Mindinho

Hoje eu acordei feliz. Mentira, eu acordei e fiquei feliz. Fiz as pazes com o sol. Hoje eu e o sol tivemos uma conversa, que, confesso, foi propiciada pela chuva de ontem. Ontem, posso dizer, estava, deveras, preocupada. Soprei à chuva essas minhas palavras, sabe? Poxa vida, ela havia de entender que não podia ir. Há quanto tempo não a via? E o sol tomava todas minhas manhãs? A quanto tempo não me via, e eu procurando desesperadamente aqueles CD’s de meditação, com o som dela? Só para dormir em paz. Pois bem, não imagina toda a inspiração de vida que se apossou de mim quando eu vi ela chegar. Fui só sorrisos, aliás. A chuva deve ser, inconscientemente, algum édipo muito mal resolvido nos confins da minha alma. Sendo ou não, sei que conversamos demais. Eu aqui, sentada nesse sofá, a observando de fora. E melhor, a ouvindo. Não quis encontrá-la la fora. Não dessa vez, não me inspirou confiança. Olha a história de vem e vai, demora meses a chegar, chuva? Veja se pode. Mas meu orgulho não me permitia a tanto, ah, não, ele nunca permite. Então, dessa vez, ao notar a falta que ela fazia…ela e o friozinho que trazia, de algum modo tocou no fundo da minha alma, de que eu deveria mesmo me alegrar com o sol. Em outros cantos do mundo, o sol já foi capaz de me alegrar. Tão capaz. De me fazer ganhar o dia ao abrir a janela e vê-lo. Foram nesses dias que a chuva era coisa de nada. Para mim. E isso só me faz retificar clichês, já que, afinal, a gente só dá valor quando perde, etecetera. Acontece que o sol me pirraça. E esse outro clichê do qual você, provavelmente, tenha lembrado agora, não faz sentido. Não se pirraça apenas quem se gosta. Estou apta a dizer que é impossível gostar de todo mundo em uma cidade, e, sim, ele é atrevido. Ele o faz. Pirraça a todos, um por um. Eu as vezes tento olhar para ele. Só para ele entender o quão brava eu estou, com os quarenta graus da calçada, e o suor escorrendo, e a maquiagem derretendo, e o cabelo arrepiando, e a pele queimando, e a enxaqueca subindo… Eu olho, e ele desvia o olhar. O meu olhar. Esse poder que ele exerce não é nada justo, se for parar para pensar. Olho sim, com olhos de brava e nariz de brava. Como é nariz de brava? Nariz torcido? Nunca me vi fazendo essa cara no espelho. A questão é, ele não me ouve, e continua a me pirraçar. A mim e a toda cidade. E ainda, posso salientar, que quando dá a atacar, faz coçar o país inteiro. Vira notícia de TV, comenta-se no formigueiro e na estufa. Faz um fuá! Pois ontem eu choraminguei até. Choraminguei, e engraçado isso, né? Ao invés de aproveitar meu momento de chuva, chorei por não tê-la todos os dias. Por não tê-la, ao menos, uma vez na semana, toda semana. Ah, fiz birra, me cobri, dormi. Acordei. Era isso mesmo, se não foi, iria, e ele vai voltar amanhã. Com certeza ele voltaria, e eu estaria na rua, debaixo dele. Torrando, aquela sensação única e maravilhosa de que águas, literalmente, vão rolar. Por fim, hoje eu acordei e ele falou baixinho. Que em minha homenagem, e veja só, justo a mim, ele daria uma mãozinha. Para apaziguar minha dor. Ele disse que bem sabia que eu sofria a cada vez que a chuva partia, e que o frio ia. Mas que por hoje, apesar de ser a cena dele, ele se conformaria em não ter cena completa. E iria me deixar continuar fingindo que aquele ir embora de chuva não me causou nenhum impacto. Ia sim. Ia me deixar pensando que meu nariz empinado não era mal de orgulho. E ainda falou que o orgulho dele estava em paz por hoje. Hoje eu acordei e fez sol. Fez sol e fez frio. Nessa cidade, sol e frio. Se não foi para mim, me apoderei do feito. Hoje é hoje. Sem choramingos, por ser o sol, me sinto na obrigação de aproveitar o momento. Solzinho mais lindo da vida.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Mindinho

  1. Gian

    solzinho simpático o dessa cidade, não?! hahaha
    assim como tu, me inspiram mais os dias cinzas, não sei por quê, mas a chuva sempre traz uma pitada de nostalgia

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