Um quê de momento

Na correria do dia me vi saindo do elevador às pressas, sem bem olhar o que estava a frente. E quase que trombo com um moço, de modo que sabe-se lá porque ficamos sem graça, naquele momento constrangedor da vida em que um ou outro ameaçam desviar o caminho e não sabem ao certo o que dizer. Então pensei que, no auge de minha falta de tempo, precisava me sentir estimulada. Vá em frente, diga Bom…Boa…e de repente não sabia mais se era dia ou tarde. E parei no Bom. Depois disse Boa. Sem conseguir completar a frase. Estática na porta do elevador para me decidir, não sabia ao certo o que o pobre do moço estava pensando a respeito daquilo. Só sei que ele respeitou meu silêncio. Respeitou meu tempo. E quando eu repetia Boa, naquele momento travado, já pela terceira vez, ele coçou a cabeça e disse: É, boa tarde. Eu assenti e repeti, Boa tarde. Comecei a rir. E já da garagem ouvi ele gritar, Bom dia. Dei bom dia de volta, e ouvi a risada dele em resposta à minha. Soube que ele me entendeu e que, talvez, estivesse tão confuso quanto eu estava naquele momento. Me dei conta de que seria um daqueles momentos em que a vida devolve a você o que você se oferece, ali e agora. Ela tem medidas de reciprocidade, e quando você sabe aceita-las, o dia se torna mais feliz. Me veio a cabeça que certas coisas ruins acontecem, e nós suplicamos para que nunca mais aconteçam de novo. De repente, nos vemos em um carrossel, e nos sentimos girando em um capítulo de novela repetido. Nos negamos a acreditar que é aquilo, de novo. Sentamos, ficamos ansiosos e choramos. Pode ser choro silencioso, mas choramos, sim. Fiquei imaginando como seríamos mais felizes se simplesmente o ver adiante reconhecesse que aquilo é nada mais que um teste. Porque do passado já se leva a solução. Já se sabe o que fazer. A dificuldade está em aceitar que sim, devemos fazer isso mesmo. Isso que você está pensando. É abandonar uma fatia de vida para seguir em frente, e, por menor que ela seja, dói. A vida nos ensina a optar por nós mesmos.
E, portanto, após tanta filosofia de cinco minutos, olhei para frente e me obriguei a ir adiante. Ainda sorrindo.

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