno, dedico ao mundo a paz de espírito, o olhar fixo na parede branca, a vida em recomeços pausados e a dor tão poupada! Falarei de papel em branco e de caneta nova, e de cheiro de terra molhada, livro novo, avô e de avó e tempero gostoso. E falarei do vento da janela da sacada. Por tudo que se diz sereno, falo-te em amar e viver ao mesmo tempo, ainda que ninguém saiba ao certo se isso é possível. Por tudo que é sereno, recomendo o grito. Convido a se jogar. Peço um cobertor. Falo com ursos de pelúcia. Abraço o mundo. E suplico pelo respirar mais fundo, ainda, essa, a melhor parte de ser sereno.
Estar sereno entre todas as estrelas do mundo.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Chuva de Refrigerante

As pérolas, o escorregar escada abaixo, o travesseiro no ar, os sorrisos alheios, o pular, o gritar, o livre dos braços, o movimento leve, o cantar extravasado, os cristais reluzindo, o bizarro, os porcos cor-de-rosa, as luzes muito bem iluminando, as funções tidas como boas e fáceis, a convivência gostosa, o futebol, a comemoração, a bola, a torcida, o gol, a corrida em pista dura, o medo de cair, a tinta vermelha, o morcego na quadra, as almofadas grandes, a televisão recém instalada, a dança esquisita, a crise de riso, a vela acesa, a fogueira, o violão, o canto conjunto, a noite não dormida, a noite conversada, a noite tocada, os sorrisos no silêncio, os movimentos calculadamente silenciosos, a contenção mais extravasada, o braço dado, o correr junto, o junto ofegante, o céu de estrelas, o ver de estrelas conjuntas, o ver conjunto, o livre e junto escutar, o ouvir de declarações, o rir delas, os cartazes coloridos, as feiras, a criatividade, o geladinho azul, o picolé de chiclete, a figurinha do álbum, o cheiro de banca de jornal, a canetinha, o giz de cera esquecido, a cola bastão, a cartolina vermelha, as jujubas de todas as cores, a música da banda nova, a capinha decorada do cd, o peixe no aquário, a psicina povoada, o biquini emprestado, a calça sem bainha, a moda listrada, os macaquinhos e as zebrinhas, os ônibus de excursão, os recém conhecidos, a festa de quinze anos, todas as valsas da vida, o abajur francês quebrado, o perfume francês roubado, o perfume venezuelano exaltado, as princesas, os príncipes, os casamentos reais, a nostalgia, os palácios, as roupas, as nostalgias, os doces, a nostalgia, o deja vu, a estante de bolos verdes. E tudo que é verde. E tudo que se faz colorido. E toda felicidade reina no canto. E logo ao lado. No cenário, chove a chuva de pressão de garrafa aberta. Chove a chuva fina e gostosa. Chove a chuva melada que une a todos. Chove refrigerante. Um brinde a tudo isso e a todo o resto.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized