Arquivo do mês: abril 2013

Ode às formigas

Acordei tão atordoada, pensando, que direito eu tenho de matar formigas? Elas estão ali, provavelmente cumprindo uma missão de vida. Sem nem reclamar, elas não podem nem ao menos reclamar. Se as coisas não dão certo, você passa por aquele luto de si mesmo, em que é tão difícil chegar à aceitação. Não sem ultrapassar todas as fases do luto. Por vezes se acostuma, outros vão espernear a vida inteira. Há toda uma dificuldade de se apossar de si mesmo, porque quando isso acontece, se apossa também de suas responsabilidades. A questão é, enquanto não se é de si mesmo, de quem você é? Chega naquela idade em que os pais acreditam que fizeram sua parte, os filhos estão ok. Os filhos tem a ilusão de que podem continuar culpando os pais por tudo. Digo, por tudo que dá errado. O que dá certo é mérito deles. Desse escape vem: ou a ficha caí e passa toda uma história na cabeça, ou não caí. E se caí, passa a se cobrar demais até desmaiar do próprio destino. Se suspeita, a culpa deixa de ser dos pais e passa a ser da vida. Olha o que a vida fez comigo, ele diz. Coisas da vida. A vida brinca com a gente. É assim mesmo. Essas coisas acontecem. Eu digo, deixa disso. A culpa é sua. É minha. Quem mandou matar as formigas? Porque raios alguém se acha no direito de dar tapas nas pobrezinhas? Elas estão ali, quietas. E eu que sempre fui metida a passar algum tempo olhando para formigueiros alheios, já sei que elas tem uma missão, ainda que essa missão seja proporcional ao seus tamanhos. E quem sabe a missão não é levar uma folha ali, dali a um metro, logo adiante? Missão dela, missão que pode ser sua, cada um se apega e se apossa de suas próprias missões. Que quando se está entretido com elas, o sentido das coisas vem naturalmente. E o que se gosta de fazer brilha bem forte. Não mate formigas. A folha adiante pode ser o obstáculo no qual você tropeça amanhã. E não, a culpa não vai ser da vida.

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Geração Salada Light

Eu acredito realmente que a geração atual se cobra muito. E também acho que nós não sabemos a hora de parar de nos cobrar. Em relação a tudo, e a todos os mínimos de um cotidiano que, no fundo, fica vazio, nós esperamos a espreita qualquer oportunidade que roube de nós a rotina monótona, e quando essa oportunidade chega nunca assumimos a nós mesmos o quanto merecemos, o quanto fizemos valer, nos esforçamos, driblamos, choramos. Porque sim, toda conquista é válida. Toda opção deve ser pensada, e bifurcações enganam para valer. Curioso é pensar em que por todo esse processo temos um tempo que surge sei lá de onde, para julgar, sermos julgados e pensar sobre os julgamentos e opiniões externas aquilo. Que tem a ver o que o outro pensa de uma decisão a qual apenas você vai viver? Veja que não digo o que o outro sente. Mas você também vai sentir. E sobretudo, você é quem vai viver. Então até onde vai o direito do outro de te jogar contra um muro e tentar provar que as renúncias que você fizer são maiores que os bens que pode ganhar? É que desse medo abre-se mão de muitas coisas. Esse tal medo nos gera ansiedade, coisa e tal. Uma ansiedade que faz pensar em tantas possibilidades e chega a fechar a garganta.
Se me perguntar qual são as escolhas certas, vou dizer que não sei. Não sei nem das escolhas certas para mim, diga-se então para você. O que é certo para um não é para o outro, e isso já é bem claro, deveras elucidado. De que adianta se enganar? Tem que ser sincero com você, abrir o jogo e dizer: vou perder isso. E se não sabe o que vai ganhar, conselho o qual me resta é: viva. Porque a única que pode te trazer ganhos é ela. A única constante da sua vida é você mesmo. As pessoas entram e saem o tempo todo, e não dá para garantir a presença constante de alguém. Ninguém será profundamente constante como você, ainda que você pense nessa pessoa o dia inteiro. É um prazer ser constante na vida do outro, embora nem sempre seja um prazer ter o outro como possível constante. O alívio vem em saber que você não vai se safar da própria companhia. E no fundo você também sabe que não pode colocar a culpa das suas decisões nas costas dos outros. Até porque eles não vão ligar caso você o faça. A melhor saída é mesmo viver. Por Deus, é tão difícil assim? Viver? Será? Se assumir como amor de você? Você não se safa de você, e isso soa até como uma piada. Acontece quando se pede uma salada para ser saudável. É folha para todo lado. Debaixo delas, entretanto, muitas vezes os acompanhamentos fazem da salada mais gorda que um hamburgão. Daqueles bem grandes. E esse é o momento da vida em que você percebe que se engana. Geralmente, nesse becos, você se aproveita das circunstâncias do destino e se apóia. Para isso os homens inventaram menus lights, eles não podem fugir dessa decisão: ou é light, ou é light. Ninguém quer ter que resistir, nem de escolher. Comeu porque o menu era irresistível e não porque quis. Pois é, as maravilhas do menu light é que você tem a impressão de estar escolhendo. Mas na vida não tem salada light, não, Senhor. Os caminhos não vão te resguardar com segurança, por mais que você se camufle em qualquer sistema de julgamentos alheios. Seu maior juiz está e estará sempre ali, e não há vergonha maior do que pagar um mico na frente dele. Ainda os que escolhem o Menu light, tem que escolher o escolher. Sendo assim, fico na torcida para que não inventem uma salada light tão cedo.

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