Desabafo

Ontem foi um dia incrível. Não foi marcante a princípio. Deveria ter sido, mas não foi. Que de tanto a vida dar voltas eu a chamei para uma conversa, há uns tempos atrás. Lá naquele circo que ela armou. Ela logo viu que eu estava falando bem sério, sabe? Que já não tinha volta, eu estava bem decidida. Pois ela se muniu de tudo que podia carregar na bolsa. Colocou roupa, colocou falação, colocou acessório, câmera fotográfica e poesia. E foi. Chegou, sentou no picadeiro. No meio de tigre, elefante, leão e malabarista. Todos estavam pasmos. O que ela estaria fazendo ali? Eu até ri. Ri alto. Porque ela já foi logo tentando me explicar o porquê todos essas figuras estavam ali paradas, sem fazer nada. Porque ela deu tanta corda aos palhaços. Mas eu não queria ouvir. Longe eu de demitir a tal da Vida. Ela trabalha bem, mas tem uma personalidade peculiar. Acontece que eu estava cansada. Que ordem eu dei para ela tomar essas decisões por si? Que eu fiz? Não estava entendendo mais nada. Falei para ela que ok, tudo bem. Mal a mais não ia fazer. Pior não dava para ficar. Faltava tempo pouco, coisa e tal. E daí eu respirei fundo. Eu tava tão irritada, que perdi a paciência, falei aquelas coisas que a gente sempre fala mas nunca devia falar. Eu disse pra ela que cansei e que não esperava mais nada. Eu disse que não confiava nela, que tava perdendo todo o crédito, etecetera. Aí eu não sabia mais o que falar. Cheguei a ficar sem graça sabe…Dei de costas, subi a arquibancada, peguei um livro, sentei de canto e comecei a ler. Fazendo aquela coisa de sempre, mas dessa vez prometi não esperar. De verdade, tinha um saco de lixo enorme, daqueles bem grandes. Eu enfiei minha ansiedade lá dentro e fingi que nem vi. A única coisa que eu via era um grande hiato branco adiante. De todo modo (cheio ou vazio, não dava para dizer, porque ele era não transparente), não queria nem ver o que tinha dentro. Se era bom, se era ruim, meu único olhar eram para minhas músicas e próprias melodias internas. Bem internalizadas. Depender de quê, olhe lá… que nunca fui de depender de ninguém, diga lá das entranhas da Vida. Deixei tudo pronto, ia partir na próxima manhã. Mas aí. Só que aí. A cabeça esfriou. O pescoço doeu. Eu comecei a espiar a palhaçada. E quando os malabaristas viram que eu estava espiando, pronto, se deu o fuá armado. Eles avisaram o elefante, que chamou os cavalos, a girafa, o leão e o tigre. Os palhaços ficaram tímidos, e os macacos riam bastante deles. Observando aquela cena de fora, como se num corpo que não fosse meu, tive também vontade de rir. E da vontade de rir, quis entrar. Queria participar, ser parte daquele todo. E ao dar o passo entrei na dança, dancei a noite toda. Nem queria dormir. Nem queria sair. Nem dar as contas à Vida. Então pisquei. E entrei em pânico, já que ela tinha sumido dali. Para onde tinha ido, quando eu enfim estava para agradece-la? quando eu estava para dizer que entendi aquele desentendimento? Só digo que sumiu. Continuei indo ao circo, feliz da vida. Aprendi a gostar do circo da minha vida. E aí ontem eu cheguei em casa. Na porta da geladeira tinha um bilhete que dizia: “Brincadeiras a parte, aprendeu a gostar, já sei e já tenho notícias. Gosta muito, até, não é? E já que mágoas não guardo, resolvi esvairar, engoli o que você disse, viajei e voltei. Novidades a pesar, quer saber então, o quê? Vamos embora agora…longe do tal do circo, para onde você sempre quis estar. Faça suas malas, o destino vai se segurar até você chegar. E não se esqueça: bondade também se aprende, minha cara”. Estou longe de entender o que eu quero agora. Malemá quem manda em quem. Eu só sei que a danada ainda terminou a mensagem.

Com amor,

Vida

 

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1 comentário

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Uma resposta para “Desabafo

  1. Gianzito

    Adorei o texto senhorita. E a propósito, clipe muito bem escolhido!

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