As duas Monalisas

chirico

 

 

Em pleno verão e, portanto, temporada, parecia um desafio enfrentar as filas do Louvre para ver a Gioconda. Já tinha estado ali uma vez e questionava se estava certa em refazer todo o check list da capital francesa. Mas aquilo me parecia necessário. O vento soprava forte nos corredores de ar entre os prédios e pelas pirâmides de vidro. Estávamos eu e um amigo que morava lá por hora, combinamos de ir juntos. Desci na Palais-Royal para encontrá-lo, na missão de olhar em volta, segurar minha saia esvoaçante e minha bolsa. Achei. Ele estava empolgado para vê-la novamente. Eu? Nem tanto. O Louvre tem dessas, você nunca sabe por onde começar, o que ver primeiro e, no fim, nunca vê tudo. Ele sempre te deixa em débito de grandiosidade, é como se tivesse boca e falasse: da próxima vez você pode ver o que faltou. Sim, ele tem certeza que você voltará, e então você volta. Tremendo blasé, mas é assim com todo mundo. E algum tempo depois, o qual não sei estimar, estávamos diante do ímpeto maior de Da Vinci. Uma pessoa normal talvez apreciasse a obra. Eu prestei mais atenção nas pessoas em volta dela, no caos que se formou para tirarem fotos. Eu estava bem longe e não fazia a menor questão de me aproximar. Na verdade, a ideia de ter que bater uma foto ali me dava preguiça só de pensar. Empurrar multidões, cotoveladas, ver as coisas por entre cabeças não era muito minha cara. Mas era tarefa a ser enfrentada em grandes museus para ver grandes obras, sabemos disso também. Então respirei fundo e me dei uma bronca, porque achei estar sendo arrogante demais. Porque raios aquela implicância? Vai lá e olha para ela. Vê o que ela tem de tão especial, além do extremo requinte de Da Vinci para reproduzi-la, claro. Avancei, na esperança de que a Monalisa fizesse meu coração bater mais forte. Eu a encarei, ela me encarou. Nada. Aquele olhar que ela dava me criava paradoxos internos. Simplesmente porque Gioconda é o que falam de mais importante para as crianças nas aulas de arte. Você cresce ouvindo aquilo e talvez seja o quadro de maiores reproduções intertextuais e visuais no mundo. Fazem comércio, fazem metalinguagem, arte, tudo em cima daquela imagem. É o quadro que muitos sonham em ver. E apesar daquele todo e rico, maravilhoso acervo do Louvre, não posso negar que voltava para ver ela mais uma vez. Porém, nada. Meu coração não batia mais forte. Não batia como bate quando vejo os quadros de Chirico. E vamos combinar que Chirico não chega perto do reconhecimento público que tem da Vinci. Entretanto, qualquer quadro dele me desperta um amor contido incontrolável. Meu coração bate e aquilo sempre me comove. Pode ser perfil? Pode. Mas nada me tira da cabeça que grande parte das pessoas não valorizam a Monalisa pela genialidade do pintor. Existiram muitos gênios não reconhecidos e não valorizados. Eles o fazem porque a Monalisa é a Monalisa. Porque ela é a mais famosa. Pela carga que o nome leva há anos. E então, para a Gioconda eu tinha essa opinião já formada, e fiquei assim por muito tempo. Até entrar no Museu do Prado, em Madrid. E lá fui abordada por um guia, oferecendo uma visita guiada por um preço salgado. Deixei passar batido todas as frases, mas prestei atenção quando ele dizia explicar detalhes sobre a Monalisa do andar de baixo. Pronto. Outra. Que outra Monalisa era essa? Não sabia, fiquei curiosa. E descia as escadas já pensando que mais uma vez estava deixando as coisas de lado para ir atrás da Gioconda. Porque, meu Deus? Tinha Goya, tinha Velazquez e Bosch. E o que eu fiz? Fui ver a tal da segunda Monalisa. Porque acredito que ainda me restava uma esperança de vínculo com o quadro. E não deu outra. Essa segunda versão foi feita por algum discípulo de Da Vinci, não se sabe ao certo qual. A mesma mulher foi retratada, na mesma posição, embora mais jovem, fresca, e diria mais simpática. Era, afinal, uma tentativa de aprendizado, com o mestre. Era também um quadro pelo qual as pessoas passavam. Sem fotos. Nada. A única parada ali, observando, era eu. E o que me encantou nessa nova Monalisa era a humildade que ela passava. Não tinha arrogância dessa vez. Não é como se os olhos dela falassem: todos estão me olhando, você é mais um. Não. A outra Monalisa, forçando um pouco a barra, era mais simpática. Era de paz. E ela fez meu coração bater. Desde então eu aprendi que aquilo que a gente idealiza não é necessariamente o que a gente precisa. Não precisamos do mais bonito, do melhor do mundo, do perfeito. Precisamos do que é melhor para gente, do que faz nosso coração bater, do que faz o nosso mundo mais perfeito. O que acrescenta e não o que rouba. O que completa, não o que deixa vazio. Porque ir na do mundo é partir do pressuposto de que você é igual ao mundo. E o mundo ainda tem 7 bilhões de pessoas individualizadas, então ser igual aos outros simplesmente não faz sentido. De ali em diante, tinha por mim que Monalisa para mim seria a segunda. A segunda virou primeira, a minha Monalisa favorita. Posso dizer que já gosto da tal da Gioconda.

Foto: Por Giorgio de Chirico

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