Arquivo do mês: maio 2013

Sobre os seis mil de Cuba

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Não é, definitivamente, um texto que eu postaria em dias normais. Não me julgo na capacidade de ficar falando sobre as palhaçadas petistas, do pão e circo, do nariz de palhaço que cada cidadão usa diariamente, ou do populismo. Independentemente de filiações partidárias, é só uma opinião baseada em experiências pessoais.

Era uma manhã de sexta feira, há 3 anos, e os residentes estavam em greve. Eu, como estudante do primeiro ano de Medicina, coloquei um nariz de palhaço e fui para praça do centro. O motivo era uma manifestação por melhoras salariais e diminuição das jornadas de trabalho, desumanas. A intenção era conseguir o máximo possível de assinaturas, para que o governo ouvisse ainda que um leve eco de vozes do além. Fui abordar um Senhor, que estava sentado na praça, explicando o caso. E a resposta que eu ouvi, nunca mais vou esquecer:

– Menina, eu acho muito bem feito esses residentes terem salário pequeno. É pra aprenderem o que é ter que dar duro na vida, médico acha que a vida é fácil…ganha dinheiro fácil.

Eu respirei fundo. Olhei para a cara daquele que devia exalar mais de experiência de vida do que eu, até mesmo pela idade.

Além de estudante de Medicina eu sou professora de Redação de um cursinho. E vejo semanalmente a luta de todos meus alunos. Especialmente naqueles que tem o sonho de serem médicos, vejo, além da luta, muita expectativa, pressão emocional, outubrites, surtos psicológicos, imagens idealizadas, horas de estudo misturadas a horas de trabalhos, poucas horas de sono. Vejo o colega do lado fazendo terrorismo, competição por notas em simulados, vejo pais se esforçando para pagar 2, 3, 4 anos de cursinho. Muitas vezes mais que isso. Tenho conversas com eles, e muitos realmente não sabem mais o que fazer para serem os melhores preparados dos vestibulares. Em outros casos os pais não sabem mais da onde tirar dinheiro para sustentar o sonho desses filhos.

Antes de ser estudante de Medicina eu passei por um ano de cursinho, e também lembro de ter vivido tudo isso. Lembro de ter saído de casa ainda bem nova para estudar, de me deparar com uma realidade dura, bem diferente dos ares filantrópicos que nos estimulam a fazer medicina, aquela medicina por humanização. Recordo de ter passado horas e madrugadas estudando, matérias enormes, em vários livros e fontes. Hoje, no quarto ano, invariavelmente as coisas se intensificaram, e a dedicação é maior. Meus amigos de internato parecem ter passado por um furacão e não são mais os mesmos. Eles tem olheiras, cansaço, plantões, aulas e precisam estudar para a prova de residência, a qual, diga-se de passagem, consegue ser pior que o vestibular. E pior, estudam para essa prova depois de 12 horas de plantão.
A formatura chega e a galera acha que é só festa, e de novo, não. Porque além disso tudo, o Estudante de Medicina passa 6 anos longe de casa e sem renda alguma, dependendo do sustento dos pais ou da família. Sem falar do boom de Faculdades de Medicina particulares, espalhadas pelo país, e novinhas em folha, com mensalidades exorbitantes. Elas não são uma ofensa apenas ao Ensino Médico, o qual preza tradição, aplicabilidade e prática. São uma ofensa aqueles que, para cumprir suas metas e sonhos, precisam demandar até oito mil reais por mês, só para estudar. Fora os livros. Tem essa, né? Livro de Medicina não costuma ser barato.
E bom, depois dos seis anos, a necessidade de renda é grande. Mas não existem vagas de residência o suficiente. Não existem hospitais de qualidade suficientes. As provas são concorridas e extremamente caras. E então, o que esse estudante pagaria de mensalidade em uma faculdade particular, ele passa a pagar em cursinhos de preparo para a prova de residência. Claro, dessa vez, se sustentando. Trabalhando. Dando plantão e não dormindo. Na impossibilidade de se estabelecer e de ter uma família, e indo cobrir plantões de uma cidade a outra.
Então o cara passa, enfim. Alguns demoram anos para passar, aliás. Faz a residência e ouve absurdo dos pacientes que estão cansados de esperar por vagas. Segundo eles, os residentes “se dizem médicos”, foi o que eu já ouvi bastante nos corredores do ambulatório de um hospital terciário de alta tecnologia, que abriga ensino Público.

E quando ele termina e monta seu consultório, se filia a um convênio, passa a ganhar 14 reais pela consulta e 100 reais por um procedimento, uma cirurgia (senão menos). E eu te afirmo, 14 reais é o que eu pago para fazer coisas das quais não dependem questões de vida e morte.

Mudaram-se os tempos em que as pessoas respeitavam o jaleco branco. Tem gente que ainda acredita que ser médico é ter status. Qualquer estudante de medicina que ouvir isso hoje em dia, certamente vai morrer de rir. Qual status? Diante do desrespeito que os médicos são tratados nesse país? Diante das políticas populistas que procuram dar a impressão de estar resolvendo algum problema de saúde?

De que adianta esses médicos irem para hospitais nos quais não tem aparato para desenvolverem a profissão? Em que não há mínimas condições de material e/ou higiene para salvar vidas? Porque sim, na nossa profissão é necessário salvar vidas. E não sei até que ponto nosso Governo entende essa afirmação bem simples. Acho que os governantes não se enxergam na posição de salvar vidas, mas indiretamente, eles também são responsáveis por isso.

E novamente eu pergunto à população: qual é a sensação de matar alguém? Como fica a consciência de alguém que mata? Será que esse sentimento é bom? Será que um médico merece essa consciência por não ter tido condições para salvar a vida de alguém? A consciência de ter perdido uma vida porque faltou fio de sutura, ou porque o desfibrilador estava quebrado há alguns meses? Os médicos Cubanos não têm consciência, ou o quê? Qual o plano do governo? Baratear ainda mais a consulta médica?

A população acha que paga caro, mas ela tá pagando caro para dois órgãos: para o governo e para o convênio. Não para o Médico. Estou longe de acreditar que todos os Médicos são criaturas Santas. Mas nunca vi uma classe profissional tão ameaçada pelo descaso de um governo.

Ao Senhor da praça, eu respondi, então:

– O senhor gostaria de chegar acidentado em um plantão, e ser atendido por um residente que está acordado há 48 horas, com sono e com fome? Se o Senhor disser que concorda com isso, eu até passo a respeitar sua opinião.

Sem dizer mais nenhuma palavra, ele me olhou, tirou o abaixo assinado das minhas mãos e assinou.

E os médicos Cubanos, que venham. Junto com as Olimpíadas e a Copa. Talvez a população passe a esperar na fila do SUS fumando charutos de Havana. Mas eles ainda vão esperar. E bem, o que vai vir depois da espera, só Deus sabe.

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A tal da energia

E não sei da onde tirei essa história de que o chão leva com ele todos os males. De modo que, quando as coisas não vão bem, a primeira coisa que faço é ir para varanda e sentar no chão. Ou então no chão mais duro que eu achar. Também mal me lembro de quem me disse que o mesmo efeito surtia ao abraçar árvores. E desde então me vejo sentada no chão e abraçando árvores. A princípio ainda me dava ao trabalho de questionar o quão desparafusada andava para aquele ritual, dentro de uma melodia interna tão sem fim. Mas então, as coisas chegam a fazer sentido. E outras chegam para dar sentido. Às vezes, não é adequado se perguntar o porquê. O que se sente, basta. Aprendi que se sentar no chão me fazia sentir com energias renovadas, ótimo. Não tinha como questionar a coisa toda. E hoje eu sento ali, tomo minhas picadas, converso com as formigas, tento chegar a um acordo. Nem sempre funciona. Digo, a conversa. Mas fiz do chão meu melhor amigo. E se as pessoas chegam, quando elas chegam, não tem porquê. E não adianta tentar achar. As justificativas vem da gente, da vida e das vivências. Cabe a nós um sentido direcionado para atribuir a cada uma delas…estar aberto ou fechado à recebe-las. Estar disposto ou não a viver conforme a dança, sem se perguntar dos porquês de aparecimentos. Afinal, a gente não espera. A vida chega. Ela chega. E o que ela trás, ela também leva. Se for para pensar, te desejo um chão bem duro. Confortável, mas duro.

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maio 6, 2013 · 1:10 am

No white flag

No meio do caminho de todos os outros, tem uma casa. E eu sempre viro uma esquina antes, só para passar na frente dela. Ainda lembro da primeira vez que a vi. E quando eu vi, vi de verdade, me veio aquela coisa de paz interna. Pois é, a casa falava comigo e dizia que as coisas iam dar certo. Que ia ficar tudo bem. Ela sempre está tão iluminada, toda cheia das luzes. E tem o cachorro branco, e os vidros. É o tipo de lugar que te faz pensar no futuro. E eu fico pensando se aquelas pessoas lá dentro devem ser felizes ou se me acham louca por passar ali na frente todo Santo dia, devagar, olhando, parando e pensando na vida. Uma casa de vidro. Tão linda, tão frágil, tão alicerçada com aquele pé direito de madeira e o portão azul. É só hoje que lá passei, em busca de algum conforto. Mas as luzes estavam apagadas. A áurea também. E aí eu entendi que as pessoas não estavam ali. Muito menos para sempre.

 

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Pois é…

Quando cinco minutos parecem passar tão devagar. Quando o por do sol está tão escuro. Quando decisões não precisam ser tomadas. Não agora. Nesse momento é quando palavras não são ditas. Nem precisam ser ditas.

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