Príncipe Encantado

Pode parecer o maior clichê do mundo, mas eu vejo graça no pôr do sol. Não entendo porque falar onde e quando, e saiba, não por egoísmo. Desejo a todos poderem ter um pôr do sol favorito, como aquele se fez meu. Digo com firmeza que tive o melhor da minha vida. Que o sol fez um show de tirar o folego, e que não encontro palavras que descrevam a timidez e presença de palco dele. Ali, os componentes da cena competiam feio para ser protagonista. O céu, o sol, a água e as cores. Não acredito que seja algo possível de se descrever, e por um único motivo:  descrição alguma faria o devido jus. Mas como tenho dessas de vida, eu fiquei ali na noção da felicidade do momento. E como muita gente já sabe, já deve ter se dado conta, a consciência de se viver um momento feliz é, deveras, rara. Só faz dessa época uma das melhores da sua vida, até que você percebe (e vai perceber), logo em seguida, o pesar dos problemas em equilíbrio com essa tal auto-percepção. A partir daí a vida fica mais feliz. Pois eu estava pensando nisso, estava pensando nele, e em muitas coisas. Tentava decidir o dilema do protagonista, e tinha fortes apostas que tudo se justificaria pelo reflexo do sol na água. Só naquele instante. E então se passavam dois minutos, o céu já estava de outra cor, e o reflexo ficava mais bonito. Era viciantemente inconstante. E quem é que gosta de sentimentos estáveis? Nenhum sentimento surge da segurança plena. Há o quê do mistério e do desafio antes de se chegar a um sentimento pleno. Antes disso são sensações diante do desconhecido. A real é que minha vida se justificava lá. Eu buscava cada detalhe do reflexo com os olhos, como uma criança que quer algodão doce cor-de-rosa. Explicava porque eu acordava todo dia de manhã? Sim. Estou para dizer que explicava até o pão com geléia de frutas vermelhas que eu comeria no dia seguinte. Explicava tudo. Até que em uma varredura daquele tanto de água misturado com o tanto de sol, encontrei ali no meio minha fuga dentro da fuga. Era um passarinho, e ele era desastrado. Com certeza sabia voar, mas era um vôo torto. E diante de uma cena cheia de perfeição, o imperfeito me pareceu a melhor opção. Eu simpatizei com aqueles olhos apertados, tentando acertar uma direção diferente do coro. Não duvidava que encontrasse, que prosperasse, que fosse Rei Passarinho. Pioneiro, aqueles que colonizam uma floresta nova e proliferam a espécie. Talvez ele salvasse a todos da extinção, ou talvez fosse só um passarinho desastrado. Foi então que percebi o mais marcante da situação. Eu estava ali, diante do pôr do sol mais bonito da minha vida. E só conseguia prestar atenção no passarinho descuidado. No lapso do imperfeito. Ele me fascinava mais. Ele me desafiava a entender qual movimento balístico ia salvar a sua queda, a qual seria na água, em cheio. Me fazia temer por ele, por sua ausência,sua morte. Então eu fechei os olhos para tentar entender porque esses sentimentos sempre vinham do inesperado, do improvável, imperfeito e do que escapava por entre os dedos. Aquela dor de perda que vem antes da perda. Pelo inconstante de não saber o dia seguinte. Todos os sentimentos mais intensos devem vir desse medo de perder a pessoa amada. Ou o passarinho amado. E quem é que gosta desses sentimentos estáveis? Quem gosta do príncipe encantado? Do emprego basal? Da carta de amor de onze metros, de café da manhã na cama todos os dias? Quem é que gosta da cortesia a todo minuto? Quem dá o real valor a isso? A verdade é que somos todos mentirosos. Buscamos a perfeição sabendo que ela não nos incita. Não nos excita. Simplesmente não faz sentido. O perfeito não completa imperfeito. Imperfeito completa imperfeito. E quem é que gosta desses sentimentos estáveis?
Tinha para mim o cenário ideal com protagonista mais imperfeito possível. Mas era ele que estava ali. O passarinho. Tropeçando no pedaço de galho na beira do lago. Por aquilo que tinha como ideal, era ele minha companhia. Ele que com os olhos me deu as mãos, me encarou em silêncio e em súplica. E eu, na minha loucura pessoal, pedi baixinho que ele fizesse força. Que mesmo sem mim prosperasse no vôo e ficasse bem. Me despedi sabendo que amores chegam mesmo e se vão. A necessidade de dizer Adeus deve ser reconhecida e aplicável. E quem é que gosta desses amores estáveis? A gente gosta do grito, da briga, do beijo, do puxão, do empurrão, e de quem, depois de tudo isso, ainda abraça e te protege do resto. De tudo que é perfeito. Hoje o perfeito me assusta. E eu encaro o passado agradecendo o príncipe encantado que não apareceu. Na minha memória tenho o passarinho. Ele se faz Rei. E ele reina na cena mais bonita que tenho para mim. Só minha. Quem é que gosta dessas imperfeições tão estáveis? Prefiro o instável pleno. Ele tropeçava no galho, eu o encarava, ele não me deu tanta bola assim. Mas ele ainda estava ali, trabalhando minha vida perfeita nas imperfeições e me salvando de qualquer hipótese de tédio. No fim das contas, assim era sempre melhor.

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