Arquivo do mês: fevereiro 2014

Quando esperar

Imagem

Esses dias alguém me pediu para esperar. Foi bem assim, “espera um pouco”. Eu disse que estava indo embora, e quando foi feito o pedido, resolvi olhar para trás e relevar. Quando era criança minha mãe tinha mania de me deixar esperando no carro enquanto passava visita no hospital. Eu odiava. Só faltava acabar com a bateria do carro enquanto aguardava, ansiosa, ela chegar em um sábado, para me levar na banca comprar figurinha e picolé, trocando as estações do rádio. Teve um dia em especial que a demora foi grande, e eu, naqueles pensamentos de criança, coloquei na minha cabeça que minha mãe tinha sumido. Que algo tinha acontecido. Primeiro comecei a chorar e aumentei o volume da música. Depois entrei em desespero e me perguntava porque ela tinha feito aquilo comigo. Porque tinha me deixado lá, daquele jeito? Ela faria isso? Eu torcia para ela aparecer, embora àquela altura já pensava em planos mirabolantes de como ligaria para o meu pai avisando o ocorrido. Então tive a ideia brilhante. Resolvi que seria mais decente disparar a buzina do carro. Caso minha mãe estivesse em algum lugar lá dentro, certamente saberia que era eu. Não tive dúvidas. Abri o berreiro e dei-lhe a mão na buzina. Apareceu, depois disso, uma enfermeira afobada tentando me tranquilizar. A questão é que quando eu vi minha mãe cruzando a porta do hospital, é como se tudo fizesse sentido. O abraço dela já poupava as explicações e no momento seguinte eis o que eu estava fazendo: sorrindo, cantando e tomando sorvete. Sem mágoas, sem nada. Me marcou do tanto a lembrar disso até hoje, e foi suficiente. O ponto a que quero chegar é que na vida esperamos por muitas coisas e muitas pessoas. Quantas vezes não doeu de esperar sentado os pais? Um ou outro amigo desligado e atrasado? A comida chegar no restaurante? O café, porque a cafeteira quebrou e você precisava? E quantas coisas inesperadas e boas aconteceram enquanto se esperava? Acontece que precisamos enxergar a deixa de esperar e a deixa de partir. Eu, com meus três anos de idade, não tinha idade, perna ou autonomia para partir. Nem partiria. A decisão é deixar ou não deixar. Querer ou não querer. Merecer ou não. Minha mãe já me tinha desde quando eu fui concebida. Então, quando levamos o chá de cadeira, sempre esperamos mais aqueles cinco minutos. Os cinco viram dez, que viram uma hora. Dali um pouco chega o momento de tomar coragem e assumir: fulano não vem. Aconteceu alguma coisa. Vou embora. Cansei. Mas o chá de cadeira do amigo não é a espera que incomoda. Não magoa. A espera que mais dói é aquela que pode durar uma vida. É para coisas e pessoas que te fazem inventar um milhão de desculpas as quais justificam você estar ali já há um tempo, esperando sem perspectiva mas com esperança. Essas pessoas fazem seus olhos brilharem e te fazem acreditar que enfrentar o relógio vale a pena, por você ter medo de perdê-las. Seu maior medo se torna perder. Medo de jogar para não perder. Medo de falar, de levantar. Medo do sim e do não, do amar e não amar, do fazer e do não fazer, do estável e instável. Você não sabe se portar por ficar sem graça diante do mundo enquanto elas não chegam, e diante delas quando elas enfim dão o ar da graça. Mas a decisão tarda, não falha. E então vem o primeiro músculo que se contraí, o impulso para saltar da cadeira. Você dá uma volta por ali e olha no relógio mais uma vez. Espera mais cinco minutos. Mais três. Dois. Chega a contar meio, ou um quarto. E vai embora. Só que ao chegar nesse ponto, se em um último suspiro alguém te pedir para esperar, faça como eu. Lembra que dessa vez você optou por você, e não dá tempo de cumprir os dois compromissos no mesmo horário. Você precisa ir. Então, vai correndo, e no fim do caminho abrace as coisas que não te deem medo. Abrace quem te abraça de volta.

* Foto: Por Malu Lima, em Copenhagen, Dinamarca

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

A vida a Oeste

Imagem

Tem horas que alguns eventos cotidianos cansam. Gosto do meu computador. Gosto de Xis na tela. Eu consigo fechar o que eu quiser a hora que eu quiser. Conseguimos. Estamos todos predispostos a fechar as coisas na cabeça, a esquecê-las e pronto. Quem dera a humanidade tivesse para tudo um botão de liga e desliga. Para algumas pessoas eu chego a pensar que esse botão exista. Tá gostando da pessoa errada, do homem que não é para você? Desliga o sentimento. Não gostou do café? Desliga o amargo da boca. Sexta feira a noite? Desliga a solidão daí. Errou no trabalho e preencheu tudo errado? Não joga fora, desliga o erro. Desliga tudo, esquece tudo. O que vale a pena é deixar passar, deixa que vá, desliga. Tá te incomodando? Off na opinião alheia, para que ela serve mesmo? Não julgo os que desejam ter esse botão. Eu também queria. E aí resolvi pensar no que eu primeiro desligaria caso o tivesse. Se tratando de mim, talvez não precisae dizer que entrei em conflito, já que ao pensar isso estava despertando de um sono pós plantão no meio da tarde. Queria continuar dormindo, mas o sol não dava sossego do lado de fora. Fazia seu trabalho árduo me fazendo arder por trás da janela, e da parede já pelando. Não sei se tinha olheiras, mas tentei encará-lo por qualquer vão e mostrar o quão queria dormir. De nada. Então pensei, Ah se eu pudesse desligar esse sol. A questão é que se eu o desligasse nunca mais veria os pôr de sóis que consigo ver todos os dias da minha casa. Que tantas vezes me fizeram chegar mais cedo e cozinhar um beijinho para assistir no meu camarote de sacada, que já viram meu riso e meu choro. Que me acompanham em um samba de fim de tarde, de uma MPB particular ou de um Rock variado, fazendo o controle remoto de microfone e pulando na sala. Quantas vezes, meu Deus, não olhei pela janela, suando de tanto dançar e imaginando a vergonha que passaria se alguém visse. Mas era só ele. E ele podia. Aquele pôr do sol que já me viu de todos os jeitos. Ele sabe de mim todas as facetas. E, então, desligaria? Se pudesse pausar, pausaria? Seria justo? Os melhores e maiores aprendizados vem sim do erro, podem vir de alguém mais sábio, de uma queda boa, e também podem vir de boa. Mas existe o aprendizado que só chega depois de enfrentarmos uma situação, de atravessar, de passar por. Esse processo de encarar o combo, inclusive o combo sentimental, é que faz a gente aprender um bocado de coisa. Se o tal do botão existisse (e lamento por aqueles que o tem como lei), qual seria a graça da coisa? Tem graça terminar sem sofrer? Tem graça não conhecer o amargo para definir qual seu melhor doce? Magoar os outros para não ser magoado?
Gosto muito de Herculano. Ele era super a favor da ideia de que querer é poder. Mas sempre partindo do pressuposto que o querer de verdade era deveras raro. Então queira: Queria enfrentar, deseje passar por isso, abrace a parte boa e a ruim, abra os olhos para o bonito e para o feio, faça bom uso dos dois lados, sem ter necessidade de estar em cima do muro.
Quando a mim,desde então esqueci meu botão OFF, o qual nunca existiu. Esqueci porque a vida é assim mesmo. A minha mora a Oeste, e o sol bate nela todo fim de tarde. É, bate, me acorda, me faz queimar, me faz feliz, já me fez de tudo. Porque da felicidade faz parte gostar de tudo. Até dos problemas.

* Foto: Por Malu Lima, em São josé do Rio Preto

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

As duas Monalisas

chirico

 

 

Em pleno verão e, portanto, temporada, parecia um desafio enfrentar as filas do Louvre para ver a Gioconda. Já tinha estado ali uma vez e questionava se estava certa em refazer todo o check list da capital francesa. Mas aquilo me parecia necessário. O vento soprava forte nos corredores de ar entre os prédios e pelas pirâmides de vidro. Estávamos eu e um amigo que morava lá por hora, combinamos de ir juntos. Desci na Palais-Royal para encontrá-lo, na missão de olhar em volta, segurar minha saia esvoaçante e minha bolsa. Achei. Ele estava empolgado para vê-la novamente. Eu? Nem tanto. O Louvre tem dessas, você nunca sabe por onde começar, o que ver primeiro e, no fim, nunca vê tudo. Ele sempre te deixa em débito de grandiosidade, é como se tivesse boca e falasse: da próxima vez você pode ver o que faltou. Sim, ele tem certeza que você voltará, e então você volta. Tremendo blasé, mas é assim com todo mundo. E algum tempo depois, o qual não sei estimar, estávamos diante do ímpeto maior de Da Vinci. Uma pessoa normal talvez apreciasse a obra. Eu prestei mais atenção nas pessoas em volta dela, no caos que se formou para tirarem fotos. Eu estava bem longe e não fazia a menor questão de me aproximar. Na verdade, a ideia de ter que bater uma foto ali me dava preguiça só de pensar. Empurrar multidões, cotoveladas, ver as coisas por entre cabeças não era muito minha cara. Mas era tarefa a ser enfrentada em grandes museus para ver grandes obras, sabemos disso também. Então respirei fundo e me dei uma bronca, porque achei estar sendo arrogante demais. Porque raios aquela implicância? Vai lá e olha para ela. Vê o que ela tem de tão especial, além do extremo requinte de Da Vinci para reproduzi-la, claro. Avancei, na esperança de que a Monalisa fizesse meu coração bater mais forte. Eu a encarei, ela me encarou. Nada. Aquele olhar que ela dava me criava paradoxos internos. Simplesmente porque Gioconda é o que falam de mais importante para as crianças nas aulas de arte. Você cresce ouvindo aquilo e talvez seja o quadro de maiores reproduções intertextuais e visuais no mundo. Fazem comércio, fazem metalinguagem, arte, tudo em cima daquela imagem. É o quadro que muitos sonham em ver. E apesar daquele todo e rico, maravilhoso acervo do Louvre, não posso negar que voltava para ver ela mais uma vez. Porém, nada. Meu coração não batia mais forte. Não batia como bate quando vejo os quadros de Chirico. E vamos combinar que Chirico não chega perto do reconhecimento público que tem da Vinci. Entretanto, qualquer quadro dele me desperta um amor contido incontrolável. Meu coração bate e aquilo sempre me comove. Pode ser perfil? Pode. Mas nada me tira da cabeça que grande parte das pessoas não valorizam a Monalisa pela genialidade do pintor. Existiram muitos gênios não reconhecidos e não valorizados. Eles o fazem porque a Monalisa é a Monalisa. Porque ela é a mais famosa. Pela carga que o nome leva há anos. E então, para a Gioconda eu tinha essa opinião já formada, e fiquei assim por muito tempo. Até entrar no Museu do Prado, em Madrid. E lá fui abordada por um guia, oferecendo uma visita guiada por um preço salgado. Deixei passar batido todas as frases, mas prestei atenção quando ele dizia explicar detalhes sobre a Monalisa do andar de baixo. Pronto. Outra. Que outra Monalisa era essa? Não sabia, fiquei curiosa. E descia as escadas já pensando que mais uma vez estava deixando as coisas de lado para ir atrás da Gioconda. Porque, meu Deus? Tinha Goya, tinha Velazquez e Bosch. E o que eu fiz? Fui ver a tal da segunda Monalisa. Porque acredito que ainda me restava uma esperança de vínculo com o quadro. E não deu outra. Essa segunda versão foi feita por algum discípulo de Da Vinci, não se sabe ao certo qual. A mesma mulher foi retratada, na mesma posição, embora mais jovem, fresca, e diria mais simpática. Era, afinal, uma tentativa de aprendizado, com o mestre. Era também um quadro pelo qual as pessoas passavam. Sem fotos. Nada. A única parada ali, observando, era eu. E o que me encantou nessa nova Monalisa era a humildade que ela passava. Não tinha arrogância dessa vez. Não é como se os olhos dela falassem: todos estão me olhando, você é mais um. Não. A outra Monalisa, forçando um pouco a barra, era mais simpática. Era de paz. E ela fez meu coração bater. Desde então eu aprendi que aquilo que a gente idealiza não é necessariamente o que a gente precisa. Não precisamos do mais bonito, do melhor do mundo, do perfeito. Precisamos do que é melhor para gente, do que faz nosso coração bater, do que faz o nosso mundo mais perfeito. O que acrescenta e não o que rouba. O que completa, não o que deixa vazio. Porque ir na do mundo é partir do pressuposto de que você é igual ao mundo. E o mundo ainda tem 7 bilhões de pessoas individualizadas, então ser igual aos outros simplesmente não faz sentido. De ali em diante, tinha por mim que Monalisa para mim seria a segunda. A segunda virou primeira, a minha Monalisa favorita. Posso dizer que já gosto da tal da Gioconda.

Foto: Por Giorgio de Chirico

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Meu Amor

Imagem

“Queria te agradecer por ter sido meu amor mais bonito. Pelo brinde de café, foi como nos conhecemos, pela cara que você me olhou me achando louca quando eu te pedi para brindar comigo. Por todas as conversas até as seis da manhã, pela sua cara de bolacha, seu óculos de leitura e aquele sorriso que você dava com a língua entre dentes. Pelas vezes em que você tentava me proteger e pelo tanto que tentou me convencer a andar de bicicleta. Por todas as músicas do seu tão quase sempre, quase nunca, aposentado e lindo violão. Pelas vezes que você trocou de corda porque eu queria que você tocasse, e por quando segurava meu cotovelo para passar na calçada e me afastar de qualquer poodle surtado. Pelos textos que escreveu e por aqueles que nunca quis ler, já que eu estava no meio. Pela cara de susto que você fez quando eu disse que nunca tinha andado de cavalinho nas costas de ninguém, e aí também por você ter me ensinado e me levantado todas as vezes que eu caía em plena escadaria da Gazeta na Avenida Paulista. Pelas vezes em que você gritava no cinema para me fazer passar vergonha, ou quando corava porque bebia demais, raiva demais, calor demais. Não era preciso coisa alguma para te deixar corado, então talvez eu agradeça aquele seu cor-de-rosa que te faz tão você. Eu agradeço por você ter me puxado aquela vez que eu te dei as costas chorando e desci ladeira abaixo, o beijo na testa, o abraço, o cuidado e todos os beijos depois disso. Por todas as vezes que nos encaramos silenciosamente, ainda assim conversando. Sempre que eu só te entendia e você só me entendia. Vezes em que deitávamos no chão só para pensar em nada e olhar para o céu. Todas as vezes que nós resolvemos sair na chuva só por sair, poque gostávamos de tomar chuva. Ou aquelas em que não queríamos tomar chuva e éramos encarados estranhamente por entre tantos guarda chuvas como duas pessoas atípicas e desligadas que éramos, se olhando e em silêncio depois de lavar roupa suja do lado de fora do metrô. Agradeço ao destino ou ao acaso por todos nossos encontros desencontrados, por não ter atravessado a Paulista aquele dia e por você a ter cruzado. Por aquela banca de jornais estar mesmo do outro lado da rua, pelo seu pálido e olhar triste daquele dia. Pelo nosso almoço, pela nossa briga, pelo meu aniversário, pela nossa sacada, nosso esconderijo, e todas as luas e amanheceres que nós vimos de lá de cima. Por meu livro de Freud, por entender meu gosto por tudo que é colorido, por ter me dado uma caixa de lápis de cor completa. Por ter carregado consigo um urso e um brinco por tanto tempo. E por me corrigir, já que não era um urso, e sim um cachorro com as melhores intenções. Por queimar meu pano de prato e perder o sazon no molho. Por ter feito eu percorrer as ruelas mais bizarras do centro para gravar aquele trecho de música no seu relógio de bolso. Por uma casa de vidro. Pelo morro do seu condomínio. Pelas tantas viagens, tantas horas e por me deixar dormir no seu ombro. Por me fazer sentir saudades e não esquecer nada disso, mesmo depois de tanto tempo. Obrigada por ter sido meu amigo fiel até onde eu te deixei ser. Até onde eu não te magoei. Obrigada por ter mudado e ser quem você é hoje, e por dificilmente eu conseguir ver aquele quem você era. Por me ensinar que não são todas atitudes que saem impune, mesmo quando elas partem de quem gosta mesmo de você, quem parece que seria eterno, e que nunca escaparia dos hiatos de vida constantes. No fim das contas era sempre você, não era? Obrigada por não ser mais. Por me fazer entender que a vida anda e as pessoas mudam. Por despertar sempre meu melhor lado e por me fazer entender que eu também preciso do meu pior. Do meu lado fútil, e, pois é, ele existe e ele é feio. Mas está ali e eu preciso dele. Você também tem o seu. É desse lado que talvez não gostamos um no outro. Mas você também precisa dele. Obrigada por me ensinar, mesmo sem querer, que precisamos de nós mesmos antes que um do outro. Obrigada por me estimular, ainda que sem noção, a me procurar em um túnel que eu não sabia existir dentro de mim. E há muito tempo passei ali sem saber que estava na missão, mas então me dei conta. E também sei que esse túnel é infinito, a busca nunca acaba, mas é prazerosa, completa e leva a resultados plenos. Agradeço, por último, por ensinar que existem amores que nunca acabam. O que muda é o jeito de amar e talvez o tempo de amar. Essa não é uma história de amor com final triste, porque eu tenho certeza que, no final, seja como for, é a gente. Isso por si só já é feliz. Que agora vou agradecer por você estar aí. Por hora. Eu escolho ficar aqui.”

* Foto: Por Malu Lima, em Londres, Inglaterra

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Príncipe Encantado

Pode parecer o maior clichê do mundo, mas eu vejo graça no pôr do sol. Não entendo porque falar onde e quando, e saiba, não por egoísmo. Desejo a todos poderem ter um pôr do sol favorito, como aquele se fez meu. Digo com firmeza que tive o melhor da minha vida. Que o sol fez um show de tirar o folego, e que não encontro palavras que descrevam a timidez e presença de palco dele. Ali, os componentes da cena competiam feio para ser protagonista. O céu, o sol, a água e as cores. Não acredito que seja algo possível de se descrever, e por um único motivo:  descrição alguma faria o devido jus. Mas como tenho dessas de vida, eu fiquei ali na noção da felicidade do momento. E como muita gente já sabe, já deve ter se dado conta, a consciência de se viver um momento feliz é, deveras, rara. Só faz dessa época uma das melhores da sua vida, até que você percebe (e vai perceber), logo em seguida, o pesar dos problemas em equilíbrio com essa tal auto-percepção. A partir daí a vida fica mais feliz. Pois eu estava pensando nisso, estava pensando nele, e em muitas coisas. Tentava decidir o dilema do protagonista, e tinha fortes apostas que tudo se justificaria pelo reflexo do sol na água. Só naquele instante. E então se passavam dois minutos, o céu já estava de outra cor, e o reflexo ficava mais bonito. Era viciantemente inconstante. E quem é que gosta de sentimentos estáveis? Nenhum sentimento surge da segurança plena. Há o quê do mistério e do desafio antes de se chegar a um sentimento pleno. Antes disso são sensações diante do desconhecido. A real é que minha vida se justificava lá. Eu buscava cada detalhe do reflexo com os olhos, como uma criança que quer algodão doce cor-de-rosa. Explicava porque eu acordava todo dia de manhã? Sim. Estou para dizer que explicava até o pão com geléia de frutas vermelhas que eu comeria no dia seguinte. Explicava tudo. Até que em uma varredura daquele tanto de água misturado com o tanto de sol, encontrei ali no meio minha fuga dentro da fuga. Era um passarinho, e ele era desastrado. Com certeza sabia voar, mas era um vôo torto. E diante de uma cena cheia de perfeição, o imperfeito me pareceu a melhor opção. Eu simpatizei com aqueles olhos apertados, tentando acertar uma direção diferente do coro. Não duvidava que encontrasse, que prosperasse, que fosse Rei Passarinho. Pioneiro, aqueles que colonizam uma floresta nova e proliferam a espécie. Talvez ele salvasse a todos da extinção, ou talvez fosse só um passarinho desastrado. Foi então que percebi o mais marcante da situação. Eu estava ali, diante do pôr do sol mais bonito da minha vida. E só conseguia prestar atenção no passarinho descuidado. No lapso do imperfeito. Ele me fascinava mais. Ele me desafiava a entender qual movimento balístico ia salvar a sua queda, a qual seria na água, em cheio. Me fazia temer por ele, por sua ausência,sua morte. Então eu fechei os olhos para tentar entender porque esses sentimentos sempre vinham do inesperado, do improvável, imperfeito e do que escapava por entre os dedos. Aquela dor de perda que vem antes da perda. Pelo inconstante de não saber o dia seguinte. Todos os sentimentos mais intensos devem vir desse medo de perder a pessoa amada. Ou o passarinho amado. E quem é que gosta desses sentimentos estáveis? Quem gosta do príncipe encantado? Do emprego basal? Da carta de amor de onze metros, de café da manhã na cama todos os dias? Quem é que gosta da cortesia a todo minuto? Quem dá o real valor a isso? A verdade é que somos todos mentirosos. Buscamos a perfeição sabendo que ela não nos incita. Não nos excita. Simplesmente não faz sentido. O perfeito não completa imperfeito. Imperfeito completa imperfeito. E quem é que gosta desses sentimentos estáveis?
Tinha para mim o cenário ideal com protagonista mais imperfeito possível. Mas era ele que estava ali. O passarinho. Tropeçando no pedaço de galho na beira do lago. Por aquilo que tinha como ideal, era ele minha companhia. Ele que com os olhos me deu as mãos, me encarou em silêncio e em súplica. E eu, na minha loucura pessoal, pedi baixinho que ele fizesse força. Que mesmo sem mim prosperasse no vôo e ficasse bem. Me despedi sabendo que amores chegam mesmo e se vão. A necessidade de dizer Adeus deve ser reconhecida e aplicável. E quem é que gosta desses amores estáveis? A gente gosta do grito, da briga, do beijo, do puxão, do empurrão, e de quem, depois de tudo isso, ainda abraça e te protege do resto. De tudo que é perfeito. Hoje o perfeito me assusta. E eu encaro o passado agradecendo o príncipe encantado que não apareceu. Na minha memória tenho o passarinho. Ele se faz Rei. E ele reina na cena mais bonita que tenho para mim. Só minha. Quem é que gosta dessas imperfeições tão estáveis? Prefiro o instável pleno. Ele tropeçava no galho, eu o encarava, ele não me deu tanta bola assim. Mas ele ainda estava ali, trabalhando minha vida perfeita nas imperfeições e me salvando de qualquer hipótese de tédio. No fim das contas, assim era sempre melhor.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized