Minha Pequena

Acontece que aqueles vasinhos não paravam em seu devido lugar. Isso realmente a abismava. Porque mesmo? Porque eles estariam ali, com tanto trabalho a dar, a mercê do vento e do mundo? Sentou-se no sofá, segurando aquela taça transparente, apertando um dos braços contra a barriga bem forte. Desistiu, aquela posição não a agradava. Foi para a cama e levantou as pernas, apoiando-as na cabeceira. Puxou o ar com folêgo e vontade, e, deveras, o mesmo ar o qual batizava todos os dias com o perfume de uma casa sua, com um cheiro seu. O cheiro da paz. O cheiro de calma, não se preocupe, se o mundo der errado, siga seu cordão umbilical. Teria ela ainda um cordão umbilical para ela? Onde foi parar o só dela? E ai, meu Deus? E minha pequena, que tanta vez se viu perdida no mundo? Que quantas vezes se viu sozinha, a batalhar? Que várias vezes se viu e acreditou fielmente que perdera a batalha e ao virar de costas tinha um exército enorme ao seu lado? Minha pequena grande, minha grande pequena, com cheiro de amora. Pois estando aqui, mundo meu, distante de tanta gente, do meu mundo, o que me resta é carregar um creme de mãos em toda bolsa. Pois está ali, acolá, está em todos os lugares, e quando a tristeza bate, me gera aquele transtorno obsessivo de ir a procura do creme. O creme de amora. O vestígio do cheiro. Pequena, não me deixa nunca, para eu não precisar parar de enrolar seu cabelo antes de dormir, para eu poder ouvir seu boa noite, filha, boa noite, Deus te abençoes, filha, juízo, isso está errado, filhinha, filhona, fofona, fofolete, fofolita. Fofona. Não me deixe nunca, para que eu possa conter todo esse choro de saudade dentro de mim, e, talvez, não explodir ele inteiro para você. Pequena, se te faço viver pesadelos, me desculpe, meu sentimento para você é todo amor. Liga o carrossel, liga? Ligou? Mais uma vez vê e faz meu mundo girar. Desde aquela noite de agosto. Desde aquela manhã de Abril. Gira, gira? Me diz qual é a música quando se abre a caixinha com o meu nome…ao som dela o carrossel gira tão mais lindamente, tão mais docemente. Amora. Fofolona, te amo. Então, minha pequena, deixa eu te dizer que seu gigantismo te protege do mundo, que sua força se traduz alta, que sua inteligencia nunca foi viés, que o seu leite me deu vida. Me deu vida. Por Deus, colorida. Vida colorida. Que em momentos, é você quem me faz viver, com a certeza de meu umbigo. Seus conselhos, com sempre antes, sempre before, sempre êxito. Minhas escolhas, cheia de incertezas, partindo de dentro de você, se instalando dentro de mim, e, por fim, uma equação com misturas poupadas, que levam a um jeito de ser único, multiplicado por três e muito bonito. É bonito de se ver. Ela se levantou da cama e foi matar pernilongos. Foi fazer torta de camarão. Foi receber a visita. Varrer o apartamento. Comprar calcinha para a caçula. Visitar a do meio. Conter o choro da mais velha. Arrumar a gravata do marido. Fazer o cabelo no salão. Auscultar, em vida, milhares de corações. Auscultar o dela. O dela. E o vento chega, o vento bate. Os três vasinhos ainda não estão consoantes. Os três vasinhos estão vivos, mas tortos. Mas ainda são partes dela. Deixe estar, pequena, que o futuro ainda está por vir. A conformação torta tem todo o seu lado lindo. Lado seu, e, com amor, por todo seu.

 

 

* Texto dedicado a minha mãe, Cristina. Te amo demais, perdão pelos momentos afobados. De coração e com todo amor do mundo, Feliz dia das mães. *

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