Quebrantar

Sabe que, dia desses, estava eu ali tão presente que ocorreu de quebrar um copo. Poxa vida, outro copo? Não seria justo mais um copo. E amanhã é outro, é outro e outro, essa coisa toda, sem fim. E digo o porque do desabafo, já que tudo se deve a uma tremenda de uma briga interna, sabe? A questão é que ouço de todos, e pelos ares, do quão distraída, do tão mundo da lua, sobre olhar a parede, e perder o fio da miada, e falar tanto a ponto de esquecer de onde partir. E levo broncas por focar a calçada e não a travessia, por ser ameaçadamente atropelada. É, e, por fim, ao interromper todo esse senso que me confunde, chego a conclusão de que a travessia em si me ameaçou, e acabou atropelando minhas ideias. Sabe de uma coisa? Quão ao acaso um copo se quebra? Me diziam que era bom que quebrasse, quebrava junto o quebranto. E o quanto me invejam? Invejam porque? Por quebrar copos? Me poupe. Atropelam sim a minha ideia! Por Deus, não me deixam pensar! E eu me vejo andando, de um lado para o outro, a repetir, não escreva em primeira pessoa, eles não entenderão. Não faça isso, você mesma não sabe fazer. Você quebrou o copo. O outro copo foi assim mesmo, deixou no chão, tropeçou. Vai se cortar, não faça isso. E andando de um lado a outro, resolvi que iria locar um filme. Tinha bastante tempo até a festa, e ainda que não o tivesse, seria de bom tom para meu sono, que anda sofrendo de gigantismo. Acabei por entrar na locadora de mãos vazias, sem um tostão, com uma única intenção. Saí de lá com mãos atadas e dois filmes emprestados, e, pior, sabendo que provavelmente não teria tempo útil e hábil para assistir aos dois. E essa mania de carregar o mundo, o que diz sobre ela? De se assumir capaz para si mesmo de cumprir metas as quais, no fundo, você bem sabe que não consegue cumprir? E aí eu vejo esse grau de frustração. Cheguei em casa, tirei os sapatos, peguei o copo, enchi de água. Muita água. Olhei para aquela caixinha com dois filmes, dentro de uma sacolinha tão inútil, coitada! Tirei eles dali. Pelo menos estava mexendo neles. Isso é, se eu não assistisse, eles ainda estavam ali, certo? Eles ainda sofreram movimentos simplistas e foram úteis para alguma parte do caos do mundo, ou só do meu dia, que seja. E qual o cume do caos? O copo. Digo mais, o copo e o edredom, maldito casal que não vai dar certo. Não dá, o que não dá, não deu. Pois bem, nos braços de um dia frio eis que me estendo no sofá, agarrada ao edredom branco. O copo estava tão e todo confortado no braço do sofá. Mas as palavras do meu super-ego, com as vozes de meus pais, irmãs, amigos, sopravam fortemente, avoada, tira, desastrada, olha o copo, vai cair, presta atenção, vai morrer, seja consciente, vai quebrar. Tirei. Tirei e pronto! Coloquei em pézinho. No chão. No chãozinho. E sim, assisti a exatos dez minutos. E não preciso dizer que dormi, acordei, tirei os óculos, dormi mais uma vez, acordei, levantei, e, ao mínimo de brecha para o Santo edredom, o copo perdeu a pose, e caiu, e espatifou docilmente, lindamente, com um trincar leve e que deu tanta paz. E, sereno, desceu do pódio, primeiro com um só caco e depois se despedaçando em câmera lenta. O coitado desfaleceu e agonizou, em uma paz! Me resta dizer que de tanta a paz que foi, sem pesares, esse lindo provavelmente levou consigo o sepulto dos quebrantos. Só pensando na tanta beleza do copo, não sendo essa a única coisa que me faz silenciar em sua memória.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s