Cafeteria

Aquele brunch todo obscuro. E todo, por si, lindo, arrumado, de rosas, de flores, bromélias. Aquela vitrola de lado parada, de hora e outra alguém colocava uma moeda e selecionava sua personalidade em notas musicais. Tão profundas e tão sonoras notas musicais. Aquela vitrola tinha mão de barro, que, por vezes, dava um soco seco e era áspera no agradar de todas as memórias. Mas também tinha mão de seda, que afagava o florear dos neurônios em uma plasticidade tão e quão boa, e sem fim, de memórias refletidas em um espelho colorido. O café preto era forte, de arretar as mandalas da alma, de balancear uma energia contida no fundo do peito para cima, rumo a um infinito pessoalizado e, para alguns, tão e portanto, estagnado. Aquele cheiro penetrava as narinas e sensibilizava os receptores, mas ainda assim, acomodação não existia. Sentou na poltrona almofadada. Não costumava gostar desse tipo de poltrona para se alimentar, apesar de confortabilíssima, na prática se demonstrava desajeitada. De desajeitada bastava ela, a pesos e tropeços, mas tinha teor de vida, o que, em sua opinião, era o mais importante, afinal. O quadril demorou a se acomodar, de um lado a outro. E toda vez que se inclinava para alcançar a xícara branca do café, repetia o mesmo processo, de direita a esquerda, o quadril, robusto e gordo, se balançava, aconchegando o resto do corpo em um organismo íntegro. Sentado e íntegro, logicamente no limite em que um organismo consegue estar confortável e íntegro ao mesmo tempo, e hei de dizer que esse limite não ultrapassa muitos degraus além do comportamento basal e, com cheiro de fundo, instintivo. Pois bem, seu id desejava aquele café, mas seu super ego a alertava que aquela postura desajeitada era logo o pecado do mundo: pecado múltiplo de ser transparente como renda, ofuscando linhas congênitas e genuínas, mas reconhecidamente, ou não, simplesmente causas do acolhimento embutido e encolhimento tímido, mais tido por vergonha. Aquele sentimento que acomete os inseguros a todo tempo, e também os seguros, entretanto, modifica-se a forma de projeção e demonstração, tendo por final, a modificação da máscara e do disfarce. Afinal, os seguros são convictos e assumidos camaleões, e não há de se negar a inteligência de tal animal, porém, como sempre generalizações não são bem vindas. Abastou-se, empurrou o prato com a torrada semi mordida para frente, ouvia, em seu estômago, a sociedade anunciar saciedade ao passo que se coração pulava em direção ao mundo, insaciável. Observava o Senhor de bengala, com os nítidos bigodes grisalhos. Observava o florescer pendurado, no local climatizado, em luzes secas e amareladas, e florido, floria, pendurado. Pendurado naquela concessão de mundo, veja bem, naquele espaço entre o amor e o não amor. Não digo entre amor e ódio, porque esse espaço, muitas vezes nem ao menos existe, mas digo entre o amor e a indiferença. Entre o amor e o pêsame, mais provavelmente. Aquele espaço que pende entre o choro e o riso, entre a felicidade e aquele ponto maligno que sempre estará aceso recortando a ferida. Aquele abraço caloroso e acolhedor, aquele beijo quente e desnecessário, mas frutífero em termos de um brotamento interno, deveras, produtivo. O caixa enferrujado traduzia o que sentia por um amor perdido, cheio de dinheiro inválido. O ventilador mais que refletia o coração batente e suplicante do perdão a si. A ansiedade pulsava em pássaros coloridos, cheio de miçangas e cristais, voando por sua cabeça oca de toda racionalidade e, pois, provida de todo sentimento. Guardava em si os sonhos do mundo, e na sala da vida ela era o lustre de diamantes, que reluzia discretamente, mas completava o contexto, a conjuntura e o ambiente, aos olhos ainda de um outro que entrou. Abriu a porta a passos quietos, mas afobados, extremos e ansiosos, atitude grotesca e infiltrada de sentimento, mesmo que ninguém soubesse qual. E então, se descobriu. Foi descoberto o poerque daquele caminho turvo, que chegou da chuva de fora com os fios molhados, o casaco fino encharcado e a mochila deixada de fora, largada e sem medos e receios de ser levada. Ela, ainda de costas, segurava a lágrima que estava para cair, contraindo toda a musculatura ocular, com tanta força que chegava a doer. Concentrava-se em atingir a taça, com aquele líquido alaranjado, ainda buscando a saciedade do buraco negro visceral. Ele a atingiu com uma mão no ombro. Ela se virou, irrompeu em lágrimas interruptas. Eles se envolveram em um abraço acalorado, preso e mordido, estático lateralmente, apertado, ali e sempre, naquele espaço entre o amor e o pêsame, entre o infinito e a brevidade, o oco incompleto, não preenchido por quaisquer compreensões e distrações. Compila-se com força e coragem, amor, distância, convivência plena. Ou não. Ora, enforcada foi a saudade, de modo a pairar temporariamente sobre as nuvens do mundo todo, sempre a fim do catavento disseminar suas sementes e as borboletas semearem seus tão bonitos e esperançosos abraços.

*Texto dedicado a Marília Vomero, pela ideia tão bonita.

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1 comentário

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Uma resposta para “Cafeteria

  1. Marília Vomero

    Olha realmente foi o texto mais lindo que você já escreveuuuu!! ameii..pensareii em outros temas…haha te amo!

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