Ode às formigas

Acordei tão atordoada, pensando, que direito eu tenho de matar formigas? Elas estão ali, provavelmente cumprindo uma missão de vida. Sem nem reclamar, elas não podem nem ao menos reclamar. Se as coisas não dão certo, você passa por aquele luto de si mesmo, em que é tão difícil chegar à aceitação. Não sem ultrapassar todas as fases do luto. Por vezes se acostuma, outros vão espernear a vida inteira. Há toda uma dificuldade de se apossar de si mesmo, porque quando isso acontece, se apossa também de suas responsabilidades. A questão é, enquanto não se é de si mesmo, de quem você é? Chega naquela idade em que os pais acreditam que fizeram sua parte, os filhos estão ok. Os filhos tem a ilusão de que podem continuar culpando os pais por tudo. Digo, por tudo que dá errado. O que dá certo é mérito deles. Desse escape vem: ou a ficha caí e passa toda uma história na cabeça, ou não caí. E se caí, passa a se cobrar demais até desmaiar do próprio destino. Se suspeita, a culpa deixa de ser dos pais e passa a ser da vida. Olha o que a vida fez comigo, ele diz. Coisas da vida. A vida brinca com a gente. É assim mesmo. Essas coisas acontecem. Eu digo, deixa disso. A culpa é sua. É minha. Quem mandou matar as formigas? Porque raios alguém se acha no direito de dar tapas nas pobrezinhas? Elas estão ali, quietas. E eu que sempre fui metida a passar algum tempo olhando para formigueiros alheios, já sei que elas tem uma missão, ainda que essa missão seja proporcional ao seus tamanhos. E quem sabe a missão não é levar uma folha ali, dali a um metro, logo adiante? Missão dela, missão que pode ser sua, cada um se apega e se apossa de suas próprias missões. Que quando se está entretido com elas, o sentido das coisas vem naturalmente. E o que se gosta de fazer brilha bem forte. Não mate formigas. A folha adiante pode ser o obstáculo no qual você tropeça amanhã. E não, a culpa não vai ser da vida.

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1 comentário

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Uma resposta para “Ode às formigas

  1. José Luiz Domingues Júnior

    Acabo de descobrir esse arquivo de textos capazes de nos fazer pensar e refletir… ótimo texto. Provavelmente, se cuidássemos mais das nossas folhas seríamos mais felizes…

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