Arquivo do mês: agosto 2012

Cuidados nossos

Imagem: própria

Não me senti nada feliz em notificar um novo vício. Sim, ele estava ali, escancarado, após milhares de promessas não cumpridas. Pois sempre disse, abandonarei o carro, que tanto me ajuda e tanto me incomoda. E nesse vai e vem, após me crucificar algum tempo a abandonar algo que, confesso, já suspeitava ser o predizer de um vício, fiquei sem o tal do carro. A pé, a meias horas de meus destinos finais. Voltei a sentir aquele zelo que se sente ao quebrar a preguiça e ir para mais um dia da labuta. Ô, labuta. Resolvi me dar descontos e deixar a vida mais mole do que já andava a ser. Olhar para o céu, para as estrelas e para lua virada de mim, sem culpa-los, em hipótese alguma, pelo incidente. Decidi me voltar a velhos hábitos, a ligar a televisão, ler o livro, o jornal, ouvir música boa. Resolvi me deixar de futilidades que tomavam meu tempo. Real tempo. E quem disse que todo o tempo que eu economizava na permissividade do não vencer da preguiça era realmente tempo bom útil? Quem foi que me disse que aquele tempo, na verdade, não fazia tão parte de mim?  Pois bem, não há menos pensar, me coloquei em pé seis da manhã, a lavar o cabelo a tempo de meu tempo. E me coloquei a frente do tempo o qual imaginei, devido as regalias que me concedi por tamanho esforço que demandava, andando naquela trégua de sempre com o sol ardido. Posso mesmo dizer que toda santa vez que coloco os pés nessa calçada quente eu desejo a brisa de volta para mim. O friozinho e o pós chuva. E já que não os tenho, disse a mim mesma, vamos lá, deixe de tomar café e tome suco de laranja. Tem funcionado. Qualidade de vida também se decide com certos teores de inteligência. A rendição pode ser também inteligente, ou não haveriam no mundo bandeiras brancas da esquerda. E o que vem depois? Devo retornar, pois, ao assunto anterior. De que me vi fazendo três vezes ao dia aquele Santo caminho de calçada suja, e água que era verde, e árvore que estava branca. Confesso, melhor que outros que já fiz na vida, tomei um rumo incerto que depois, vi, foi ser certeiro. Digo isso porque eu realmente parei para pensar em porque fazia esse caminho, e não aquele. Me dei conta de algo, deveras, curioso.
Dentre os passos que eu dava por entre a calçada por vezes tortuosa, carregando algo pesado em meus ombros, fazendo pesa-los no passo e nas correções que fazia a mim mesma enquanto cantava uma música qualquer de trilha sonora em minha cabeça, passei a ver o quanto minha vida era atípica e engraçada. Não, mais uma vez, que nunca tivesse visto, mas sim, meu processo de internalização talvez não fosse dos melhores. Não dos piores, mas não dos melhores. Isso já que, quando nasci, um anjo torto me disse, vai, vai ser distraída da vida. E eu, ingênua, não é que fui? Fui, e essa é a maior das minhas labutas diárias. E venho crescendo nisso. Na vida a gente cresce, inclusive nas coisas boas. Cheguei a conclusão do crescer já que desviei do passarinho morto. Mas logo em seguida o espinho de uma rosa me espetou. De novo, tinha um espinho no meu caminho. E sim, era uma rosa. Toda cor-de-rosa. Eram várias, mas só uma me espetou.  Sim, eu fazia aquele caminho, com aquele sol amenizado por óculos alternados entre o cinza e o amarelo. Foi quando pude pensar que não era a toa. Era justamente ele o caminho ideal, não importa o quanto os outros fossem ligeiramente mais tortuosos e trabalhosos. Eu explico: Na segunda vez que faço o mesmo caminho, por minha profissão distração, que, santuosamente, me tira do tédio dos dias, já me sinto entediada. Com a mesma paisagem, e, não me diga para prestar atenção nos detalhes. Que presto. E se presto! Pois sei falar dos detalhes também. E do porque os corruptos os quais deixam nossas ruas tão sujas não deveriam ser eleitos, por sinal.
O caso é que na segunda vez, já vi, já sei. Quero mudar de caminho. Quero mudar o caminho que faço. Nessa ânsia de respirar novos ares, dou de ansiosa. Na expectativa de um novo ver, viro afobada. De prestar atenção nos detalhes, sou distraída. Sim, repetia o caminho por conveniência e porque, a dado ponto, a calçada acaba. Não me pergunte o porquê, pergunte ao prefeito. Ele mesmo não deve saber melhor que eu, e, nesse caso, não sei mesmo a quem deve perguntar. Mas, sim, ela acaba, e me deixa na mão. Entre subir e descer, eu sempre subo. Ou ao menos é sempre o que quero. A viés de meu inconsciente,  de uma decisão tão simples ele toma conta. Ou não? Se toma de todo o resto, por dias e meses, porque não levar para si algo mais simples ainda? Disse sim. Pode, vai, leva, leva toda essa decisão e sobe! E agora me dou conta que a calçada acaba, e que eu estava mais preocupada com outros detalhes maiores.
Digo, e, preste atenção…de se perder no meio das coisas, as vezes a gente se perde de nós mesmos. Eu me vejo me perdendo da multidão que nem sempre me cerca. Da multidão dentro de mim. E dos artifícios que uso para me esconder. Mas já me satisfaço nesse meu conhecer complicado, em que ninguém ao todo me conhece. Nem eu. E por, fim, em fim lindo, breve e sereno, suplico uma brisa para a próxima caminhada. Em tom de cinza colorido. Suplico isso, e, categoricamente, posso dizer…A vida toma tanto conta da gente. A vida leva, a vida cuida. Ah, ela cuida. Ô se cuida.

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