Arquivo do mês: setembro 2012

Enfeites de vida

Image

 

 

 

Eu não vou. Moi não vai. Eu repito que não vou. E agora estou nessa, pleno meio dia, meia luz de dia, olhando a janela e esperando chover. Como já devo ter escrito um milhão de Santas Vezes, caio de amores por chuvas. E ainda mais por chuvas que vem de ares secos. Amo paradoxos, antíteses e oxímoros, então, nem se fale. Sabe que as vezes eu me comporto como uma criança birrenta. Poderia estar fazendo milhões de coisas ao meio dia, das quais a mais óbvia é, com toda certeza do mundo, almoçar. Mas não, eu sou a professora do meu eu. A minha própria psicóloga de luxo. E aí, quando essa parte de mim me manda, eu faço. Sento, faço, e como faço. Pois bem, dentro desse meu fluxo cerebral, ando pensando assim e ali. Ando pensando em escrever algumas coisas, algumas memórias. Ando pensando em mudar mais ainda esse estilo de escrever. E são mudanças que implicam, apenas, uma coisa da alma, entende? Provavelmente não, não entende. Mas uma inspiração diferente de todas as outras. E pensamento aqui, acolá, me coloquei sentada. O toldo faz um barulho com esse vento de chuva. Não gosto dessa barulho. Nem de vento de chuva. Vento de chuva me assusta. Barulho de toldo me irrita, porque me acorda. Já que estou acordada, é só uma vaga lembrança que cotuca algum neurônio, deveras, sensitivo. Não gosto desse vento porque já o vi derrubar árvores, animais e pessoas. É, pessoas. Pulando a parte que eu, em meu minimalismo, já quase fui levada por ele também. Em todos os sentidos. Pois quando me dá na telha, resolvo voar. E quem me conhece, me conhece ao fundo, a ponto de eu abrir mi vida e maluquices, já se viu colocado naquela situação de voar comigo. Então, fita um ponto no infinito, abre os braços, fecha os olhos e voa. Sente o vento bater. Mas não, nesse vento eu não me arrisco. Passarinho nenhum se arrisca, pense eu. Engraçado falar disso, é que tem gente que acha que me conhece. A pergunta é, já te chamei para voar? Se sim, você tem uma abertura bem necessária. Senão, não tenho resposta para isso. E interprete como quiser. A minha companhia se vale em auge nesse momento de glória de mim. Parece doido, mas nele eu alcanço o pedestal do céu. Engraçado também que eu não estava, de modo algum, disposta a falar das maluquices da minha alma. Muito menos de mim. Aliás, nesse mundo em que todos falam de todos, não sei ao menos se tenho propriedade para tal. Mas hei de contar um causo. Que hoje, fazendo o que faço demais, e reparem que eu disse demais e não muito, me coloquei a pensar. E concluí, dentre memórias etecetera, que amo confetes. Não do gosto, mas se pudesse, os teria espalhado por toda a casa. E isso faz sentido, já que minha cor favorita é o colorido. Mas então lembrei da padaria. Lembrei de minhas tristezas infantis. E também de minhas felicidades. As benditas vezes, em todas semanas, e várias vezes a cada semana, em que pisava na padaria, olhava para minha mãe com olhar de súplica. “Filhinha, o que você quer comer?”. Eu penso hoje, é, meu futuro guloso estava fadado desde então. Despreocupadamente fadado. Já eram predizes de que eu não conseguiria resistir a qualquer bom doce. Deveras curiosa era sempre a minha constante escolha. Queria chumbos. Chumbinhos de chocolate. Tão lindos. Não eram coloridos, não. Eram chocolate marrom, mesmo. Chumbinhos ao leite. O processo era mais mágico que qualquer ingerir de chocolate. E não consistia apenas no sabor contagiante. Era uma frase toda composta e emperequetada: eu não falava. Era uma quase muda. Então fui de ouvir muito. Fui muito de prestar atenção em tudo, em falas, no professor, nos detalhes e no chocolate. Na mesma padaria em que a crença era a da “menina muda”, minha mãe elevava o tom de voz quando eu apontava para os chumbinhos mágicos. Posso jurar que, de certa forma, eu via um brilho impecável em cada um deles. Eu apontava. Minha mãe dava o pedido. Eram tantas gramas. Tantas porque, até hoje, não tenho noção de gramas. Certo dia me vi pesando uma melancia no supermercado, ao que a funcionária me olhou, na certa, com cara de incógnita. E também nunca sei o quanto pedir de presunto ou peito de peru, e demorou a descobrir que quatrocentas gramas eram um tanto exagerado para alguém que mora sozinha. Pois então, voltando a padaria mágica, dos chumbinhos de glitter, a funcionária pegava sua espátula de plástico, a qual, depois, virou uma luva de plástico. Ou foi o contrário? Não lembro, sei que agora voltou essa moda de luvas de plástico. Enchia sua mão com meus chumbinhos. Enchia. Minha mãe dizia se era demais ou de menos, e, confesso, pouco interessavam esses dizeres, ou os avisos que, caso comesse demais, teria dor de barriga. A moça jogava, com teor de graça, em movimento balístico, todo aquele chocolate em um saquinho igualzinho ao de pão francês, mas menor. Estampado em sua frente, tinha o desenho da padaria. Que eu fui entender depois de algum tempo, ser o pé direito dessa. Enfim, o saquinho me era entregue, do qual minha mãe precisava somente do papelzinho que saía da balança. Inhos, Inhos, Inhos, diminutivos que enfeitam a vida. Eu me deliciava no chocolate. Hoje minha mãe me ligou e me disse que está gripada. Quase sugeri que ela fosse buscar chumbinhos de chocolate para ela. Mas não sei se eles ainda o fazem ou se ela teria um estado de espírito elevado por conta disso. Só sei que, lembrando, só tem uma explicação para o mundo a parte que as vezes eu me injeto: ele é todo pareado por chumbinhos de chocolate. No céu, nas casas, no asfalto. Nas pessoas. Meu enxergar, tanto quanto limitado, no meu mundo ilimitado, e o mundo do mundo é ilimitado, é incrementado por essa mágica, que eu tenho certeza ter passado para patamares conscientes. A mágica do chumbinho. Levei um susto do vento. Levo constantemente susto das pessoas que não são sempre chumbinhos, como eu gostaria que elas fossem. Comigo, carrego apenas a ideia de que enxergar e visar são palavras diferentes. Nossa visão interna pode ser, de fato, sem limites. Pode ser verídica ou não. Hoje sou só da opinião de que, de todo modo, nossas verdades estão aqui para nos enriquecer a alma e o coração. Para nos deixar felizes. Então, com licença, preciso fechar a janela. 

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Gira-Gira

Um amigo meu me disse, em certa vez, de certa ocasião, que eu era viciada em cafés e adjacentes. Por adjacentes entenda padarias, bistrôs, ou quaisquer lugares em que eu possa sentar, tomar um café, escrever ou ler em paz. Um outro amigo meu me disse que eu era assim, e que ele também era. Mais outro, ainda, me falou de energias. Sem mais nem menos me soltou um eufemismo, ou não, de ideias astrais: minha energia não estava, exatamente, condizente. Condizente com o que? Não interessa essa parte para história. E eu ando em mania de achar novos cafés, novos restaurantes e novas padarias. Nas últimas semanas já encontrei boas cinco, e espero não desenvolver nenhuma dislipidemia com esse hábito. Acontece que essa de energia não me fez sentido ao início. E na terceira tentativa de explicação, eu entendi. Até fiz força. Até achei, por um momento, que bem valia um café de pensamento, e lá estamos. E cá estamos. Ando com mania de amigos. De ouvir demais. Nunca fui de ouvir quando se dizia respeito a mim. Sempre fui Senhora de meus próprios conselhos. A seleção era criteriosa. Os conselhos vinham, apenas e somente, de mim. Por toda vida tive mania de lojas. O único empecilho, agora, é achar vagas para estacionar o carro. É, minha amiga me falou. É mania de não confiar. É mania de não ceder. Ela estava tão certa. Tão difícil confiar. Difícil ceder. Falar as palavras certas e saber a hora certa. Desconfiando demais nunca se acha a hora certa, porque, quando ela chega os pés estão atrás, na dúvida. Sempre na dúvida. As coisas passam. A gente não confia. A gente tem trauma. A gente não cede. A gente baila, a gente valsa, a gente até gosta. A gente briga, a gente descabela, a gente beija. A gente abraça, a gente é amigo, a gente bebe champagne e cerveja. A gente vai em bar, em carro, em briga, em risos, a gente vai tocando. A gente vai a destino de um sem fim, sem porta, confins. Do fim. Ah, eu não queria isso não. Eu não queria que toda vez que o sentimento chegasse, eu cedesse. Pois não cedo. E aí? E ai que entrou. Me tirou para dançar, me colocou contra parede e cobrou atitude. E me disse, trauma por trauma, quem sai traumatizado? É toda vez como um reviver de tudo. Mais uma vez o trauma. Mais uma vez essa roda que não pára. A gente não fala, a gente não sabe, a gente é junto, mas é separado. A gente é feliz, mas a gente joga. O orgulho é páreo mas é perigoso. E eu,  que há tempos, cansei desse jogo. Cansei de brincar de orgulho. E cansei de brincar com o orgulho alheio. Então pára o jogo, que eu quero descer. O gira-gira não tem fim, até eu ser Senhora de mim. Quando eu era criança, uma vez, caí do gira-gira. Me ralei inteira. Me predisse desastre. Me vi sozinha. Eu gosto, gosto sim. E me vejo de café em café. Me vejo, sim, bebendo, lendo, escrevendo, girando, girando, girando. E sozinha.

Deixe um comentário

Arquivado em Vida

Pólen

Estava em uma daquelas lojas que se fazem necessárias na vida de uma pessoa. Elas vendem de tudo. Elas vendem pratos inquebráveis, facas eternamente afiadas, elas vendem barato. E eu amo circular por elas. Não me seguro e não aguento, é só ver uma dessas que me vejo dentro, entre as prateleiras tentando tatear algo que, definitivamente, não me parece ter fundo. Entretanto, já me conformo, e até digo que posso, em controlar meu senso consumista nesse caso. É uma questão de visão maniqueísta do mundo, na qual eu reluto em me convencer que não, não preciso de um espremedor de laranjas no momento, por mais que ele seja vermelho com bolinhas brancas, nem de um kit para bolos. A tarefa fica, obviamente, mais fácil quando eu me deparo com a ala de ferramentas, embora, confesso, já tive em dias da vida de enfrentar uma queda por furadeiras. E não era na mesma fase em que eu realmente precisava pendurar quadros pelas paredes de casa. Foi em uma dessas, que um amor retirado cuidadosamente do baú me despertou tamanha nostalgia. No meio da lojinha, com todos aqueles relógios me encarando e me condenando por tamanho tempo perdido, e por mais bonitos que fossem, me intimidando, tinha uma touca. Sim, uma touca de banho. E ela era toda especial. Ela tinha pintinhas cor de abóbora, e flores cor-de-rosa. Ela era diferente daquelas cores indiferentes de minhas toucas do passado. Não indiderente. Diferencinha. Diferençona, aliás. Pois me recordo há muito de meu drama e combate às toucas de banho. E redescobri essa memória me lembrando do banho de todos os dias. Eu era uma criança perfeccionista. Como tal, era incapaz de entender, no auge da superação do édipo, o porquê de usar a touca, já que passava mais tempo na frente do espelho tentando colocar todos os fios de cabelo para dentro, de modo a ficarem todos encobertos, do que no banho propriamente dito. Isso me fazia gastar horas. Não queria molhar o cocó. Não queria! Porque a mãe nunca molhava o cabelo com a touca, e eu sim? Hoje vejo que esses desastre sempre foi eminente em minha vida. As coisas simplesmente não funcionavam tão facilmente para mim, mas eu sempre fui persistente. Nunca imaginei que um dia pudesse cansar, e isso, exatamente, não vem ao caso. O caso é, sim, um dia acabei cedendo aos desastres, mas até então batalhei. Se uma única touca não funcionava, colocava duas. Passava mais minutos sistemáticos colhendo cada fio de cabelo como se caça por grãos de areia em uma praia de pedras. Ao chegar a conclusão de que duas toucas juntas deixavam uma brecha para água escorrer e molhar ainda mais minhas joviais madeixas, tomei a maior decisão de todas. A estratégia de guerra, que, ao meu ver, seria infalível. Já que era difícil de domar, olhava ao espelho e falava em alto e bom tom que, caso vencesse, o mérito seria todo meu. Nenhum pingo de agradecimento ao destino ingrato. Entendeu? Nenhunzinho. O mesmo valia quando a água saía fria do chuveiro, no inverno, e eu suplicava baixinho para que alguma leva viesse mais quente. E também esnobava todo e qualquer sistema de aquecimento solar. De fato, a missão foi bem sucedida. Três toucas eram o número ideal para a completa sanidade dos fios. Ou quase completa, que fosse, já que, um ou outro, acabavam por se molhar. Ao me dar conta, porém, do tempo que gastava e do ritual que não gostava, nem queria cumprir,  abandonei as toucas e seu barulho assustador e deixei de colocar a cabeça embaixo do chuveiro. E você me pergunta, sim, qual era a intenção, pois, ao fim, deveria se molhar mais, não? É, molhava sim. E posso dizer, com toda ou quase convicção que aí deu-se início meu processo criativo. Deixa molhar. Deixava sim. E minha palavra favorita virou tchabum. Era tudo contra água, Tudo, tudo, tudo! Era eu contra água. Por vezes, ainda me via me abstendo, tanto é que passei um bom tempo fora das piscinas. Acontece que, ao ver a touca na loja, me apaixonei. Ao me apaixonar, comprei. Ao comprar, e ao lembrar, vieram lágrimas aos olhos. E tinha mais! O barulho que a água fazia ao cair na touca me colocava um tremendo medo. Uma sensação de beira de pânico. Mas não era. Era a prova viva de que eu vencia. Ainda debaixo de tanta água. Ainda depois da babá afirmar que, certa vez, afogara com tanta água do chuveiro. Por fim, resolvi testar minha nova mercadoria. Estava afobada de tão feliz. Ganhara meu dia. Respirava fundo e prendia o ar lá dentro, só para poder gritar de felicidade depois. Já que nem imaginava o nível de emoção que seria misturar meu senso criativo com um devido banho de cabeça na água. E de pensar no barulho de água na touca e da touca na água, já me davam borboletas no estômago. Fechei os olhos e mergulhei chuveiro abaixo. Aquele trem veio, anunciando sua chegada com a fumaça e todo o soar da locomotiva. A água ainda molhava o cocó. Os fios ainda se desprendiam molhados. Meu estômago foi apunhalado por um trauma que eu estava decidida a converter. As borboletas voavam da minha cabeça afora. O que posso dizer? No dia seguinte, assim como sempre esquecia o brinquedo novo, esqueci da touca nova. E fui me dar conta hoje, ao vê-la. Para aqueles que desejavam um romance sem fim, lamento em desaponta-los, mas a vida traz com ela hábitos. E não estou dizendo que isso seja bom. Por fim, a emoção de um reencontro eterno há de ficar. Ela está ali, e não planeja, por enquanto, sair dali. Estou  vendo-a. O momento de usá-la uma ou duas vezes, e apenas uma ou duas, se fez mais especial que o uso contínuo. Aquela para sempre saga humana de gostar do raro, do único e do especial. Meu amor, é tão único. É tão meu. Gosto das coisas que ficam pela dor da saudade daquelas que se vão. A saudade em mim é tão linda e tão grande, mas dói tanto que também a chamo de amor. Por fim, as borboletas voam. Uma ou outra estão ali, naquela proteção de touca. Mas elas voam, e assim tem que ser. Levam nossos corações e os espalham por todas as partes do mundo. Nos apossamos de partes pequenas que, nossas, guardam nossa imaginação e nosso amor em partes desmembradas de um todo tão bonito. Voam e deixe voar… Afinal, para reunir o todo, a posse será tão breve como a lua, e tão intensa quanto o sol. Cruzará o mar, por sinal, e subirá ao topo gloriosa, dizendo, não, não sou posse, sou só saudade sendo diva. Sou só amor.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized