Arquivo do mês: outubro 2012

Aos meus Médicos

De médico e louco, de médico e louco…Vinha com, deveras, um bloqueio. Bloqueada, resolveu que escreveria em primeira pessoa. Mas talvez esse assunto que estava para encarar ainda a despertava certas e sérias dúvidas acerca de um tema, que, era sim bonito, mas doía na alma. Portanto, nesse caso, escrever em primeira pessoa tornara-se difícil missão. Médico, não? E fitava o nada na mesa, se dispondo a pensar diante de uma vida de compromissos a serem cumpridos, mas não menos do que tivesse seus sete anos e estivesse tentando entender o ábaco. Convenientemente lembrou do pai. Ele sim a ajudava a entender o ábaco naquela época. Será que já, em dias presentes, se colocaria a ajudar a entender algo tão complexo quanto? Digo, muitos vão duvidar do que se pensa agora, mas em suas correspondentes proporções, certas dificuldades de nossa atual vida são bem que comparáveis ao eterno entendimento de dezenas, centenas, unidades. Unidades. E, por Deus, tem se formado tantos, né? Bate um sentimento ignóbil. E por Deus, que raio de arte? Se nunca foi colocada a pensar assim? Já que naquela pequena cidade, coincidentemente ou não, via o moço, de branco. O moço, com a maleta, subia a ladeira. Suas panturrilhas pesavam tais como as rugas da idade. Dentro do paletó, a velha e pequena garrafa. Se dispunha a subir. Ofuscando a si com um peso de pseudo-fracasso, como é de hábito em sua classe, atraía o olhar admirado de todos os outros. A criança, na calçada, já dizia logo não entender, que artista era aquele, que nem aparecia na tevê, mas que todos pareciam querer tocar. O menino, do outro lado da rua, se colocava a imitar, do dito cujo, o andar. O homem vermelhuço saía a correr da farmácia, com vários papéis na mão, tentando acompanhar o ritmo da ladeira. A cidade perdia consonância e conformidade, entrava em êxtase e euforia. Só a admirar. Outrora chegou um outro. Ela perguntou porquê. Ele disse: é médico, oras. Médico? E que tem? Que tem que é Médico? Esse teor de “oras” passava uma obviedade nada óbvia. Disse que Medicina era fazer arte, na vida real. Mas e o rádio? Deixa disso, menina, não era na rádio, nem na televisão, já disse, é na vida. Na vida? Como no Circo? Pois bem, impaciente, outrinho se colocou a explicar: Como tal, preste atenção e veja bem, já que só vou explicar uma vez, tá bem? Ela assentia, fielmente, com a cabeça, pra cima e para baixo. Pra baixo e para cima. Ele disse que médico era malabarista. Malabarista de tesouras, e isso fazia dele um malabarista de elite. Ela perguntou o que era elite, e ele falou da elite: os melhores. Mais que isso, enfatizou, eram malabaristas de agulhas, de fios, de órgãos, bambolês. Eram malabaristas da vida dos outros, e portanto, muito responsáveis. Eram malabaristas de suas vidas, e, assim, supostamente sensíveis. Costureiros e tanto, sempre sabem como pregar um ponto, ou um botão. Fazem roupas da alma. Emendam qualquer coisa. Aliás, uma vez emendado, fazem funcionar. Eram mecanicistas, por vezes. Conheciam a retórica e a dialética como ninguém, era algo chamado propedêutica. Eram cantores da vida e atores da paz, conforme fosse a notícia, atuavam em tranquilidade. Eram sábios, cientistas e bailarinos. Dançavam conforme a música, em movimentos leves e delicados, segurando seus músculos e passos calculados por milímetros. Sapateavam em raciocínios, pintavam histórias lindas, tinham os traços fortes de Monet e Cézzane. Muitos eram até mais, escreviam como o quê. Livros para os demais aprenderem. Faziam inveja as ruas Parisienses da Belle Époque. Preenchiam as bibliotecas, e atraíam mais atenção do que as rosas de Drummond, já que quebravam, por si só, os asfaltos mundo afora. Quando a demanda era muita, ainda se colocavam de palhaços, as pessoas riam. Sorriam. É, sorriam sim, embora algumas crianças tivessem medo. Por fim, como se não bastasse, tornaram-se escultores, e lapidar cada canto de perfeição certa e já estabelecida. A criança encantada, falou com timbre e convicção, seria Médica. Ele advertiu: um só cuidado, médico também é mágico. E ela achou fantástico, ser tudo isso e também ser mágica. Por hora, não era assim, menina, não era assim não. De querer ser tudo, se decidia ser médico. O médico de pessoas, de almas, de milagres e de mágica. De tanta mágica, porém, muitas vezes o médico se perdia na própria mágica. Como todo bom mágico, ninguém nunca sabe o trabalho que dava preparar o truque. Isso não tirava o mérito do mágico. Alertou ainda: há Médicos e há os que fazem Medicina. Nem todos médicos fazem Medicina. Para ser tudo isso, você precisa faze-la. Entendeu, menina? Fazer Medicina com “M” maiúsculo. Prestou atenção? Ela assentiu. Para cima, e para baixo. Ele se recostou na calçada, e colocou a mão na testa, suada no calor daquele sol. O trabalho do truque não invalida a mágica. Não rouba o milagre da mágica. Só rouba um pouco de todos os milagres, para si.

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Prece

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E cá estou eu, nesse calor de vida, nesse calor de tempo, amaldiçoando, mais uma vez, o sol, e bebendo chá. Bebendo chá, nesse calor? É a treva. Pois bem, que na falta de inspiração, resolvi me inspirar. Me inspirar e escrever uma mensagem às minhas amigas. Afinal, creio que muitas delas esqueceram algumas verdades, e mesmo para aquelas que sempre a tiveram por suas, não desmereço o “vale a pena relembrar”. Sabe que todo parto é fortaleza. Ou me diria outra coisa sobre isso? O contrário? Pois quem afirma não sabe o que é doer em parto. Aonde quero chegar é que, toda mulher nasce de outra. Outra mais forte. E segundo os padrões edipianos que, umas mais e outras menos, vivenciamos, não dá para lutar contra certas inspirações na vida. Conhece a inteligência, a capacidade de adaptação, etecetera, e, por fim, aprendemos em algum ponto a não relutar. É bem por aí…precisamos nos adaptar. Precisamos admirar o mundo e o próximo. É necessidade e dever aprender com os mais fortes. Ora, e quem é tolo de não querer ser forte nessa vida? Obviamente essa não é sempre uma opção. A vida exige, a determinados momentos, coragem e leveza. Uma boa dose de oxímoro e, portanto, não poderia faltar, jogo de cintura. A exemplo daquele momentinho doloroso que nos originou, faremos uma prece. Uma prece de força. É preciso ter força, afinal, para olhar no espelho e ser sincera consigo. Para pensar em si mesma e se abrir para você. Para te revelar seus segredos mais íntimos. E para os outros, então? A mulher será sempre o mais belo ser maquiavélico. É necessário acordar e passar protetor solar. É ter força de levantar e estudar, levantar e trabalhar, comprar flores para o jantar, cozinhar, cuidar, cuidar, cuidar. Comer, beber, sair, falar. Força para sair do banheiro com o cabelo feio, depois de horas tentando arrumar, de tomar mil analgésicos para cólica cessar, de em meio a uma crise de choro, sair de casa e comprar. É preciso compartilhar e aprender a ser amada e se deixar ser amada. É saber falar, fazer cara de súplica, dançar, cantar, fazer a escova de cabelo de microfone, hidratar, hidratar, hidratar. Ser eloquente, falar fluentemente, ser profissional, e evitar, evitar, evitar. Aprender a ganhar rosas e orquídeas, beijos, telefonemas, recados e cartões inoportunos embaixo da porta. Amar. Respirar. Viver. Ser mulher. Reunir em um hall de verbos as tarefas de um dia, para quê no final? Para ser mulher. E pense que eu imagino, que vida mais linda de se viver. Cadê o amor da vida? De onde vem esse amor? Te respondo em uma linha que vem do amor à vida. Consolar, consolar…consolar. Então, corre lá, tome as providências necessárias. Coloque ela em pé, passe pó de arroz e a deixe a bailar. Diga a ela que ninguém a cobra, e se cobram, para não sentir cobrada não, senhora. Que se não te valoriza, não hão de valorizar. Fala também para não esperar. Só dela, só ela, em um baile individual. E por fim, avise: tome logo esse prazer por seu, já que ele o é. Todo seu, por toda vida. Porque de amores, nossas vidas estão cheias. O segredo é que cada um deles parta de nós. Agora sobe, vai. Sobe ao último andar e dá uma espiadela no mundo lá embaixo a esperar. Então, respira. Respira porque se nosso mundo é carrossel de cristal e porcelana, ele vai girar. Docilmente e delicadamente. Agora olhe para dentro de si. Vê? Coloca o mundo para dentro. Tudo que é seu, por fim, gira junto. E se gira junto, não tem porquê a vida parar. O mundo é seu, é seu sim! Se aposse de você antes, contudo. E alerto…depois disso, ninguém nunca mais vai te roubar. Ah, claro, finalmente, esqueça o chá.

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