Arquivo do mês: outubro 2013

Só um

A gente não percebe a solidão que vem com os dias e que também passa com os dias. Ela só se torna visível quando você volta para casa e tem uma garrafa de café, uma torta de camarão, refrigerante de dois litros, um filtro de água, caixa de chocolates. E então, em uma dessas minha vindas para a cidade natal me dei conta do quanto peço tudo para um. Uma mini salada, um prato, uma lata, uma garrafa de água, um bom-bom, um canudo, uma xícara de café, uma taça de vinho. A gente se acostuma à solidão. Nos acostumamos ao prato único, ao pedido solitário de várias vezes ao dia. E mesmo quando estamos acompanhados, continuamos pagando por um, pedindo para um. Acho que depois de um tempo isso deve cansar. Certamente deve cansar, e talvez esteja aí a lógica de formar uma família e essa coisa toda… É um ciclo e precisamos voltar ao ponto inicial. Que eu vou comer um pedaço daquela torta de maracujá inteira da geladeira, enquanto ainda estou por aqui.

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Filosofias para um café

Na dúvida, tente responder. Pesquise, leia, aprenda com os outros que escreveram por já terem passado por algo parecido. Se ainda assim persistir em dúvida, construa suas próprias respostas e nunca seja egoísta o suficiente para deixá-las presas dentro das suas quatro paredes. Respostas não são fruto de teses e teorias muito complexas. Vem unica e exclusivamente da vida, bem ou mal vivida, e na busca de melhoras. Melhora implica mudança. Não tema a resposta, tão pouco a mudança. Por mais dolorida que soe a aceitação, quando não se engana, o caminho tende a ser não equivocadamente ascendente. Faça bom uso e tire seu próprio proveito. Porque a vida, meu amigo, pode parecer clichê, já que todos que estamos aqui a temos. Mas cabe a você tirá-la da zona de conforto para que ela seja boa de se viver. Agora ferva a água, coe seu café. Sente na varanda e pense no que quer fazer sobre isso. E no que vai fazer sobre isso.

 

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E que venha a uva passa

Estava lendo Martha Medeiros e achei por uma de suas crônicas uma frase bastante cabível para meu momento de vida. Ela dizia que uma ausência honesta é muito mais válida que a presença desaforada. E eu, que já me identifico bastante com muito do que ela fala, delirei. Só por resumir tudo aquilo que eu te falei, um milhão de vezes. Tudo o que chorei para escrever e lutei para explicar. Então, optando por uma ausência honesta, serei, pois, franca. E vou te falar que vou lembrar de você com carinho, todas as vezes que alguém for suficientemente egoísta. Vou esboçar um sorriso, porque você sabe o quanto eu acho sua vaidade estonteantemente charmosa. Vou evocar sua imagem quando decifrar as tentativas de auto promoção e, acima de tudo, vou te desejar todo o bem do mundo, embora sua justiça nem sempre passe de um mero jogo. O qual eu desisti de jogar. Então, vou lembrar de você quando encontrar uva passa no meu salpicão. Mas se vou tirá-la ou a engolir, o que interessa é que de toda forma ela não vai continuar ali, muito presente. Ela vai se perder em algum canto do meu estômago, assim como eu vou te perder em algum canto de mim. Isso tudo enquanto eu persisto na dúvida entre te desejar algum amadurecimento ou toda felicidade do mundo. Se fosse para escolher, te diria que meus dois desejos te cairiam bem, então fique com os dois.  

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Copenhagen me ensinou

Estava de breve passagem pela cidade Nórdica, realmente de beleza estonteante. Mas a verdade é que também estava de saco cheio daquilo sobre visitar pontos turísticos. Pois andava por ali com um amigo da Turquia, e, confesso, por alguns instantes eu o odiei. Debaixo do calor sereno, do cansaço da viagem, de algumas horas de trem, ele decidiu impassível: era possível andar a cidade toda a pé, em um único dia. E eu como não sou de largar a mão de desafios, topei, sem saber ao certo que aquela criatura fotografaria todo lapso de momento ou lasca de monumento. Me arrisco a dizer, acredito na máxima de que ele enxergava o mundo pelas lentes. Era exatamente aquilo que acontecia, enquanto jogávamos fora uma conversa qualquer, ou cantávamos músicas andando naquela chuva escaldante, ele batia fotos incansavelmente. Até que eu cansei. Não das conversas, não da música. Não queria mais museu, tão pouco queria monumentos. Não me arriscava na máquina fotográfica, e, embora goste muito de fotografia, aquela ali não era minha praia. Não naquele dia, nem naquele momento. E ainda suplico para que me perdoe meu amigo, mas o deixei no museu e sentei em uma passagem, na rua principal. Fiquei ali por horas ouvindo um casal de músicos tocando e vendo o movimento da cidade. As pessoas. Mais que ver, sentia. Mais que linda, a cidade é viva, cheia de entranhas surpreendentes que cativam a alma. Fiquei ali e não realizei do tempo passar, do relógio correr, do sol que se foi e da chuva que chegou, me encharcou e também foi embora. Era só mais alguém passando, deixando sua marca e abanando a mão. Ir embora é a ordem natural das coisas, de qualquer coisa, afinal. Das duráveis e não duráveis. Não vejo porque não incluir a chuva nisso. Então, me notei ali e tive a impressão de piscar a primeira vez em muito tempo, o que, provavelmente, não era uma impressão real, nem tinha o menor cabimento. Meus sapatos estavam escaldados e eu patinava. A sensação era extremamente desagradável, o couro se moldava ao meu pé, mas eu não estava nem ai. Eu levantei e voltei para o museu, cheia de remorso. Encontrei meu amigo  saindo por aquela porta principal. Desde que me conheço por gente sou míope. Recentemente me dei por astígmata. E depois de algum tempo reproduzindo em cores a vida besta descrita por Drummond, me dei conta de que não tinha direito nenhum de condenar o ver de lentes do meu amigo. Aquelas eram as lentes pelas quais ele queria enxergar o mundo, porque para ele o sentido da vida está em reproduzir o mundo para os outros. O amadurecimento, talvez, trouxesse uma visão diferente, mas as pessoas com quem ele convivia nunca teriam a oportunidade de ver aquilo. E me pareceu tudo inócuo. Me senti grata por aqueles que veriam as fotos com interesse, embora, para mim, fossem fotos vazias. No dia seguinte, quando ele pagou os ingressos para o parque de diversões e não foi em nenhum brinquedo, apenas tirou fotos, eu já entendia. Deixei ele viver com as lentes dele. E eu, que mesmo cheia dos problemas de visão quase nunca cedo a óculos ou lente de contato, preferi continuar com as minhas. O que não fazia as dele menos válidas, apenas diferentes. Nada que precisasse ser verbalizado já que eu sabia e ele sabia. Fui para um lado e ele para o outro. Bastava. No mais, o viver de cada um a sua forma nos proveu de aprendizados sempre válidos, registrados do lado de dentro. Voltamos a nos encontrar na viagem de trem, em silêncio respeitador. A visão dele passava por algumas lentes a mais, um delay necessário e quem sabe apreciador. E eu na certeza de que minha visão de mundo, ainda que totalmente embaçada pelo meu complexo e problemático par de lentes naturais, estava inteira certa. As duas juntas, inseridas no caos. 

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