Quando esperar

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Esses dias alguém me pediu para esperar. Foi bem assim, “espera um pouco”. Eu disse que estava indo embora, e quando foi feito o pedido, resolvi olhar para trás e relevar. Quando era criança minha mãe tinha mania de me deixar esperando no carro enquanto passava visita no hospital. Eu odiava. Só faltava acabar com a bateria do carro enquanto aguardava, ansiosa, ela chegar em um sábado, para me levar na banca comprar figurinha e picolé, trocando as estações do rádio. Teve um dia em especial que a demora foi grande, e eu, naqueles pensamentos de criança, coloquei na minha cabeça que minha mãe tinha sumido. Que algo tinha acontecido. Primeiro comecei a chorar e aumentei o volume da música. Depois entrei em desespero e me perguntava porque ela tinha feito aquilo comigo. Porque tinha me deixado lá, daquele jeito? Ela faria isso? Eu torcia para ela aparecer, embora àquela altura já pensava em planos mirabolantes de como ligaria para o meu pai avisando o ocorrido. Então tive a ideia brilhante. Resolvi que seria mais decente disparar a buzina do carro. Caso minha mãe estivesse em algum lugar lá dentro, certamente saberia que era eu. Não tive dúvidas. Abri o berreiro e dei-lhe a mão na buzina. Apareceu, depois disso, uma enfermeira afobada tentando me tranquilizar. A questão é que quando eu vi minha mãe cruzando a porta do hospital, é como se tudo fizesse sentido. O abraço dela já poupava as explicações e no momento seguinte eis o que eu estava fazendo: sorrindo, cantando e tomando sorvete. Sem mágoas, sem nada. Me marcou do tanto a lembrar disso até hoje, e foi suficiente. O ponto a que quero chegar é que na vida esperamos por muitas coisas e muitas pessoas. Quantas vezes não doeu de esperar sentado os pais? Um ou outro amigo desligado e atrasado? A comida chegar no restaurante? O café, porque a cafeteira quebrou e você precisava? E quantas coisas inesperadas e boas aconteceram enquanto se esperava? Acontece que precisamos enxergar a deixa de esperar e a deixa de partir. Eu, com meus três anos de idade, não tinha idade, perna ou autonomia para partir. Nem partiria. A decisão é deixar ou não deixar. Querer ou não querer. Merecer ou não. Minha mãe já me tinha desde quando eu fui concebida. Então, quando levamos o chá de cadeira, sempre esperamos mais aqueles cinco minutos. Os cinco viram dez, que viram uma hora. Dali um pouco chega o momento de tomar coragem e assumir: fulano não vem. Aconteceu alguma coisa. Vou embora. Cansei. Mas o chá de cadeira do amigo não é a espera que incomoda. Não magoa. A espera que mais dói é aquela que pode durar uma vida. É para coisas e pessoas que te fazem inventar um milhão de desculpas as quais justificam você estar ali já há um tempo, esperando sem perspectiva mas com esperança. Essas pessoas fazem seus olhos brilharem e te fazem acreditar que enfrentar o relógio vale a pena, por você ter medo de perdê-las. Seu maior medo se torna perder. Medo de jogar para não perder. Medo de falar, de levantar. Medo do sim e do não, do amar e não amar, do fazer e do não fazer, do estável e instável. Você não sabe se portar por ficar sem graça diante do mundo enquanto elas não chegam, e diante delas quando elas enfim dão o ar da graça. Mas a decisão tarda, não falha. E então vem o primeiro músculo que se contraí, o impulso para saltar da cadeira. Você dá uma volta por ali e olha no relógio mais uma vez. Espera mais cinco minutos. Mais três. Dois. Chega a contar meio, ou um quarto. E vai embora. Só que ao chegar nesse ponto, se em um último suspiro alguém te pedir para esperar, faça como eu. Lembra que dessa vez você optou por você, e não dá tempo de cumprir os dois compromissos no mesmo horário. Você precisa ir. Então, vai correndo, e no fim do caminho abrace as coisas que não te deem medo. Abrace quem te abraça de volta.

* Foto: Por Malu Lima, em Copenhagen, Dinamarca

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