O cachorro

Me incomodava, irritava e assustava toda vez que, chegando atrasada, passava por aquele trecho de calçada. Ele latia e me assustava. Invariavelmente eu assustava, sim, pulava e arrancava alguns pares de risos de quem passava por ali as sete e pouco da manhã. Por muito tempo teimei em ali passar, até que do dia para noite resolvi evitar. A contra gosto. Passava e fazia cara feia para o cachorro. Mas então me lembrei que certa vez resolvi batizar uma lombada perto de casa com meu nome. E toda vez que passo ali, a tenho como minha. Qual era o meu direito de julgar a posse dele? Se ele queria a calçada, a calçada seria dele e ponto. Sem questionar, diariamente atravesso a rua naquele ponto de vida. Atravesso silenciosamente. E quando estou com alguém, faço com que a pessoa atravesse junto. E eu explico, a calçada é dele. Ao maior esforço de entender, tem hora que a ficha caí. É dele, e sem maiores explicações. Respeitei. Ele nunca mais latiu. Eu nunca mais questionei. Nos encaramos em um silêncio respeitador, mas ele não late e minha vida continua, sem sustos. Hoje eu passei e ele não estava lá. Nem ontem. Da amizade silenciosa espero que ele esteja bem, e só isso. Não posso esperar de ninguém estar lá para sempre, muito menos do dono da calçada. Mas posso pedir ao universo que essa calçada seja toda e para sempre dele.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s