Carta para você

Prezado,

Eu deixo o celular no silencioso. Eu deixo ele virado para baixo. Aquela luz piscando me faz olhar, e eles estão me procurando. Eu tenho saudades de um tempo o qual eu não vivi, em que você podia sumir no mundo sem peso na consciência. Hoje não dá. Ou quase. Porque se você vai até a esquina o aparelho começa a piscar. Se você não vê ou não quer falar, é tido como falta de consideração. Caso responda com pressa também é. Se deixa em casa, por um acaso, ou a bateria acaba, é o fim do mundo. Se tornou cada vez mais inadmissível ficar sozinho. As pessoas não te deixam sozinho com seus pensamentos, e nem você as deixa. Aliás, ouso em dizer que querer estar sozinho é motivo de condenação. Não responder por meras horas é sinônimo de ter sido sequestrado. De não ligar. De não gostar e não amar. Você é julgado e, sim, condenado. Porque ao responder recebe um gelo inexplicável de volta. E sem entender (nem querendo entender) a dinâmica dos móveis, no auge de uma revolta contida, eu deixo ele de lado. Eu peço que entendam. Eu ignoro a rebelião. Peço com força e em um respirar ríspido, que voltem as cartas. E que a solidão não é pecado, ela faz parte.

Atenciosamente,

ou

Com amor,

.

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