Ela voltou.

Fiz, hoje, um trato comigo mesma. Não que, durante minha vida, tenha feito deles aos montes, e muito menos, dos que fiz, muitos cheguei a cumprir. A esse momento, pensei em escrever que menos cumpri. Mas ando otimista, e isso envolve muitas partes do meu trato. Pois bem, dele digo que envolve a não maleficência no trânsito. Pelo menos em parte. Cabe a mim nunca mais dizer que o trânsito dessa cidade é caótico. Porque não é. Não é, definitivamente, não o é. Por fim, me comprometo a dizer que não é maldito. Se vou cumprir, não sei. Sei é que, com certeza, vou justificar, e aqui mesmo vem a justificativa. Eu, sozinha e desacompanhada de quaisquer mal-humores que conspiram contra mim nessa terra e nesse trânsito, já sou cheia de esquecer onde coloquei a chave do carro. Ou seja, não raras vezes, o universo de fato reconhece o meu não potencial de enfrentar as mazelas dos indivíduos sem farol, sem retrovisor, sem seta e, acredite se quiser, sem freio. Por Deus, é pedir muito? Uma freadinha aqui e ali, uma olhadinha esporádica? Antes que a raiva volta a se disseminar, aprendi que se atualmente a seleção natural poupa as pessoas em prol da seleção artificial, o trânsito faz um papel de professora substituta perfeita: só os mais fortes, sagazes, ágeis, e sortudos sobrevivem. Pura seleção natural. É, deveras, uma selva. Ao menos o daqui. E, para tanto, obviamente, como boa não-nativa dessa terra vermelha, resolvi eu respirar fundo e me entreter, no que consiste mil e um CDs no carro, os quais não conseguem, todos, caber em um mesmo canto. Quem ainda compra CDs? Eu. Eu os compro. O outro hábito, perdoem-me os policiais que podem ocasionalmente vir a ler a isso, é falar ao celular. Ah, eu falo. E sabe de uma coisa? Eu falo, eu dou seta, eu freio, eu ligo a luz assim que lembro de ligá-la e nunca me atrevo a andar sem cinto, ainda que seja para puxar o carro para frente na garagem. Mas falo. Falo sim. Por mais que meu amigo mais sistemático me atormente até o fim da minha alma, inesgotável, para que eu dê o celular para ele. Não dou. Pois foi numa dessas que me veio a notícia bombástica. Ela voltou. Voltou? Como assim voltou? Voltou porque? Sabia que voltaria. Uma hora voltaria. Nenhuma fortaleza é estúpida ou inesgotável. Mas é fortaleza. É fofa. É forte…como é forte! Acredito que seu choro demorou muito a vir. Eu, em seu lugar, estaria derramando prantos. Lidar com a insegurança? Veja se pode, meu maior problema na vida. Problema de muita gente sim, eu sei, mas por quanto tempo há de se ficar expostos a fracassos? Na verdade, aparentes fracassos, pois, minha amiga, não acredito que nenhum deles tenham sido fracassos reais. Você só não saberá disso por agora. Há a hora, porém, em que essa situação e explicação virão mais mastigadas. Mas então era isso mesmo, não é? Ela era forte, mas segundo minha mãe, entre uma cobrança e outra, voltou por motivo urge. Parei para pensar. Ademais, tirei memórias. Quem me ensinou a ir contra as regras. Sem cobranças, com sorriso sincero, ansiando a me ver feliz. Talvez, confesso, não tenha torcido tanto para a felicidade dela como ela para a minha. Desde cedo me estimulando a liberdade, a vida. Viva, viva, viva, hoje eu vejo que ela sempre me ordenou, baixinho, aos cochichos mentais da minha cabeça grande. Que professora que tive. Pois quando criança me fazia rebolar até o chão. O dedo da mãe ia de um lado a outro. Mas ela dizia para pular e pular, e rebolar mesmo! E tinha que ser até o chão! Me colocava de frente para o espelho para me mostrar como eu era infrutífera com meu progresso. Como meu rebolar não era tão bom quanto o dela. E quando o era, salva-me Deus, que ela parecia ao espelho de biquini e duas bóias de braço. Dizia que eu era frouxa, já que não sabia dar pulo na piscina. Aquele medo da vida podia me matar, ainda mais do que já mata, se ela não me ensinasse a dar pulos. A mergulhar. Sereia, sereínha, vamos passear? A coragem dela sempre me fez provar da minha. E depois de tantos rancores infantis, uma irmã mais nova não vem tão ao acaso, afinal. Posso dizer que ela me ensinou que ser princesa não é legal, não como eu costumava ser. Que o reino tem de macabro, mas que meus sonhos são compromissos também dela. Quanta fortaleza, meu Deus. Como eu amo minha fofolete. E eu, que por tanto tempo fui fraca de pensar que era mais forte que ela, agora só vejo que nos meus únicos momentos de forte, inevitavelmente forte, era ela ainda mais forte do que eu. E a personalidade, que aparentemente quietou-se, que me fez brigar na escola, que ficou tão ingênua e delicada, frágil…é na verdade, tão excêntrica a ponto de misturar banana, arroz e feijão, pregar peças, ficar linda, gritar “Máááááárcio”, brigar, tocar na ferida, enfiar o dedo na ferida e torcê-lo. Tão excêntrica! E não é que brincou de barbie até os dezoito anos? Não é que a coleção é tal a qual em que ela é dona do pedaço? E escreveu carta para o papai Noel, sim Senhor. E fez xixi na cama. E teve medo. E vira o Ken toda vez que troca de roupa. Todo dia o mesmo trabalho. A personalidade que esperneia, ai, que frágil. O bom gosto, o pular na minha barriga, morder minhas costas, e beliscar minha cara. Roubar no jogo do baralho e ser protagonista enquanto eu, tantas vezes, já fui café-com-leite. E minha fortaleza voltou. Meu bibêlo europeu, minha branquela de Gaudi, minha obra de arte, colecionadora de Barbies. Com frieza voltou. E o trânsito, né? Que vontade me deu de correr com o carro. Não esqueci as chaves. Não posso chamar o trânsito de caótico. Não mais. O caos é organizado, afinal, essa informação melhora muito as coisas. Ela voltou. O motivo que me deram? Voltou de saudade. Preciso avisar ela para não se esquecer de virar o Ken.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Ela voltou.

  1. Mari

    Agora esse é meu texto favorito!! Te amo!

  2. Amanda

    Que lindas… ♡

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