Enfeites de vida

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Eu não vou. Moi não vai. Eu repito que não vou. E agora estou nessa, pleno meio dia, meia luz de dia, olhando a janela e esperando chover. Como já devo ter escrito um milhão de Santas Vezes, caio de amores por chuvas. E ainda mais por chuvas que vem de ares secos. Amo paradoxos, antíteses e oxímoros, então, nem se fale. Sabe que as vezes eu me comporto como uma criança birrenta. Poderia estar fazendo milhões de coisas ao meio dia, das quais a mais óbvia é, com toda certeza do mundo, almoçar. Mas não, eu sou a professora do meu eu. A minha própria psicóloga de luxo. E aí, quando essa parte de mim me manda, eu faço. Sento, faço, e como faço. Pois bem, dentro desse meu fluxo cerebral, ando pensando assim e ali. Ando pensando em escrever algumas coisas, algumas memórias. Ando pensando em mudar mais ainda esse estilo de escrever. E são mudanças que implicam, apenas, uma coisa da alma, entende? Provavelmente não, não entende. Mas uma inspiração diferente de todas as outras. E pensamento aqui, acolá, me coloquei sentada. O toldo faz um barulho com esse vento de chuva. Não gosto dessa barulho. Nem de vento de chuva. Vento de chuva me assusta. Barulho de toldo me irrita, porque me acorda. Já que estou acordada, é só uma vaga lembrança que cotuca algum neurônio, deveras, sensitivo. Não gosto desse vento porque já o vi derrubar árvores, animais e pessoas. É, pessoas. Pulando a parte que eu, em meu minimalismo, já quase fui levada por ele também. Em todos os sentidos. Pois quando me dá na telha, resolvo voar. E quem me conhece, me conhece ao fundo, a ponto de eu abrir mi vida e maluquices, já se viu colocado naquela situação de voar comigo. Então, fita um ponto no infinito, abre os braços, fecha os olhos e voa. Sente o vento bater. Mas não, nesse vento eu não me arrisco. Passarinho nenhum se arrisca, pense eu. Engraçado falar disso, é que tem gente que acha que me conhece. A pergunta é, já te chamei para voar? Se sim, você tem uma abertura bem necessária. Senão, não tenho resposta para isso. E interprete como quiser. A minha companhia se vale em auge nesse momento de glória de mim. Parece doido, mas nele eu alcanço o pedestal do céu. Engraçado também que eu não estava, de modo algum, disposta a falar das maluquices da minha alma. Muito menos de mim. Aliás, nesse mundo em que todos falam de todos, não sei ao menos se tenho propriedade para tal. Mas hei de contar um causo. Que hoje, fazendo o que faço demais, e reparem que eu disse demais e não muito, me coloquei a pensar. E concluí, dentre memórias etecetera, que amo confetes. Não do gosto, mas se pudesse, os teria espalhado por toda a casa. E isso faz sentido, já que minha cor favorita é o colorido. Mas então lembrei da padaria. Lembrei de minhas tristezas infantis. E também de minhas felicidades. As benditas vezes, em todas semanas, e várias vezes a cada semana, em que pisava na padaria, olhava para minha mãe com olhar de súplica. “Filhinha, o que você quer comer?”. Eu penso hoje, é, meu futuro guloso estava fadado desde então. Despreocupadamente fadado. Já eram predizes de que eu não conseguiria resistir a qualquer bom doce. Deveras curiosa era sempre a minha constante escolha. Queria chumbos. Chumbinhos de chocolate. Tão lindos. Não eram coloridos, não. Eram chocolate marrom, mesmo. Chumbinhos ao leite. O processo era mais mágico que qualquer ingerir de chocolate. E não consistia apenas no sabor contagiante. Era uma frase toda composta e emperequetada: eu não falava. Era uma quase muda. Então fui de ouvir muito. Fui muito de prestar atenção em tudo, em falas, no professor, nos detalhes e no chocolate. Na mesma padaria em que a crença era a da “menina muda”, minha mãe elevava o tom de voz quando eu apontava para os chumbinhos mágicos. Posso jurar que, de certa forma, eu via um brilho impecável em cada um deles. Eu apontava. Minha mãe dava o pedido. Eram tantas gramas. Tantas porque, até hoje, não tenho noção de gramas. Certo dia me vi pesando uma melancia no supermercado, ao que a funcionária me olhou, na certa, com cara de incógnita. E também nunca sei o quanto pedir de presunto ou peito de peru, e demorou a descobrir que quatrocentas gramas eram um tanto exagerado para alguém que mora sozinha. Pois então, voltando a padaria mágica, dos chumbinhos de glitter, a funcionária pegava sua espátula de plástico, a qual, depois, virou uma luva de plástico. Ou foi o contrário? Não lembro, sei que agora voltou essa moda de luvas de plástico. Enchia sua mão com meus chumbinhos. Enchia. Minha mãe dizia se era demais ou de menos, e, confesso, pouco interessavam esses dizeres, ou os avisos que, caso comesse demais, teria dor de barriga. A moça jogava, com teor de graça, em movimento balístico, todo aquele chocolate em um saquinho igualzinho ao de pão francês, mas menor. Estampado em sua frente, tinha o desenho da padaria. Que eu fui entender depois de algum tempo, ser o pé direito dessa. Enfim, o saquinho me era entregue, do qual minha mãe precisava somente do papelzinho que saía da balança. Inhos, Inhos, Inhos, diminutivos que enfeitam a vida. Eu me deliciava no chocolate. Hoje minha mãe me ligou e me disse que está gripada. Quase sugeri que ela fosse buscar chumbinhos de chocolate para ela. Mas não sei se eles ainda o fazem ou se ela teria um estado de espírito elevado por conta disso. Só sei que, lembrando, só tem uma explicação para o mundo a parte que as vezes eu me injeto: ele é todo pareado por chumbinhos de chocolate. No céu, nas casas, no asfalto. Nas pessoas. Meu enxergar, tanto quanto limitado, no meu mundo ilimitado, e o mundo do mundo é ilimitado, é incrementado por essa mágica, que eu tenho certeza ter passado para patamares conscientes. A mágica do chumbinho. Levei um susto do vento. Levo constantemente susto das pessoas que não são sempre chumbinhos, como eu gostaria que elas fossem. Comigo, carrego apenas a ideia de que enxergar e visar são palavras diferentes. Nossa visão interna pode ser, de fato, sem limites. Pode ser verídica ou não. Hoje sou só da opinião de que, de todo modo, nossas verdades estão aqui para nos enriquecer a alma e o coração. Para nos deixar felizes. Então, com licença, preciso fechar a janela. 

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2 Comentários

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2 Respostas para “Enfeites de vida

  1. Gian

    Acho que entendo…hahahaha. E que haja muitíssimos chumbinhos de chocolate nessa vida! =)

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