Poluição autoauditiva

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Zum, zum, zum. Porque agora insistir no retrocesso? Quero dizer, obviamente não é uma boa ideia os oitenta quilômetros por hora em todo um percurso. Em todas as horas. Sabe que há muito aprendi sobre certas tendências de decisões, e pensamentos, e resoluções de vida. Essa tendência consiste no fato de que segredos mórbidos de nossa consciência ficam a nossa mercê em breves espaços em que não nos resta mais opção alguma do que sentar e esperar. Muitas vezes nem sentar. Inevitavelmente, somos limitados a uma margem reacional restrita, eu diria. Ou conversamos com o estranho ou não estranho ao nosso lado, ou viramos ao lado e dormimos, ou ficamos em pé, socializamos, todas essas opções mais complicadas e difíceis do que bolar um drama pessoal enovelado, juntar os joelhos e pensar na vida. Essa  é a grande essência das viagens de ônibus e andares e mais andares no elevador. Mas aqui viemos a falar dos ônibus, afinal. Os ônibus cheios daquele ar de cumplicidade, de todos que compadecem com determinada situação, a qual, de costume, representa o infortunado que dá a ser o sem noção da viagem. O infortunado ronca, fala alto, fala demais, esporadicamente vomita e, quem sabe, elimina certo teor de flatulência. Mal sabe ele que é o pivô do entendimento e união social e alheia. E se soubesse, ficaria feliz, pois. Afinal, qual a brecha de tamanha ironia em um país no qual as pessoas não se unem nem para reclamar com o padeiro do preço do pão? Embora nem saiba mais se esse é mesmo um exemplo cabível, já que a padaria agora também segue protocolos burocráticos da balança. A padaria, o governo, as mulheres, os homens, a mídia… A epidemiologia da balança. O que há? O que há é que o afortunado, por um acaso, segue o seu destino fidedignamente, leia-se, por favor, não espere uma viagem de ônibus completamente tranquila. Não vá sem seu espírito de socialização. Ainda que nos elevadores, há um breve período, tão breve que complica nossos primeiros passos do processo, mas aonde eu quero chegar com isso? Ao primeiro passo. Acontece que o determinado ser humano, escolhido a dedo por sua consciência defasada, descompilada, incoerente ou ingênua, gera na população em volta alguma das opções que seguem, mais de uma ou todas, o que incluí vontade eminente de riso, contenção de risadas frenéticas, ou elas propriamente ditas, caras feias, e, acima de tudo, os benditos ou malditos olhares de cumplicidade. Aos que esperam de uma viagem de ônibus apenas uma viagem de ônibus, é a eles que se deve culpar. Entendeu isso? Pois trata-se de olhares destinados a pessoas não necessariamente do mesmo sexo, mas comumente da mesma idade, não sendo também esse um critério obrigatório, pois na ausência dele, qualquer critério torna-se válido. Sim, a bem entender, as pessoas se olham. Se solidarizam. Compartilham sua vergonha alheia, seu olhar constrangedor, sua infelicidade e infortúnio de pobrezinho companheiro de viagem, em geral traduzido por um sorriso de canto. E da infelicidade, torna-se história para contar. O exército geracional se forma. Isso quando não se formam os exércitos geracionais. As panelas do ônibus. Uma vez formadas, a viagem torna-se bela, rica, mas o sono é perdido. Perde-se o pudor, a vergonha, e atingi-se o pior modo de intimidade: o instantâneo. E o capitalismo deveria se envergonhar, já que essa rede de fast-intimity é bem mais antiga que qualquer ideia de fast-food. Já devia-se prever que não renderia bons frutos, afinal. Os celulares começam a tocar, as pessoas começam a rir e falar alto. No celular. Os toques se misturam, e após o fim de uma ligação na primeira cadeira, já começa outra na vigésima, e isso estimula o passageiro da vigésima quarta a fazer uma ligação, por estar se sentindo sozinho, e o outro da vigésima nona a enviar uma SMS sem, no entanto, tirar os ruídos das teclas. A comadre que ganhou o celular do filho ontem não sabe muito bem como mexer no tal aparelho, e acredita fielmente, botando uma fé descomunal, na incapacidade das redes telefônicas, que afinal, não é tão falsa assim, pressionando suas cordas vocais rumo ao insucesso. Ah, e não esquecendo é claro, se uma cláusula que se faz especial e fundamental, e que vem a tona em certo rumo, que é a panela da tosse. Sabe-se lá porque, as pessoas de início tem um sentimento de pudor e vergonha estranho, bastante atípico. Têm vergonha de tossir. Sim, de tossir. Então, quando o coitado já está que não se aguenta de tanto segurar a tosse e desata a tossir, o outro acolá rapidamente aproveita a deixa, gerando o dominó e a famosa panela da tosse. A panela da tosse. A panela dos fones de ouvido que não parecem fones de ouvido. Das músicas altas. Dos oitenta quilômetros por hora. Oitenta em uma hora. Cinco horas. Oitenta. Fecho os olhos, coloco óculos escuros. Minha cumplicidade é exclusiva a mim, e a poluição sonora do ambiente. Saudade que vem dos velhos tempos em que as pessoas dormiam nas viagens de ônibus, e que o infortunado era só o infortunado, e não um único ser no meio de tantos outros sem a tal da sorte.

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