Arquivo do mês: maio 2012

Mindinho

Hoje eu acordei feliz. Mentira, eu acordei e fiquei feliz. Fiz as pazes com o sol. Hoje eu e o sol tivemos uma conversa, que, confesso, foi propiciada pela chuva de ontem. Ontem, posso dizer, estava, deveras, preocupada. Soprei à chuva essas minhas palavras, sabe? Poxa vida, ela havia de entender que não podia ir. Há quanto tempo não a via? E o sol tomava todas minhas manhãs? A quanto tempo não me via, e eu procurando desesperadamente aqueles CD’s de meditação, com o som dela? Só para dormir em paz. Pois bem, não imagina toda a inspiração de vida que se apossou de mim quando eu vi ela chegar. Fui só sorrisos, aliás. A chuva deve ser, inconscientemente, algum édipo muito mal resolvido nos confins da minha alma. Sendo ou não, sei que conversamos demais. Eu aqui, sentada nesse sofá, a observando de fora. E melhor, a ouvindo. Não quis encontrá-la la fora. Não dessa vez, não me inspirou confiança. Olha a história de vem e vai, demora meses a chegar, chuva? Veja se pode. Mas meu orgulho não me permitia a tanto, ah, não, ele nunca permite. Então, dessa vez, ao notar a falta que ela fazia…ela e o friozinho que trazia, de algum modo tocou no fundo da minha alma, de que eu deveria mesmo me alegrar com o sol. Em outros cantos do mundo, o sol já foi capaz de me alegrar. Tão capaz. De me fazer ganhar o dia ao abrir a janela e vê-lo. Foram nesses dias que a chuva era coisa de nada. Para mim. E isso só me faz retificar clichês, já que, afinal, a gente só dá valor quando perde, etecetera. Acontece que o sol me pirraça. E esse outro clichê do qual você, provavelmente, tenha lembrado agora, não faz sentido. Não se pirraça apenas quem se gosta. Estou apta a dizer que é impossível gostar de todo mundo em uma cidade, e, sim, ele é atrevido. Ele o faz. Pirraça a todos, um por um. Eu as vezes tento olhar para ele. Só para ele entender o quão brava eu estou, com os quarenta graus da calçada, e o suor escorrendo, e a maquiagem derretendo, e o cabelo arrepiando, e a pele queimando, e a enxaqueca subindo… Eu olho, e ele desvia o olhar. O meu olhar. Esse poder que ele exerce não é nada justo, se for parar para pensar. Olho sim, com olhos de brava e nariz de brava. Como é nariz de brava? Nariz torcido? Nunca me vi fazendo essa cara no espelho. A questão é, ele não me ouve, e continua a me pirraçar. A mim e a toda cidade. E ainda, posso salientar, que quando dá a atacar, faz coçar o país inteiro. Vira notícia de TV, comenta-se no formigueiro e na estufa. Faz um fuá! Pois ontem eu choraminguei até. Choraminguei, e engraçado isso, né? Ao invés de aproveitar meu momento de chuva, chorei por não tê-la todos os dias. Por não tê-la, ao menos, uma vez na semana, toda semana. Ah, fiz birra, me cobri, dormi. Acordei. Era isso mesmo, se não foi, iria, e ele vai voltar amanhã. Com certeza ele voltaria, e eu estaria na rua, debaixo dele. Torrando, aquela sensação única e maravilhosa de que águas, literalmente, vão rolar. Por fim, hoje eu acordei e ele falou baixinho. Que em minha homenagem, e veja só, justo a mim, ele daria uma mãozinha. Para apaziguar minha dor. Ele disse que bem sabia que eu sofria a cada vez que a chuva partia, e que o frio ia. Mas que por hoje, apesar de ser a cena dele, ele se conformaria em não ter cena completa. E iria me deixar continuar fingindo que aquele ir embora de chuva não me causou nenhum impacto. Ia sim. Ia me deixar pensando que meu nariz empinado não era mal de orgulho. E ainda falou que o orgulho dele estava em paz por hoje. Hoje eu acordei e fez sol. Fez sol e fez frio. Nessa cidade, sol e frio. Se não foi para mim, me apoderei do feito. Hoje é hoje. Sem choramingos, por ser o sol, me sinto na obrigação de aproveitar o momento. Solzinho mais lindo da vida.

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Ela voltou.

Fiz, hoje, um trato comigo mesma. Não que, durante minha vida, tenha feito deles aos montes, e muito menos, dos que fiz, muitos cheguei a cumprir. A esse momento, pensei em escrever que menos cumpri. Mas ando otimista, e isso envolve muitas partes do meu trato. Pois bem, dele digo que envolve a não maleficência no trânsito. Pelo menos em parte. Cabe a mim nunca mais dizer que o trânsito dessa cidade é caótico. Porque não é. Não é, definitivamente, não o é. Por fim, me comprometo a dizer que não é maldito. Se vou cumprir, não sei. Sei é que, com certeza, vou justificar, e aqui mesmo vem a justificativa. Eu, sozinha e desacompanhada de quaisquer mal-humores que conspiram contra mim nessa terra e nesse trânsito, já sou cheia de esquecer onde coloquei a chave do carro. Ou seja, não raras vezes, o universo de fato reconhece o meu não potencial de enfrentar as mazelas dos indivíduos sem farol, sem retrovisor, sem seta e, acredite se quiser, sem freio. Por Deus, é pedir muito? Uma freadinha aqui e ali, uma olhadinha esporádica? Antes que a raiva volta a se disseminar, aprendi que se atualmente a seleção natural poupa as pessoas em prol da seleção artificial, o trânsito faz um papel de professora substituta perfeita: só os mais fortes, sagazes, ágeis, e sortudos sobrevivem. Pura seleção natural. É, deveras, uma selva. Ao menos o daqui. E, para tanto, obviamente, como boa não-nativa dessa terra vermelha, resolvi eu respirar fundo e me entreter, no que consiste mil e um CDs no carro, os quais não conseguem, todos, caber em um mesmo canto. Quem ainda compra CDs? Eu. Eu os compro. O outro hábito, perdoem-me os policiais que podem ocasionalmente vir a ler a isso, é falar ao celular. Ah, eu falo. E sabe de uma coisa? Eu falo, eu dou seta, eu freio, eu ligo a luz assim que lembro de ligá-la e nunca me atrevo a andar sem cinto, ainda que seja para puxar o carro para frente na garagem. Mas falo. Falo sim. Por mais que meu amigo mais sistemático me atormente até o fim da minha alma, inesgotável, para que eu dê o celular para ele. Não dou. Pois foi numa dessas que me veio a notícia bombástica. Ela voltou. Voltou? Como assim voltou? Voltou porque? Sabia que voltaria. Uma hora voltaria. Nenhuma fortaleza é estúpida ou inesgotável. Mas é fortaleza. É fofa. É forte…como é forte! Acredito que seu choro demorou muito a vir. Eu, em seu lugar, estaria derramando prantos. Lidar com a insegurança? Veja se pode, meu maior problema na vida. Problema de muita gente sim, eu sei, mas por quanto tempo há de se ficar expostos a fracassos? Na verdade, aparentes fracassos, pois, minha amiga, não acredito que nenhum deles tenham sido fracassos reais. Você só não saberá disso por agora. Há a hora, porém, em que essa situação e explicação virão mais mastigadas. Mas então era isso mesmo, não é? Ela era forte, mas segundo minha mãe, entre uma cobrança e outra, voltou por motivo urge. Parei para pensar. Ademais, tirei memórias. Quem me ensinou a ir contra as regras. Sem cobranças, com sorriso sincero, ansiando a me ver feliz. Talvez, confesso, não tenha torcido tanto para a felicidade dela como ela para a minha. Desde cedo me estimulando a liberdade, a vida. Viva, viva, viva, hoje eu vejo que ela sempre me ordenou, baixinho, aos cochichos mentais da minha cabeça grande. Que professora que tive. Pois quando criança me fazia rebolar até o chão. O dedo da mãe ia de um lado a outro. Mas ela dizia para pular e pular, e rebolar mesmo! E tinha que ser até o chão! Me colocava de frente para o espelho para me mostrar como eu era infrutífera com meu progresso. Como meu rebolar não era tão bom quanto o dela. E quando o era, salva-me Deus, que ela parecia ao espelho de biquini e duas bóias de braço. Dizia que eu era frouxa, já que não sabia dar pulo na piscina. Aquele medo da vida podia me matar, ainda mais do que já mata, se ela não me ensinasse a dar pulos. A mergulhar. Sereia, sereínha, vamos passear? A coragem dela sempre me fez provar da minha. E depois de tantos rancores infantis, uma irmã mais nova não vem tão ao acaso, afinal. Posso dizer que ela me ensinou que ser princesa não é legal, não como eu costumava ser. Que o reino tem de macabro, mas que meus sonhos são compromissos também dela. Quanta fortaleza, meu Deus. Como eu amo minha fofolete. E eu, que por tanto tempo fui fraca de pensar que era mais forte que ela, agora só vejo que nos meus únicos momentos de forte, inevitavelmente forte, era ela ainda mais forte do que eu. E a personalidade, que aparentemente quietou-se, que me fez brigar na escola, que ficou tão ingênua e delicada, frágil…é na verdade, tão excêntrica a ponto de misturar banana, arroz e feijão, pregar peças, ficar linda, gritar “Máááááárcio”, brigar, tocar na ferida, enfiar o dedo na ferida e torcê-lo. Tão excêntrica! E não é que brincou de barbie até os dezoito anos? Não é que a coleção é tal a qual em que ela é dona do pedaço? E escreveu carta para o papai Noel, sim Senhor. E fez xixi na cama. E teve medo. E vira o Ken toda vez que troca de roupa. Todo dia o mesmo trabalho. A personalidade que esperneia, ai, que frágil. O bom gosto, o pular na minha barriga, morder minhas costas, e beliscar minha cara. Roubar no jogo do baralho e ser protagonista enquanto eu, tantas vezes, já fui café-com-leite. E minha fortaleza voltou. Meu bibêlo europeu, minha branquela de Gaudi, minha obra de arte, colecionadora de Barbies. Com frieza voltou. E o trânsito, né? Que vontade me deu de correr com o carro. Não esqueci as chaves. Não posso chamar o trânsito de caótico. Não mais. O caos é organizado, afinal, essa informação melhora muito as coisas. Ela voltou. O motivo que me deram? Voltou de saudade. Preciso avisar ela para não se esquecer de virar o Ken.

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Primeiro amor dos amores

Vou eu me meter a falar do amor. A verdade é que muito demorei para me dar conta de alguma coisa sobre isso. Ou posso dizer que, até mesmo, para me dar conta disso. Essa história de amor começa com pai e mãe. A filha era autista? Será? Pois te dou um cenário. A escolinha, as mesinhas coloridas. A favorita já não me lembro, mas havia de ser a verde. Não, com certeza era a verde. Sabe-se lá porque, a rosa não a agradava como à maior parte das meninas. E os brinquedos do parque de asfalto, que depois passou a ser de areia, depois que ela mesma caiu e se machucou e cortou e ralou, também não tinham graça, como tinham a todas, para as outras todas crianças. A graça era a mesa verde-musgo. A mesinha desbotada, dos banquinhos duros. Falar, não falava. Conversar com a professora? Não, não. Se colocava a escrever poesias e, sem hesitar, as entregava para a Mister. Durante todo o recreio. A criança era normal? A mãe se preocupava. A mãe hesitava, observava, e acreditava profundamente que estava tudo sob o mais denso controle. Conversava. Mas de tudo, não sabia ela que a criança sofria.Não fazia ideia. Sofria de amor, já naquela época. Aquela altura. Altura alta. Pois o charme daquela planta, que depois remetia ao Natal…o frio daqueles tempos, em que a mãe a enchia de casacos e ela corria do vento… A ansiedade de correr atrás do tempo. Nada os separou. E aí, até hoje, meu primeiro amor. Que me deixa ansiosa a vê-lo, me proporciona um acolher eterno, uma brecha no infinito, uma beleza fotográfica, uma paixão louca, um agarrar intenso e um complementar indefinível, indescritível, impropagável e insubstituível. Para aqueles os quais crêem, fidedignamente, que eu tenho um porquinho-da-índia, nego. Pois desde cedo, de sua alfabetização impecável, escolheu sua melhor forma de se comunicar: escreveria. E decisivamente, escolheu seu amar. Pior, lhe jurando amor eterno. Melhor, lhe sendo fiel por toda vida. Sem pareceres positivos e negativos, já que aqui só me cabe contar a breve história, se deu o flerte com o Português. A menina e a Língua Portuguesa. O caso do incesto Brasileiro. Em berço esplêndido. Só me resta dizer que, dessa união, resta felicidade e auto-conhecimento. De um, ou de outro, por vezes se bastam. E talvez, isso baste.

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Menina, os olhos!

A questão é que a gente sobrevive. Não é falar de fácil ou de difícil, a gente sobrevive. Não sei, aliás, o que deixa tudo mais difícil, saber qual é o sonho, ou não sabe-lo. Ter o sonho, ou não te-lo. Saber o sonho e teme-lo. Descobrir que hora ou outra sonho e realidade correspondem, ainda que seja em uma brecha ínfima. Saber que a porta está logo ali, que você vai ser feliz, mas que a felicidade é a locomotiva da vida. A consciência dela então? Por Deus, faz a vida passar logo. Em um pequeno pulo. Creio que seja por isso que falam do “depois dos dezoito”. Há maior realização pessoal do que a segunda década? Há como aprender mais sobre si? Os mal realizados, os mal compreendidos e os que mal se entendem com certeza devem encerrar a própria vida com a sensação de terem vivido tanto. Os invejo por esse ponto. Só por esse. Mas também, o que lembram dela? O que levam dela? Sabe aquela sensação de alma tomada por sofrimento? Aquele sofrimento que enche e ocupa todas as frestas? Entende dele? Sim, ele consegue intensificar um momento de tal forma…E pior, consegue transformar um dia na luz de todos os outros. A luz que leva a uma penumbra mistificada e disseminada, totalizada em figura de homem, com papel, caneta, maleta e pose. Talvez isso se assemelhe ao meu caso de eterno amor e viés com os animalzinhos. Hei de contar aqui o causo da galinha, em que a criança contida, das pernas grossas e da barriga saliente, coitadinha, tinha no quintal galinha, galo, cachorro, e tudo o mais que a intimidava. Era pavão, ganso, fonte. Limoeiro, laranja. E a casa de boneca. E a casa de boneca cor-de-rosa, ela dizia! Preciso mesmo salientar que o ato de colher limão é tentador? Da laranja eu não me lembro bem se era bom colher. Mas pegar uma cesta de palha, daquelas que vem de presente no café-da-manhã para a mãe ou para o pai, e colher limão é realmente uma terapia. A colheita tão de tempos retratadas naquela vida nostálgica e retrô dos quadros da pré-escola. E diziam, menina, vestido curto, papai não gosta. Menina, batatinha quando nasce, preste atenção, o bicho papão. Menina, ticatá, ticatá, ticatá. Não é para misturar refrigerante e sabão. Não pode colocar banana e arroz no capacete do tio. Não é para colher limão e acerola. Agora vejam como a pequena dos olhos amendoados fora injustiçada: qual o sentido de impedir a mistura do limão e da acerola? Daquele colorido inovador e predizente? Não que já tenha feito um suco, mas quando me dão limão, me vejo pressionada a fazer uma limonada! E se me dão limão e acerola, porque não fazer um suco? Uma mistureba? Uma variedade assim? Só nessa casa de loucos. Ela estava ali, descalça na grama mas com medo de cobra. Sob o olhar atento e carinhoso. Ela corria, colhia, e de vez em quando percebia que tinha sido picada. Era a cobra? Era, mãe? Não era, deixa eu ver…era a formiga, a formiga. Acontece que era esperta, a menina. De uma esperteza que ansiava a luta. Flertava com o pé de limão como ninguém. O cativava. Treinava a arte da sedução do limoeiro desde os cinco anos de idade. O pé de acerola era muito fácil. Mas o limão? Podia queimar. O limão? Era com ele que tinha de flertar. E estava lá, a olha o limoeiro. Mas o que nos interessa aqui não era seu foco central. Seu foco de distrações. Era, afinal, sua visão periférica. Era loba. Era loba de tato, olfato, audição, paladar. Visão. Era loba da visão. Eles estavam todos em volta, para de um momento a outro, possivelmente a atacarem. E ache do limoeiro a proteger? Não, ficaria era feliz e passivo em ver o tamanho da limonada. Pois não se interessava, a despertava a visão periférica, e, não acredito eu em toda essa felicidade do limoeiro. Devo, assim, ter exagerado. Ocorre que a questão é que se ofendia, dava de costas ao pé dos limãos, ia procurar ovos de galinhas escondidos por ai. Aprendera na páscoa a acreditar que realmente ovos estavam escondidos, e que deviam ser achados. Para comer, para comer, para guardar, para correr e para quebrar. Principalmente, para pintar. Tinha no fundo aquela esperança silvestre de achar chocolate por trás de tanta casca. E o seu sonho, qual era? E sua realidade, a qual remetia? Desde nova pensando na efemeridade do tempo, e tentando entender o porque passava tão devagar quando ansiava algo o qual passava tão rápido. Todos os dias, antes de caçar limão, acerolas e ovos na mesma cesta, se colocava a pensar na vida. Se colocava no seu dever diário autista. Na correria disfarçada. Era a vergonha e o medo de aparentar medo a todos que a cercavam. E quando o galo dava a correr atrás dela? O galo de briga? Se punha a fitar os olhos dele. Um enfrentar momentâneo. Fechou as mãos em punho, cerrou os dentes, prendeu a respiração e deu de costas por, realmente, um milésimo de segundo. Não é que diziam que o galo era bravo? Que a bicada doía? Esboçou um leve sorriso e correu como nunca acreditou que poderia. Correu com força e folêgo. Correu e se refugiou na casa de bonecas, até anoitecer, as estrelas chegarem, a porta de madeira ranger e o galo dormir. E o galo também dormia, quem disse que não? Em cima de seu sonho e da sua convivência  charmosa, sendo a rainha do quintal, se colocou a fora nas pontas dos pés, triunfosa, em mais um dia na batalha contra as aves. Triunfo dos limões, acerolas, ovos. A missão de amanhã seriam, talvez as mangas, talvez assistir ao choco da galinha, sentadinha, apoiando as próprias bochechas. Pois os olhos amendoados se colocavam diariamente a enxergar. Não só ver, enxergar. Ô sinestesia boa. Queria eu ter o sonho de fazer meu suco, meu suco com limões e acerolas, ao que mais próximo chego disso é quarta-feira, dia de feira. Afinal, fugir e temer os sonhos ainda é uma forma de nos deixar triunfantes e orgulhosos da gente. Só nessa vida. Mas ainda nessa vida.

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Quebrantar

Sabe que, dia desses, estava eu ali tão presente que ocorreu de quebrar um copo. Poxa vida, outro copo? Não seria justo mais um copo. E amanhã é outro, é outro e outro, essa coisa toda, sem fim. E digo o porque do desabafo, já que tudo se deve a uma tremenda de uma briga interna, sabe? A questão é que ouço de todos, e pelos ares, do quão distraída, do tão mundo da lua, sobre olhar a parede, e perder o fio da miada, e falar tanto a ponto de esquecer de onde partir. E levo broncas por focar a calçada e não a travessia, por ser ameaçadamente atropelada. É, e, por fim, ao interromper todo esse senso que me confunde, chego a conclusão de que a travessia em si me ameaçou, e acabou atropelando minhas ideias. Sabe de uma coisa? Quão ao acaso um copo se quebra? Me diziam que era bom que quebrasse, quebrava junto o quebranto. E o quanto me invejam? Invejam porque? Por quebrar copos? Me poupe. Atropelam sim a minha ideia! Por Deus, não me deixam pensar! E eu me vejo andando, de um lado para o outro, a repetir, não escreva em primeira pessoa, eles não entenderão. Não faça isso, você mesma não sabe fazer. Você quebrou o copo. O outro copo foi assim mesmo, deixou no chão, tropeçou. Vai se cortar, não faça isso. E andando de um lado a outro, resolvi que iria locar um filme. Tinha bastante tempo até a festa, e ainda que não o tivesse, seria de bom tom para meu sono, que anda sofrendo de gigantismo. Acabei por entrar na locadora de mãos vazias, sem um tostão, com uma única intenção. Saí de lá com mãos atadas e dois filmes emprestados, e, pior, sabendo que provavelmente não teria tempo útil e hábil para assistir aos dois. E essa mania de carregar o mundo, o que diz sobre ela? De se assumir capaz para si mesmo de cumprir metas as quais, no fundo, você bem sabe que não consegue cumprir? E aí eu vejo esse grau de frustração. Cheguei em casa, tirei os sapatos, peguei o copo, enchi de água. Muita água. Olhei para aquela caixinha com dois filmes, dentro de uma sacolinha tão inútil, coitada! Tirei eles dali. Pelo menos estava mexendo neles. Isso é, se eu não assistisse, eles ainda estavam ali, certo? Eles ainda sofreram movimentos simplistas e foram úteis para alguma parte do caos do mundo, ou só do meu dia, que seja. E qual o cume do caos? O copo. Digo mais, o copo e o edredom, maldito casal que não vai dar certo. Não dá, o que não dá, não deu. Pois bem, nos braços de um dia frio eis que me estendo no sofá, agarrada ao edredom branco. O copo estava tão e todo confortado no braço do sofá. Mas as palavras do meu super-ego, com as vozes de meus pais, irmãs, amigos, sopravam fortemente, avoada, tira, desastrada, olha o copo, vai cair, presta atenção, vai morrer, seja consciente, vai quebrar. Tirei. Tirei e pronto! Coloquei em pézinho. No chão. No chãozinho. E sim, assisti a exatos dez minutos. E não preciso dizer que dormi, acordei, tirei os óculos, dormi mais uma vez, acordei, levantei, e, ao mínimo de brecha para o Santo edredom, o copo perdeu a pose, e caiu, e espatifou docilmente, lindamente, com um trincar leve e que deu tanta paz. E, sereno, desceu do pódio, primeiro com um só caco e depois se despedaçando em câmera lenta. O coitado desfaleceu e agonizou, em uma paz! Me resta dizer que de tanta a paz que foi, sem pesares, esse lindo provavelmente levou consigo o sepulto dos quebrantos. Só pensando na tanta beleza do copo, não sendo essa a única coisa que me faz silenciar em sua memória.

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Pra você guardei o amor

Acho que de todas as palavras que possivelmente poderia repetir por aqui, nesse estilo nada óbvio de ser, nessa bola de neve que nem eu consigo explicar, nessa minha vida vestida de carrossel, colocada a girar sem pausa, você. Afinal, eu acho que toda vida é assim, não é? Voltando a isso, diria, amigo, que fui inspirada por fatos e acontecimentos específicos. Por ocasiões específicas. Pelo meu dramatismo. E eu sei que você realmente acha isso de mim. Dramática? Intensa? Você, mais do que ninguém sabe. Você, você, você. Você é a melhor palavra, nesse caso. Você foi meu primeiro amigo. Você é meu melhor amigo. Você é meu irmão. Meu professor. Meu advogado. Você com esse seu jeito espontâneo de ser você, de racionalizar até para rir, de fazer cálculos até para subir as escadas. De sentar em um degrau e dizer com graça que eu estou errada, que eu estou certa. Por Deus, estou. Sempre tão dramática, não é? Sempre vendo tudo errado, mostrando tudo de errado, lamentando as coisas erradas. Mas vim aqui com fins diversos, falar do que é nosso, do que é meu e do que é seu. É seu esse sorriso cínico. Seu é esse seu olho tão típico. Suas são suas pintas do rosto, seu topete metido, e a parte do seu cabelo que eu sempre arranco. O cocó. Sua poodle. Seu jeito irônico e sincero de lidar comigo. Sua racionalidade irracional. É seu o otimismo, o campeão, o atual pessimismo. É do ser humano a vida em ciclos. E não dizem que é em ciclo mesmo? E não falam que o que é para ser nosso, volta? Há de voltar então. Ou não, não me interessa. É meu o amor, a amizade, o sentimento excessivo. Essa intensidade. Que por toda sou e serei intensa, e isso não é um problema. A questão é, você é o único que sempre está disposto a aguentar essa overdose de intensidade. É seu ver com a cabeça. É meu ver com o coração. É nossa a preocupação. É nossa amizade. É a nossa amizade. É nossa a história. A ajuda. O abraço. O carinho. É marca sua em mim um anel, uma pulseira, um fio de cabelo na agenda. É meu em você esse texto. Acho. Se você o considerar. É hora agora de fazermos um divórcio, para nos reaprendermos. Porque, como sempre, estamos passando a mesma fase, combinando os mesmos fins, com as mesmas crenças, otimismos e pessimismos. Nossas fases estão tão mascaradas que nem ao menos se assemelham, mas você se dá conta? Que não é você e que eu preciso de você? Que não é você, mas eu quero o você? Se dá conta de quem é você? Que odeia maionese e não gosta de peixe? Que promete verdadeiramente e cumpre a palavra até o fim? Os vestígios me mostram a tanto tempo e todo tempo. Você, você, você. Mudou, né? Mudou sim. E não sei o que pensar. Do nosso divórcio, inevitável divórcio me sobra o nosso. E o que é nosso? Nossa preocupação, nossa ajuda, nossa amizade, nossa irmandade. Você, para sempre, é meu. Meu, meu, meu. Meu irmão, meu amigo, minha energia possessiva. Para você, eu guardei o amor. Não o gostar. Não, agora, o gostar. Por no fundo saber quem você é, eu amo. Por não te ter por agora, não te gosto. E como o gostar é ciclo, o carrossel está todo armado e enfeitado para o momento em que chegar. Porque o que é nosso, volta, amigo. Amigo meu, meu irmão, voltará, sempre, sempre, sempre. Meu, meu, meu. Só não esquece, tá? A dor que gerou em mim foi tanta. Tanta, tanta. Então, não esquece.

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Minha Pequena

Acontece que aqueles vasinhos não paravam em seu devido lugar. Isso realmente a abismava. Porque mesmo? Porque eles estariam ali, com tanto trabalho a dar, a mercê do vento e do mundo? Sentou-se no sofá, segurando aquela taça transparente, apertando um dos braços contra a barriga bem forte. Desistiu, aquela posição não a agradava. Foi para a cama e levantou as pernas, apoiando-as na cabeceira. Puxou o ar com folêgo e vontade, e, deveras, o mesmo ar o qual batizava todos os dias com o perfume de uma casa sua, com um cheiro seu. O cheiro da paz. O cheiro de calma, não se preocupe, se o mundo der errado, siga seu cordão umbilical. Teria ela ainda um cordão umbilical para ela? Onde foi parar o só dela? E ai, meu Deus? E minha pequena, que tanta vez se viu perdida no mundo? Que quantas vezes se viu sozinha, a batalhar? Que várias vezes se viu e acreditou fielmente que perdera a batalha e ao virar de costas tinha um exército enorme ao seu lado? Minha pequena grande, minha grande pequena, com cheiro de amora. Pois estando aqui, mundo meu, distante de tanta gente, do meu mundo, o que me resta é carregar um creme de mãos em toda bolsa. Pois está ali, acolá, está em todos os lugares, e quando a tristeza bate, me gera aquele transtorno obsessivo de ir a procura do creme. O creme de amora. O vestígio do cheiro. Pequena, não me deixa nunca, para eu não precisar parar de enrolar seu cabelo antes de dormir, para eu poder ouvir seu boa noite, filha, boa noite, Deus te abençoes, filha, juízo, isso está errado, filhinha, filhona, fofona, fofolete, fofolita. Fofona. Não me deixe nunca, para que eu possa conter todo esse choro de saudade dentro de mim, e, talvez, não explodir ele inteiro para você. Pequena, se te faço viver pesadelos, me desculpe, meu sentimento para você é todo amor. Liga o carrossel, liga? Ligou? Mais uma vez vê e faz meu mundo girar. Desde aquela noite de agosto. Desde aquela manhã de Abril. Gira, gira? Me diz qual é a música quando se abre a caixinha com o meu nome…ao som dela o carrossel gira tão mais lindamente, tão mais docemente. Amora. Fofolona, te amo. Então, minha pequena, deixa eu te dizer que seu gigantismo te protege do mundo, que sua força se traduz alta, que sua inteligencia nunca foi viés, que o seu leite me deu vida. Me deu vida. Por Deus, colorida. Vida colorida. Que em momentos, é você quem me faz viver, com a certeza de meu umbigo. Seus conselhos, com sempre antes, sempre before, sempre êxito. Minhas escolhas, cheia de incertezas, partindo de dentro de você, se instalando dentro de mim, e, por fim, uma equação com misturas poupadas, que levam a um jeito de ser único, multiplicado por três e muito bonito. É bonito de se ver. Ela se levantou da cama e foi matar pernilongos. Foi fazer torta de camarão. Foi receber a visita. Varrer o apartamento. Comprar calcinha para a caçula. Visitar a do meio. Conter o choro da mais velha. Arrumar a gravata do marido. Fazer o cabelo no salão. Auscultar, em vida, milhares de corações. Auscultar o dela. O dela. E o vento chega, o vento bate. Os três vasinhos ainda não estão consoantes. Os três vasinhos estão vivos, mas tortos. Mas ainda são partes dela. Deixe estar, pequena, que o futuro ainda está por vir. A conformação torta tem todo o seu lado lindo. Lado seu, e, com amor, por todo seu.

 

 

* Texto dedicado a minha mãe, Cristina. Te amo demais, perdão pelos momentos afobados. De coração e com todo amor do mundo, Feliz dia das mães. *

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