A colher

Abriu a porta naquela ânsia de coar um café, de sentir aquele cheiro quente. O cheiro de café, como já era de se esperar, povoaria e inspiraria sua alma. Mas enganam-se aqueles que pensam que o foco ideal seria ao que ingere, ou ao ingerido. As luzes estavam voltadas apenas a um instrumento não tão fundamental ao processo, mas um aliado inalienável e quase que sempre infalível, salvo a peripécias de crianças, e na carga de ovos. Pois bem, teria uma vez que nem sonhava em compartilhar com os alheios, em que quando criança deu-se por si o assalto a colher: a babá saiu a desfilar pela rua, após ter seu sutien vomitado por aquele regurgitar contínuo, sabe? E quando se pôs a dentro de seu corpo, consciência, propriocepção, mas acima de tudo, e a reinar, a percepção alheia voltadas ao seu quadril, veria a idiossincrasia infantil presente em seus pertences, e carregados a bel ver, de lá, para cá, para acolá. A colher coroada no bolso posterior daquele jeans surrado. Com seu cabo alaranjado, como todas as outras da gaveta de Dona Senhora, lá estava aquela, metida a desfilar em público, no silêncio genuíno e congênito dos maquiavélicos prontos a causar. Mas besteira achar isso da pobre da colher, afinal, meter-se a besta para um passeio breve. O causo em que se segue, é que atualmente entrou na moda das tortas salgadas. E entre muitas tortas, a criança cresceu. Largou regurgitares, vômitos e, por incrível que pareça, achou desinteressante depositar no bolso da babá novamente uma colher. Ademais, se interessou pela arte da cozinha e, diga-se de passagem, do café. Além disso, deixou-se seduzir pelo paladar amargo, e pelo bolo de pão, requeijão, café. Como pão, manteiga e pingado. Entende das combinações ideais de um la coffe? Pois bem, era assim que iria conduzir aquilo, faz a massa, refoga o recheio, sua o pescoço, suja a blusa, lava a louça, vai ao forno, por fim, lembra do café. Acessa a garrafa térmica, a temer que as coisas aconteçam em um soar não recíproco, nem pausado, nem pautado na simetria, pois se o café ficasse pronto antes da torta…bem, não haveria de ficar. Ferveu a água da pia, esperou enquanto preparou filtro, encaixou na garrafa, se fez uma garrafa térmica de ansiedade contida, enxugou o rubor das bochechas trabalhadoras e enfim, ouviu o borbulhar ao lado. Estaria esquecendo, e logo perceberia, do pó. Pó embalado a vácuo, o melhor, por sinal. E foi então que se deu conta de que dentro do pote de café, que aquela mesma babá deposita ali, diariamente, vinte anos desde o fatídico episódio, estava uma colher, diferente de todas as outras da cozinha. Todas eram de prata reluzente, mas aquela ainda era de um degastado cabo laranja, em tom de abóbora. E lá se fez a história, repetidas vezes contadas, a imaginar o cárcere da colher. E porque, Deus, porque ela? Haveria de ser ela, castigada pelo infortúnio da vaidade? Castigada por um passeio casto? A princípio, não o que pensa, ao bater o olho não se deu conta. Foi ao forno checar a consistência da torta. Mas logo ali, ao voltar-se para o mundo novamente, embutida no raciocínio lento e pregresso, imaginou se seria correto libertar aquele tom não mais vivo, e sim pastel, daquela prisão. Seria a mesma? Seria a colher-irmã? Seria justo? Bem no pote de café? Misturada e escravizada diante de tanto pó negro? E desde quando? A imaginou dizendo, veja pelo lado bom, afinal, o cheiro do café. Mas sentiu o tom de culpa em nó, assolando a garganta. Amparou-se na cadeira com os braços repousados, fixando o fixo mais breve e mais infinito. Perdida em pensamentos daquela solidão assistida por todos, menos por ela, a culpada, encheu os olhos de lágrimas e condolências num instante rápido, esfregou os olhos com aquela violência dos culpados. Jurou para si não ser a mesma. Condenou o vácuo e o amargo se tornou para tanto e sempre, desprazeroso. Não haveria de ser a mesma. Das ferramentas e negações, para sempre útil acessório. Em memórias de uma colher, por mais imediata e especial em alguma história de vida desse mundo.

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