Arquivo do mês: fevereiro 2012

A colher

Abriu a porta naquela ânsia de coar um café, de sentir aquele cheiro quente. O cheiro de café, como já era de se esperar, povoaria e inspiraria sua alma. Mas enganam-se aqueles que pensam que o foco ideal seria ao que ingere, ou ao ingerido. As luzes estavam voltadas apenas a um instrumento não tão fundamental ao processo, mas um aliado inalienável e quase que sempre infalível, salvo a peripécias de crianças, e na carga de ovos. Pois bem, teria uma vez que nem sonhava em compartilhar com os alheios, em que quando criança deu-se por si o assalto a colher: a babá saiu a desfilar pela rua, após ter seu sutien vomitado por aquele regurgitar contínuo, sabe? E quando se pôs a dentro de seu corpo, consciência, propriocepção, mas acima de tudo, e a reinar, a percepção alheia voltadas ao seu quadril, veria a idiossincrasia infantil presente em seus pertences, e carregados a bel ver, de lá, para cá, para acolá. A colher coroada no bolso posterior daquele jeans surrado. Com seu cabo alaranjado, como todas as outras da gaveta de Dona Senhora, lá estava aquela, metida a desfilar em público, no silêncio genuíno e congênito dos maquiavélicos prontos a causar. Mas besteira achar isso da pobre da colher, afinal, meter-se a besta para um passeio breve. O causo em que se segue, é que atualmente entrou na moda das tortas salgadas. E entre muitas tortas, a criança cresceu. Largou regurgitares, vômitos e, por incrível que pareça, achou desinteressante depositar no bolso da babá novamente uma colher. Ademais, se interessou pela arte da cozinha e, diga-se de passagem, do café. Além disso, deixou-se seduzir pelo paladar amargo, e pelo bolo de pão, requeijão, café. Como pão, manteiga e pingado. Entende das combinações ideais de um la coffe? Pois bem, era assim que iria conduzir aquilo, faz a massa, refoga o recheio, sua o pescoço, suja a blusa, lava a louça, vai ao forno, por fim, lembra do café. Acessa a garrafa térmica, a temer que as coisas aconteçam em um soar não recíproco, nem pausado, nem pautado na simetria, pois se o café ficasse pronto antes da torta…bem, não haveria de ficar. Ferveu a água da pia, esperou enquanto preparou filtro, encaixou na garrafa, se fez uma garrafa térmica de ansiedade contida, enxugou o rubor das bochechas trabalhadoras e enfim, ouviu o borbulhar ao lado. Estaria esquecendo, e logo perceberia, do pó. Pó embalado a vácuo, o melhor, por sinal. E foi então que se deu conta de que dentro do pote de café, que aquela mesma babá deposita ali, diariamente, vinte anos desde o fatídico episódio, estava uma colher, diferente de todas as outras da cozinha. Todas eram de prata reluzente, mas aquela ainda era de um degastado cabo laranja, em tom de abóbora. E lá se fez a história, repetidas vezes contadas, a imaginar o cárcere da colher. E porque, Deus, porque ela? Haveria de ser ela, castigada pelo infortúnio da vaidade? Castigada por um passeio casto? A princípio, não o que pensa, ao bater o olho não se deu conta. Foi ao forno checar a consistência da torta. Mas logo ali, ao voltar-se para o mundo novamente, embutida no raciocínio lento e pregresso, imaginou se seria correto libertar aquele tom não mais vivo, e sim pastel, daquela prisão. Seria a mesma? Seria a colher-irmã? Seria justo? Bem no pote de café? Misturada e escravizada diante de tanto pó negro? E desde quando? A imaginou dizendo, veja pelo lado bom, afinal, o cheiro do café. Mas sentiu o tom de culpa em nó, assolando a garganta. Amparou-se na cadeira com os braços repousados, fixando o fixo mais breve e mais infinito. Perdida em pensamentos daquela solidão assistida por todos, menos por ela, a culpada, encheu os olhos de lágrimas e condolências num instante rápido, esfregou os olhos com aquela violência dos culpados. Jurou para si não ser a mesma. Condenou o vácuo e o amargo se tornou para tanto e sempre, desprazeroso. Não haveria de ser a mesma. Das ferramentas e negações, para sempre útil acessório. Em memórias de uma colher, por mais imediata e especial em alguma história de vida desse mundo.

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Breve súplica auditiva

Ao aproveitar todo estático de dentro, ao colocar tudo isso para fora, os jorros se convertem em uma inspiração muda de ouvir para crer. Não é questão de criar, necessariamente, nem de ler, e sim de ouvir: diga, ouvido, diga, repita os sons mais e mais vezes. É educa-lo, afinal, e hei de concordar com tudo que se passa nos tímpanos, uma questão de ouvir e escutar, permitir. Permita aos ouvidos que as frases boas simplesmente entrem, ouça com os ouvidos, e as orelhas, e os pavilhões auriculares. Ausculte seu próprio coração a medida que ouve. Preste atenção uma vez em toda vida. Faça valer o que te dizem. E de repente se dê conta há quanto tempo não ouve uma opinião. Se percebe, veja bem, há muitos anos que não segue um conselho. Por fim, não reclame do valor atribuído aos escritores após a morte. Quando lhes era a serem ouvidos, quando necessitavam de conselhos sussurrados e de suas frases proclamadas, todos lhe foram cegos, ao que me leva a crer que muitas vezes, a maior liberdade do ouvido é a morte alheia. Assim, por fim, Dona Morte, não bata a porta de ninguém para tanto. Una-se ao tom das músicas, dos artistas, dos sorrisos falsos e até dos verdadeiros. Dê três toques. Acenda a luz. Penetre as membranas timpânicas. E se faça valer a favor da vida bem ouvida, por favor. Dos maiores os conselhos, da mais ingênua oração se tira súplicas de vidas possíveis e passíveis de serem vividas: para vivê-las sorteie na loteria literária a frase certa no momento certo, e se ainda não os forem, guarde para mais tarde. E tudo, e só.

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