Meu Amor

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“Queria te agradecer por ter sido meu amor mais bonito. Pelo brinde de café, foi como nos conhecemos, pela cara que você me olhou me achando louca quando eu te pedi para brindar comigo. Por todas as conversas até as seis da manhã, pela sua cara de bolacha, seu óculos de leitura e aquele sorriso que você dava com a língua entre dentes. Pelas vezes em que você tentava me proteger e pelo tanto que tentou me convencer a andar de bicicleta. Por todas as músicas do seu tão quase sempre, quase nunca, aposentado e lindo violão. Pelas vezes que você trocou de corda porque eu queria que você tocasse, e por quando segurava meu cotovelo para passar na calçada e me afastar de qualquer poodle surtado. Pelos textos que escreveu e por aqueles que nunca quis ler, já que eu estava no meio. Pela cara de susto que você fez quando eu disse que nunca tinha andado de cavalinho nas costas de ninguém, e aí também por você ter me ensinado e me levantado todas as vezes que eu caía em plena escadaria da Gazeta na Avenida Paulista. Pelas vezes em que você gritava no cinema para me fazer passar vergonha, ou quando corava porque bebia demais, raiva demais, calor demais. Não era preciso coisa alguma para te deixar corado, então talvez eu agradeça aquele seu cor-de-rosa que te faz tão você. Eu agradeço por você ter me puxado aquela vez que eu te dei as costas chorando e desci ladeira abaixo, o beijo na testa, o abraço, o cuidado e todos os beijos depois disso. Por todas as vezes que nos encaramos silenciosamente, ainda assim conversando. Sempre que eu só te entendia e você só me entendia. Vezes em que deitávamos no chão só para pensar em nada e olhar para o céu. Todas as vezes que nós resolvemos sair na chuva só por sair, poque gostávamos de tomar chuva. Ou aquelas em que não queríamos tomar chuva e éramos encarados estranhamente por entre tantos guarda chuvas como duas pessoas atípicas e desligadas que éramos, se olhando e em silêncio depois de lavar roupa suja do lado de fora do metrô. Agradeço ao destino ou ao acaso por todos nossos encontros desencontrados, por não ter atravessado a Paulista aquele dia e por você a ter cruzado. Por aquela banca de jornais estar mesmo do outro lado da rua, pelo seu pálido e olhar triste daquele dia. Pelo nosso almoço, pela nossa briga, pelo meu aniversário, pela nossa sacada, nosso esconderijo, e todas as luas e amanheceres que nós vimos de lá de cima. Por meu livro de Freud, por entender meu gosto por tudo que é colorido, por ter me dado uma caixa de lápis de cor completa. Por ter carregado consigo um urso e um brinco por tanto tempo. E por me corrigir, já que não era um urso, e sim um cachorro com as melhores intenções. Por queimar meu pano de prato e perder o sazon no molho. Por ter feito eu percorrer as ruelas mais bizarras do centro para gravar aquele trecho de música no seu relógio de bolso. Por uma casa de vidro. Pelo morro do seu condomínio. Pelas tantas viagens, tantas horas e por me deixar dormir no seu ombro. Por me fazer sentir saudades e não esquecer nada disso, mesmo depois de tanto tempo. Obrigada por ter sido meu amigo fiel até onde eu te deixei ser. Até onde eu não te magoei. Obrigada por ter mudado e ser quem você é hoje, e por dificilmente eu conseguir ver aquele quem você era. Por me ensinar que não são todas atitudes que saem impune, mesmo quando elas partem de quem gosta mesmo de você, quem parece que seria eterno, e que nunca escaparia dos hiatos de vida constantes. No fim das contas era sempre você, não era? Obrigada por não ser mais. Por me fazer entender que a vida anda e as pessoas mudam. Por despertar sempre meu melhor lado e por me fazer entender que eu também preciso do meu pior. Do meu lado fútil, e, pois é, ele existe e ele é feio. Mas está ali e eu preciso dele. Você também tem o seu. É desse lado que talvez não gostamos um no outro. Mas você também precisa dele. Obrigada por me ensinar, mesmo sem querer, que precisamos de nós mesmos antes que um do outro. Obrigada por me estimular, ainda que sem noção, a me procurar em um túnel que eu não sabia existir dentro de mim. E há muito tempo passei ali sem saber que estava na missão, mas então me dei conta. E também sei que esse túnel é infinito, a busca nunca acaba, mas é prazerosa, completa e leva a resultados plenos. Agradeço, por último, por ensinar que existem amores que nunca acabam. O que muda é o jeito de amar e talvez o tempo de amar. Essa não é uma história de amor com final triste, porque eu tenho certeza que, no final, seja como for, é a gente. Isso por si só já é feliz. Que agora vou agradecer por você estar aí. Por hora. Eu escolho ficar aqui.”

* Foto: Por Malu Lima, em Londres, Inglaterra

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