Pólen

Estava em uma daquelas lojas que se fazem necessárias na vida de uma pessoa. Elas vendem de tudo. Elas vendem pratos inquebráveis, facas eternamente afiadas, elas vendem barato. E eu amo circular por elas. Não me seguro e não aguento, é só ver uma dessas que me vejo dentro, entre as prateleiras tentando tatear algo que, definitivamente, não me parece ter fundo. Entretanto, já me conformo, e até digo que posso, em controlar meu senso consumista nesse caso. É uma questão de visão maniqueísta do mundo, na qual eu reluto em me convencer que não, não preciso de um espremedor de laranjas no momento, por mais que ele seja vermelho com bolinhas brancas, nem de um kit para bolos. A tarefa fica, obviamente, mais fácil quando eu me deparo com a ala de ferramentas, embora, confesso, já tive em dias da vida de enfrentar uma queda por furadeiras. E não era na mesma fase em que eu realmente precisava pendurar quadros pelas paredes de casa. Foi em uma dessas, que um amor retirado cuidadosamente do baú me despertou tamanha nostalgia. No meio da lojinha, com todos aqueles relógios me encarando e me condenando por tamanho tempo perdido, e por mais bonitos que fossem, me intimidando, tinha uma touca. Sim, uma touca de banho. E ela era toda especial. Ela tinha pintinhas cor de abóbora, e flores cor-de-rosa. Ela era diferente daquelas cores indiferentes de minhas toucas do passado. Não indiderente. Diferencinha. Diferençona, aliás. Pois me recordo há muito de meu drama e combate às toucas de banho. E redescobri essa memória me lembrando do banho de todos os dias. Eu era uma criança perfeccionista. Como tal, era incapaz de entender, no auge da superação do édipo, o porquê de usar a touca, já que passava mais tempo na frente do espelho tentando colocar todos os fios de cabelo para dentro, de modo a ficarem todos encobertos, do que no banho propriamente dito. Isso me fazia gastar horas. Não queria molhar o cocó. Não queria! Porque a mãe nunca molhava o cabelo com a touca, e eu sim? Hoje vejo que esses desastre sempre foi eminente em minha vida. As coisas simplesmente não funcionavam tão facilmente para mim, mas eu sempre fui persistente. Nunca imaginei que um dia pudesse cansar, e isso, exatamente, não vem ao caso. O caso é, sim, um dia acabei cedendo aos desastres, mas até então batalhei. Se uma única touca não funcionava, colocava duas. Passava mais minutos sistemáticos colhendo cada fio de cabelo como se caça por grãos de areia em uma praia de pedras. Ao chegar a conclusão de que duas toucas juntas deixavam uma brecha para água escorrer e molhar ainda mais minhas joviais madeixas, tomei a maior decisão de todas. A estratégia de guerra, que, ao meu ver, seria infalível. Já que era difícil de domar, olhava ao espelho e falava em alto e bom tom que, caso vencesse, o mérito seria todo meu. Nenhum pingo de agradecimento ao destino ingrato. Entendeu? Nenhunzinho. O mesmo valia quando a água saía fria do chuveiro, no inverno, e eu suplicava baixinho para que alguma leva viesse mais quente. E também esnobava todo e qualquer sistema de aquecimento solar. De fato, a missão foi bem sucedida. Três toucas eram o número ideal para a completa sanidade dos fios. Ou quase completa, que fosse, já que, um ou outro, acabavam por se molhar. Ao me dar conta, porém, do tempo que gastava e do ritual que não gostava, nem queria cumprir,  abandonei as toucas e seu barulho assustador e deixei de colocar a cabeça embaixo do chuveiro. E você me pergunta, sim, qual era a intenção, pois, ao fim, deveria se molhar mais, não? É, molhava sim. E posso dizer, com toda ou quase convicção que aí deu-se início meu processo criativo. Deixa molhar. Deixava sim. E minha palavra favorita virou tchabum. Era tudo contra água, Tudo, tudo, tudo! Era eu contra água. Por vezes, ainda me via me abstendo, tanto é que passei um bom tempo fora das piscinas. Acontece que, ao ver a touca na loja, me apaixonei. Ao me apaixonar, comprei. Ao comprar, e ao lembrar, vieram lágrimas aos olhos. E tinha mais! O barulho que a água fazia ao cair na touca me colocava um tremendo medo. Uma sensação de beira de pânico. Mas não era. Era a prova viva de que eu vencia. Ainda debaixo de tanta água. Ainda depois da babá afirmar que, certa vez, afogara com tanta água do chuveiro. Por fim, resolvi testar minha nova mercadoria. Estava afobada de tão feliz. Ganhara meu dia. Respirava fundo e prendia o ar lá dentro, só para poder gritar de felicidade depois. Já que nem imaginava o nível de emoção que seria misturar meu senso criativo com um devido banho de cabeça na água. E de pensar no barulho de água na touca e da touca na água, já me davam borboletas no estômago. Fechei os olhos e mergulhei chuveiro abaixo. Aquele trem veio, anunciando sua chegada com a fumaça e todo o soar da locomotiva. A água ainda molhava o cocó. Os fios ainda se desprendiam molhados. Meu estômago foi apunhalado por um trauma que eu estava decidida a converter. As borboletas voavam da minha cabeça afora. O que posso dizer? No dia seguinte, assim como sempre esquecia o brinquedo novo, esqueci da touca nova. E fui me dar conta hoje, ao vê-la. Para aqueles que desejavam um romance sem fim, lamento em desaponta-los, mas a vida traz com ela hábitos. E não estou dizendo que isso seja bom. Por fim, a emoção de um reencontro eterno há de ficar. Ela está ali, e não planeja, por enquanto, sair dali. Estou  vendo-a. O momento de usá-la uma ou duas vezes, e apenas uma ou duas, se fez mais especial que o uso contínuo. Aquela para sempre saga humana de gostar do raro, do único e do especial. Meu amor, é tão único. É tão meu. Gosto das coisas que ficam pela dor da saudade daquelas que se vão. A saudade em mim é tão linda e tão grande, mas dói tanto que também a chamo de amor. Por fim, as borboletas voam. Uma ou outra estão ali, naquela proteção de touca. Mas elas voam, e assim tem que ser. Levam nossos corações e os espalham por todas as partes do mundo. Nos apossamos de partes pequenas que, nossas, guardam nossa imaginação e nosso amor em partes desmembradas de um todo tão bonito. Voam e deixe voar… Afinal, para reunir o todo, a posse será tão breve como a lua, e tão intensa quanto o sol. Cruzará o mar, por sinal, e subirá ao topo gloriosa, dizendo, não, não sou posse, sou só saudade sendo diva. Sou só amor.

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