Menina, os olhos!

A questão é que a gente sobrevive. Não é falar de fácil ou de difícil, a gente sobrevive. Não sei, aliás, o que deixa tudo mais difícil, saber qual é o sonho, ou não sabe-lo. Ter o sonho, ou não te-lo. Saber o sonho e teme-lo. Descobrir que hora ou outra sonho e realidade correspondem, ainda que seja em uma brecha ínfima. Saber que a porta está logo ali, que você vai ser feliz, mas que a felicidade é a locomotiva da vida. A consciência dela então? Por Deus, faz a vida passar logo. Em um pequeno pulo. Creio que seja por isso que falam do “depois dos dezoito”. Há maior realização pessoal do que a segunda década? Há como aprender mais sobre si? Os mal realizados, os mal compreendidos e os que mal se entendem com certeza devem encerrar a própria vida com a sensação de terem vivido tanto. Os invejo por esse ponto. Só por esse. Mas também, o que lembram dela? O que levam dela? Sabe aquela sensação de alma tomada por sofrimento? Aquele sofrimento que enche e ocupa todas as frestas? Entende dele? Sim, ele consegue intensificar um momento de tal forma…E pior, consegue transformar um dia na luz de todos os outros. A luz que leva a uma penumbra mistificada e disseminada, totalizada em figura de homem, com papel, caneta, maleta e pose. Talvez isso se assemelhe ao meu caso de eterno amor e viés com os animalzinhos. Hei de contar aqui o causo da galinha, em que a criança contida, das pernas grossas e da barriga saliente, coitadinha, tinha no quintal galinha, galo, cachorro, e tudo o mais que a intimidava. Era pavão, ganso, fonte. Limoeiro, laranja. E a casa de boneca. E a casa de boneca cor-de-rosa, ela dizia! Preciso mesmo salientar que o ato de colher limão é tentador? Da laranja eu não me lembro bem se era bom colher. Mas pegar uma cesta de palha, daquelas que vem de presente no café-da-manhã para a mãe ou para o pai, e colher limão é realmente uma terapia. A colheita tão de tempos retratadas naquela vida nostálgica e retrô dos quadros da pré-escola. E diziam, menina, vestido curto, papai não gosta. Menina, batatinha quando nasce, preste atenção, o bicho papão. Menina, ticatá, ticatá, ticatá. Não é para misturar refrigerante e sabão. Não pode colocar banana e arroz no capacete do tio. Não é para colher limão e acerola. Agora vejam como a pequena dos olhos amendoados fora injustiçada: qual o sentido de impedir a mistura do limão e da acerola? Daquele colorido inovador e predizente? Não que já tenha feito um suco, mas quando me dão limão, me vejo pressionada a fazer uma limonada! E se me dão limão e acerola, porque não fazer um suco? Uma mistureba? Uma variedade assim? Só nessa casa de loucos. Ela estava ali, descalça na grama mas com medo de cobra. Sob o olhar atento e carinhoso. Ela corria, colhia, e de vez em quando percebia que tinha sido picada. Era a cobra? Era, mãe? Não era, deixa eu ver…era a formiga, a formiga. Acontece que era esperta, a menina. De uma esperteza que ansiava a luta. Flertava com o pé de limão como ninguém. O cativava. Treinava a arte da sedução do limoeiro desde os cinco anos de idade. O pé de acerola era muito fácil. Mas o limão? Podia queimar. O limão? Era com ele que tinha de flertar. E estava lá, a olha o limoeiro. Mas o que nos interessa aqui não era seu foco central. Seu foco de distrações. Era, afinal, sua visão periférica. Era loba. Era loba de tato, olfato, audição, paladar. Visão. Era loba da visão. Eles estavam todos em volta, para de um momento a outro, possivelmente a atacarem. E ache do limoeiro a proteger? Não, ficaria era feliz e passivo em ver o tamanho da limonada. Pois não se interessava, a despertava a visão periférica, e, não acredito eu em toda essa felicidade do limoeiro. Devo, assim, ter exagerado. Ocorre que a questão é que se ofendia, dava de costas ao pé dos limãos, ia procurar ovos de galinhas escondidos por ai. Aprendera na páscoa a acreditar que realmente ovos estavam escondidos, e que deviam ser achados. Para comer, para comer, para guardar, para correr e para quebrar. Principalmente, para pintar. Tinha no fundo aquela esperança silvestre de achar chocolate por trás de tanta casca. E o seu sonho, qual era? E sua realidade, a qual remetia? Desde nova pensando na efemeridade do tempo, e tentando entender o porque passava tão devagar quando ansiava algo o qual passava tão rápido. Todos os dias, antes de caçar limão, acerolas e ovos na mesma cesta, se colocava a pensar na vida. Se colocava no seu dever diário autista. Na correria disfarçada. Era a vergonha e o medo de aparentar medo a todos que a cercavam. E quando o galo dava a correr atrás dela? O galo de briga? Se punha a fitar os olhos dele. Um enfrentar momentâneo. Fechou as mãos em punho, cerrou os dentes, prendeu a respiração e deu de costas por, realmente, um milésimo de segundo. Não é que diziam que o galo era bravo? Que a bicada doía? Esboçou um leve sorriso e correu como nunca acreditou que poderia. Correu com força e folêgo. Correu e se refugiou na casa de bonecas, até anoitecer, as estrelas chegarem, a porta de madeira ranger e o galo dormir. E o galo também dormia, quem disse que não? Em cima de seu sonho e da sua convivência  charmosa, sendo a rainha do quintal, se colocou a fora nas pontas dos pés, triunfosa, em mais um dia na batalha contra as aves. Triunfo dos limões, acerolas, ovos. A missão de amanhã seriam, talvez as mangas, talvez assistir ao choco da galinha, sentadinha, apoiando as próprias bochechas. Pois os olhos amendoados se colocavam diariamente a enxergar. Não só ver, enxergar. Ô sinestesia boa. Queria eu ter o sonho de fazer meu suco, meu suco com limões e acerolas, ao que mais próximo chego disso é quarta-feira, dia de feira. Afinal, fugir e temer os sonhos ainda é uma forma de nos deixar triunfantes e orgulhosos da gente. Só nessa vida. Mas ainda nessa vida.

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