Aos meus Médicos

De médico e louco, de médico e louco…Vinha com, deveras, um bloqueio. Bloqueada, resolveu que escreveria em primeira pessoa. Mas talvez esse assunto que estava para encarar ainda a despertava certas e sérias dúvidas acerca de um tema, que, era sim bonito, mas doía na alma. Portanto, nesse caso, escrever em primeira pessoa tornara-se difícil missão. Médico, não? E fitava o nada na mesa, se dispondo a pensar diante de uma vida de compromissos a serem cumpridos, mas não menos do que tivesse seus sete anos e estivesse tentando entender o ábaco. Convenientemente lembrou do pai. Ele sim a ajudava a entender o ábaco naquela época. Será que já, em dias presentes, se colocaria a ajudar a entender algo tão complexo quanto? Digo, muitos vão duvidar do que se pensa agora, mas em suas correspondentes proporções, certas dificuldades de nossa atual vida são bem que comparáveis ao eterno entendimento de dezenas, centenas, unidades. Unidades. E, por Deus, tem se formado tantos, né? Bate um sentimento ignóbil. E por Deus, que raio de arte? Se nunca foi colocada a pensar assim? Já que naquela pequena cidade, coincidentemente ou não, via o moço, de branco. O moço, com a maleta, subia a ladeira. Suas panturrilhas pesavam tais como as rugas da idade. Dentro do paletó, a velha e pequena garrafa. Se dispunha a subir. Ofuscando a si com um peso de pseudo-fracasso, como é de hábito em sua classe, atraía o olhar admirado de todos os outros. A criança, na calçada, já dizia logo não entender, que artista era aquele, que nem aparecia na tevê, mas que todos pareciam querer tocar. O menino, do outro lado da rua, se colocava a imitar, do dito cujo, o andar. O homem vermelhuço saía a correr da farmácia, com vários papéis na mão, tentando acompanhar o ritmo da ladeira. A cidade perdia consonância e conformidade, entrava em êxtase e euforia. Só a admirar. Outrora chegou um outro. Ela perguntou porquê. Ele disse: é médico, oras. Médico? E que tem? Que tem que é Médico? Esse teor de “oras” passava uma obviedade nada óbvia. Disse que Medicina era fazer arte, na vida real. Mas e o rádio? Deixa disso, menina, não era na rádio, nem na televisão, já disse, é na vida. Na vida? Como no Circo? Pois bem, impaciente, outrinho se colocou a explicar: Como tal, preste atenção e veja bem, já que só vou explicar uma vez, tá bem? Ela assentia, fielmente, com a cabeça, pra cima e para baixo. Pra baixo e para cima. Ele disse que médico era malabarista. Malabarista de tesouras, e isso fazia dele um malabarista de elite. Ela perguntou o que era elite, e ele falou da elite: os melhores. Mais que isso, enfatizou, eram malabaristas de agulhas, de fios, de órgãos, bambolês. Eram malabaristas da vida dos outros, e portanto, muito responsáveis. Eram malabaristas de suas vidas, e, assim, supostamente sensíveis. Costureiros e tanto, sempre sabem como pregar um ponto, ou um botão. Fazem roupas da alma. Emendam qualquer coisa. Aliás, uma vez emendado, fazem funcionar. Eram mecanicistas, por vezes. Conheciam a retórica e a dialética como ninguém, era algo chamado propedêutica. Eram cantores da vida e atores da paz, conforme fosse a notícia, atuavam em tranquilidade. Eram sábios, cientistas e bailarinos. Dançavam conforme a música, em movimentos leves e delicados, segurando seus músculos e passos calculados por milímetros. Sapateavam em raciocínios, pintavam histórias lindas, tinham os traços fortes de Monet e Cézzane. Muitos eram até mais, escreviam como o quê. Livros para os demais aprenderem. Faziam inveja as ruas Parisienses da Belle Époque. Preenchiam as bibliotecas, e atraíam mais atenção do que as rosas de Drummond, já que quebravam, por si só, os asfaltos mundo afora. Quando a demanda era muita, ainda se colocavam de palhaços, as pessoas riam. Sorriam. É, sorriam sim, embora algumas crianças tivessem medo. Por fim, como se não bastasse, tornaram-se escultores, e lapidar cada canto de perfeição certa e já estabelecida. A criança encantada, falou com timbre e convicção, seria Médica. Ele advertiu: um só cuidado, médico também é mágico. E ela achou fantástico, ser tudo isso e também ser mágica. Por hora, não era assim, menina, não era assim não. De querer ser tudo, se decidia ser médico. O médico de pessoas, de almas, de milagres e de mágica. De tanta mágica, porém, muitas vezes o médico se perdia na própria mágica. Como todo bom mágico, ninguém nunca sabe o trabalho que dava preparar o truque. Isso não tirava o mérito do mágico. Alertou ainda: há Médicos e há os que fazem Medicina. Nem todos médicos fazem Medicina. Para ser tudo isso, você precisa faze-la. Entendeu, menina? Fazer Medicina com “M” maiúsculo. Prestou atenção? Ela assentiu. Para cima, e para baixo. Ele se recostou na calçada, e colocou a mão na testa, suada no calor daquele sol. O trabalho do truque não invalida a mágica. Não rouba o milagre da mágica. Só rouba um pouco de todos os milagres, para si.

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Psicariar, Vida

3 Respostas para “Aos meus Médicos

  1. Nina

    Arrepiei! É dos melhores!
    Dúvidas e certezas sobrepostas e justapostas com requintes de alguém que sabe o dom que carrega e batalha pra lapidá-lo!
    Visto assim, até parece uma batalha simples, uma decisão irrefutável…
    PARABÉNS!

  2. jorge cesar cury megid

    malu, concordo com você: nem todos médicos fazem medicina, mas é uma profissão que nos oferece oportunidades em todas as áreas, inclusive naquelas em que não há necessidade de ver pacientes, como por exemplo, um amigo que é supervisor na área médica da IBM (E acredite, era cirurgião pediatra). Parabéns pelo texto. Abraços, jorge cury

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s