Gira-Gira

Um amigo meu me disse, em certa vez, de certa ocasião, que eu era viciada em cafés e adjacentes. Por adjacentes entenda padarias, bistrôs, ou quaisquer lugares em que eu possa sentar, tomar um café, escrever ou ler em paz. Um outro amigo meu me disse que eu era assim, e que ele também era. Mais outro, ainda, me falou de energias. Sem mais nem menos me soltou um eufemismo, ou não, de ideias astrais: minha energia não estava, exatamente, condizente. Condizente com o que? Não interessa essa parte para história. E eu ando em mania de achar novos cafés, novos restaurantes e novas padarias. Nas últimas semanas já encontrei boas cinco, e espero não desenvolver nenhuma dislipidemia com esse hábito. Acontece que essa de energia não me fez sentido ao início. E na terceira tentativa de explicação, eu entendi. Até fiz força. Até achei, por um momento, que bem valia um café de pensamento, e lá estamos. E cá estamos. Ando com mania de amigos. De ouvir demais. Nunca fui de ouvir quando se dizia respeito a mim. Sempre fui Senhora de meus próprios conselhos. A seleção era criteriosa. Os conselhos vinham, apenas e somente, de mim. Por toda vida tive mania de lojas. O único empecilho, agora, é achar vagas para estacionar o carro. É, minha amiga me falou. É mania de não confiar. É mania de não ceder. Ela estava tão certa. Tão difícil confiar. Difícil ceder. Falar as palavras certas e saber a hora certa. Desconfiando demais nunca se acha a hora certa, porque, quando ela chega os pés estão atrás, na dúvida. Sempre na dúvida. As coisas passam. A gente não confia. A gente tem trauma. A gente não cede. A gente baila, a gente valsa, a gente até gosta. A gente briga, a gente descabela, a gente beija. A gente abraça, a gente é amigo, a gente bebe champagne e cerveja. A gente vai em bar, em carro, em briga, em risos, a gente vai tocando. A gente vai a destino de um sem fim, sem porta, confins. Do fim. Ah, eu não queria isso não. Eu não queria que toda vez que o sentimento chegasse, eu cedesse. Pois não cedo. E aí? E ai que entrou. Me tirou para dançar, me colocou contra parede e cobrou atitude. E me disse, trauma por trauma, quem sai traumatizado? É toda vez como um reviver de tudo. Mais uma vez o trauma. Mais uma vez essa roda que não pára. A gente não fala, a gente não sabe, a gente é junto, mas é separado. A gente é feliz, mas a gente joga. O orgulho é páreo mas é perigoso. E eu,  que há tempos, cansei desse jogo. Cansei de brincar de orgulho. E cansei de brincar com o orgulho alheio. Então pára o jogo, que eu quero descer. O gira-gira não tem fim, até eu ser Senhora de mim. Quando eu era criança, uma vez, caí do gira-gira. Me ralei inteira. Me predisse desastre. Me vi sozinha. Eu gosto, gosto sim. E me vejo de café em café. Me vejo, sim, bebendo, lendo, escrevendo, girando, girando, girando. E sozinha.

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