Arquivo do mês: maio 2014

Cachos de vida

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Amo compartilhar receitas light com minha amiga e dupla de trabalho. Dia desses ela me apareceu com a buemba da semana: compre uvas sem sementes. Era o mais novo vício da vez. Eu, que nunca fui lá muito chegada na uva, me vi comendo cachos e cachos incansávelmente, com um livro para estudar do lado, a TV ligada e a mente longe. Desde que aprendi que as coisas não precisam ser difíceis, opto por opções mais fáceis. Não caminhos mais fáceis e sim uma mentalidade fácil de lidar. Está difícil? Ok, vai passar. Hoje o dia foi triste? Amanhã vai melhorar. A vida está sofrida? Não vai ser assim para sempre. A coisa apertou? Acalma, seu objetivo está logo adiante. Não complica. Não pense difícil. Facilita. Quer falar? Só fala. Quer pensar? Pense. Vão falar? E daí? Alguém deles vai morrer com você?

A gente tem mania de deixar a felicidade difícil. Até ser feliz é difícil. E deveras, ela fica difícil quando a gente pensa que não vai durar para sempre. Mas a gente é feliz quando gosta até dos problemas. Quando aprende que o drama de todos os dias faz parte. Que o choro vai estar tão presente quanto o sorriso, e muitas vezes eles vêem juntos. Então, me escuta. Não tenha medo de sentir ou de perder. Vai acabar, eu sei que vai. Mas depois vai começar tudo de novo, e de novo. Só respira fundo. Que eu vou comer meus cachos de uvas sem sementes, super fáceis de serem devorados, sem reclamar do vício. E sem chorar se acabar, porque quando eu quiser mais vou atravessar a rua e comprar no mercado. Quando você quiser mais de vida ela sempre vai estar ali em frente também, te esperando do outro lado da calçada, com quantos cachos de uva você quiser. Então vá de encontro a ela com os olhos apertados de saudades e um abraço bem grande. Segura e não deixa ela escapar, porque essa vida, meu caro, é só sua.

* Foto: Por Malu Lima, em São josé do Rio Preto

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Contos de chocolate – capítulo I

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Aquele vôo era interminável. Já não queria saber de quinta avenida ou da muralha da China. Tomou uma garrafa toda de vinho na classe executiva. Saiu praticamente correndo do desembarque, com a pequena mala de mão. Afrouxou a gravata que já não lhe servia para nada, e mais queria tirar as calças e dormir onde estivesse. Mas sabia que era fuga. Seu coração batia e sua mão suava. A cabeça ecoava a discussão do dia anterior. Em passos sentimentais brandos e mancos, passou em frente à vitrine da chocolateria. Passou, se foi. Parou segurando a mala preta. Voltou. Escolheu: trufa de chocolate belga e pistache. Era o favorito. Coloque um laço cor-de-rosa, pediu. Sim, senhor, respondeu a atendente. Na vermelhidão de seu suor, enfrentou uma hora e dezessete minutos de trânsito, uma conversa pseudo interessante com o taxista, músicas intermináveis naquele rádio e foi quando chegou. Nada. Ninguém no apartamento. Cabisbaixo, atravessou a avenida de copacabana. Ela estava lá, do outro lado da rua. Logo ali. Não fez esforço para acreditar, atravessou sem olhar direito para os lados, e tudo que conseguiu fazer foi colocar as mãos nos bolsos quentes da calça. Em uma das mãos o chocolate. Deu-lhe a trufa. Sorriu. Mas está derretida. Respirou fundo e tirou a outra mão. Deu-lhe o anel. Não derreteu com o clima, com a discussão ou com tempo que ela tanto esperou. É de pistache? Perguntou tímida. De tanto rubor, levou para casa um chocolate para colocar na geladeira e um sim para guardar no coração.

* Foto: Por Malu Lima, em São josé do Rio Preto

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Faça saudade, não ausência

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Dia desses estava amoada. Não daquele jeito que as pessoas percebem, mas estava. Então resolvi sair com um amigo para tomar um café e ele, como bom perceptivo que é, tirou de mim os ovos de ouro. Disse a ele que estava com saudade. Ele perguntou, saudade? Respondi que sim, saudade. Foi então que me surpreendi com a resposta que veio em seguida. Daquelas que te atingem e te fazem lembrar dela para o resto da vida, sabe? Ele disse que eu não sabia diferenciar saudade de ausência e, se ele bem me conhecia, eu estava sentindo ausência. Não poderia ser saudade, afinal. Touche. Parei para pensar no assunto e em quantas vezes me senti saudosista de alguém, algo, época ou partes de vida. Saudade ou ausência? Ausência é aquele buraco causado por uma falta de materialidade. Alguma coisa costumava ocupar aquele espaço, é como um móvel que falta na casa. Se te falta uma mesa de jantar, vamos lá, compre outra. Por mais que te agradasse a primeira, ela não é insubstituível. E a saudade? Bem, sobre a saudade o buraco é mais embaixo, e talvez bem mais fundo. Não está na cabeça. É um buraco aberto no coração, porque faltou alguém. Mas não um mero buraco, porque lá dentro tem sentimento. Você sente sem alvo, porque o alvo não está mais ali para receber. Isso me fez pensar que a saudade é também um sentimento nobre, porque vem do prazer de se doar, sem receber. Você não recebe de volta, o que quer que te falte simplesmente não está ali para devolver a altura. Por algum motivo, semblante ou atitude, roubou-se uma liberdade mútua, o que pode ou não doer, a depender do mecanismo de roubo. Pode surtir de um lado ou dos dois, pode ferir ou pode ser nostálgico. Pode ser feliz quando bem lembrado, pode derramar as lágrimas mais ambíguas e é de tamanha complexidade que já não sei mais como pude confundir coisas tão discrepantes. Sinto saudades de muitas coisas na minha vida. Sinto falta de muitas pessoas e a ausência de outras. Olhe para o seus pés e olhe o caminho que eles desenham. Viva e caia de cabeça. Mergulhe fundo e fale o que tenha que falar. Conviva com pessoas que te fazem sentir livre para ser quem você é. Olhe com olhos bons, procure o melhor lado de tudo. Fique feliz pelo cheiro de chuva ou pela sombra do sol, pelo Doce e pelo salgado, pela água e pelo vinho. Fique feliz por quem você é e seja o melhor e mais intenso que consiga ser. Viva o quão mais consiga viver. Para Que no fim disso tudo que às vezes a gente nem sabe direito o que é, você olhe para os seus pés e pense que eles fizeram saudade. E isso, por si só, já omite todo e qualquer arrependimento. Te traz lembranças plenas e de paz. Trace infinito com seus pés e um caminho de amor. Não seja a mesa de jantar, seja vida. Não seja ausência, seja saudade.

* Foto: Por Malu Lima, em Rio de Janeiro

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Amor com canela

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Às vezes eu acho que sou tida como louca no supermercado. Gosto de ir lá a noite, como se fosse um encontro. Muitas vezes de madrugada, quando perco o sono. É praticamente uma terapia ficar olhando os produtos novos e eu, invariavelmente, caio nas estravagâncias da publicidade. Deve ser por isso que nessa minha última ida a moça do caixa me olhou estranho. Foi então que eu reparei que estava levando uns 15 potes diferentes de iogurte. Grego, morango, desnatado, com lactose, sem lactose, nas mais variadas combinações de frutas. Bom, não preciso nem dizer que desde então minha missão diária é consumir a maior quantidade de iogurte possível, só hoje já foram dois. Coincidentemente, de manhã era maçã e canela. Pensei comigo, vá lá, esse eu vou comprar de novo. Deveras muito bom. O da noite era banana com canela. Me peguei pensando: a danada da canela não tem tampa da panela, coitada! Fica bem com tanta coisa. Aí veio o remorso e pensei de novo. Nunca acreditei na tampa da panela e na metade da laranja, porque haveria de julgar a pobre da canela? Explico. Que amor você quer para você? O que dá paz. O que acolhe e abraça. Que não julga e até concorda, que discorda com delicadeza ou mesmo brigando faz as pazes depois. Um amor que ri de você quando você dorme no meio do filme, que te ajuda a construir a confiança que nem você sabe que faltava, que cuida e em quem não é dificil confiar. Algum que aprende do que você gosta só porque quer viver do seu lado, que dorme ali porque o sofá com você é mais gostoso, que se abre, é humano, é sensível e é sincero. Que grita, que chora, que briga, que pede desculpa. Que gosta de te levar para jantar no seu lugar favorito, o qual ele sabe bem onde é, mesmo que esse lugar seja em casa. Que fica do seu lado jogando papo fora num domingo e olhando para a TV, a qual provavelmente só passa Rodrigo Faro ou o Faustão. E você nem se sente culpado por possivelmente o relacionamento estar entrando em uma rotina, porque desse jeito a rotina é boa. Ele joga pipoca em você, mas é brincadeira. Você passa sorvete no rosto dele e ele se irrita, porque estava gelado. É um mimimi insuportável para quem estáde fora, mas que na sua história faz todo sentido. Faz todo sentido brincar de Star wars com o travesseiro ou o que for. Porque esse amor é o melhor amigo e o melhor amante. Mas é seu. Qual o melhor amor para você? O seu. Aquele que faz ser fácil. Que está ali. Não é para você estar sozinho. Você não precisa seguir sozinho. E não é para ser difícil. É para ser fácil. É para ser leve. Igual banana e canela. Ou maçã e canela. Não existe só um encaixe possível. E a canela não estava errada. Existe apenas o encaixe que vai te deixar mais feliz e que te deixe viver melhor. Por sinal, prefiro o iogurte de maçã com canela, e amor para adoçar, por favor.

* Foto: Por Malu Lima, em São josé do Rio Preto

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O que você não trouxe

ImagemHoje eu saí cedo e cheguei tarde. Não tinha água em casa. Não tem água em casa. Era Dezembro e o clima era ameno em Lisboa, apesar do Dezembro. É maio e o clima está ameno onde estou, apesar de você. No Dezembro de Lisboa me chamou a atenção a Catedral da Sé, que estava vazia. O movimento era mínimo e um fotógrafo registrava figuras de pedintes. Um velho passou por mim determinado. Com certeza tomara ali, entre uma prece e outra, grande decisão. E eu? Eu entrei me escondendo na sombra e sem saber direito o porquê. É como se ali todos devessem se esconder na sombra, ou da sombra. Digo isso porque logo a frente uma música dócil tocava. Era som de teclas e era um piano. Era também de um toque doce e delicado. Uma pianista tocava de olhos fechados, nenhuma música em especial. Mas estava ali, na sombra, se fazendo luz. Estava perpetuando um silêncio sagrado com música. Você podia escolher entre ela estar ali ou não, vê-la ou não, escutá-la ou não. Sim, ouvia, mas a luz que emanava de sua arte dava lugar aos nossos pensamentos mais profundos. Devia ser por isso que aquele velhinho saiu de lá tão decidido. Fitando a cena e ouvindo a música, dei lugar ao meu coração e me senti tomada de paz. Fiz uma oração. Saí emocionada, embora menos decidida que o homem. E hoje? Bem, hoje estou aqui. O clima está ameno. As músicas são inespecíficas. A paz reina, já que você está, mas não está. Hoje estou na sombra, mais na luz baixa. Em casa não tenho água e dessa vez não tenho você para me trazer uma garrafa de água. Ainda da pouca luz que resta fiz certas constatações e descobri que nem sempre da penumbra tiramos decisões, porque certas decisões a vida toma pela gente. Mas podemos tirar a paz necessária para enxergar nossa deixa de partir para outra e para decisões ao nosso alcance. Se não tivesse tão cansada e saísse andando, meu passo seria decidido, como o daquele dia em Portugal. Porque você não está aqui e essa decisão não foi minha nem sua. Nem da água que acabou. Foi da vida que deixou a garrafa vazia. De resto, ela pode me encher de saudade, mas  sobre a água, eu já posso ir saindo para comprar.

* Foto: Por Malu Lima, em São josé do Rio Preto

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Quando é hora de deixar

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Dia desses estava brincando com meus priminhos. Eles me puxavam pela mão e gritavam “cabeça!”. Queriam brincar de quebra-cabeça, e eu, toda maternal, não me aguentava em perguntar desconfiada: Será que essa peça não encaixa aqui? E essa outra? Claro. Eu dava a dica, eles encaixavam, missão dada, missão cumprida. Passei anos ouvindo as pessoas falarem da boca para fora que atitudes valem mais do que palavras. Eu falo da boca para fora porque nós amamos relevar a falta de atitude alheia. Nós amamos tomar a atitude pelos outros, perdoando e perdoando. E eu mesma reproduzia essa frase. Palavras não valem como atitude. E não valem mesmo. Mas então percebi que repetir essa frase também eram meras palavras sem atitudes, porque quem fala isso espera uma atitude, uma resposta, um gesto ou mesmo uma palavra ou reação diferente. Espera do destino. Aí é que tá… Do que adianta esperar do destino se quem se move para a bifurcação são nossos pés? Quem escolhem um dos dois caminhos é a nossa cabeça? E quem dita o que realmente queremos seguir é o coração? Qual a responsabilidade do destino nessa? Nenhuma. Não adianta só chorar pelo problema sem querer resolver e, pior, sem fazer nada para resolver. Não adianta julgar sem ajudar a mudar. Nem soltar palavras que não ditas causariam menos alvoroço do que, quando ditas, ficam soltas no ar, sem atitudes correspondentes. É hora de olhar para frente, porque é para frente que se vai. É hora de nunca mais falar que atitudes valem mais do que palavras, porque as vezes a atitude que esperamos são palavras. Só que diferentes das que sempre ouvimos. É hora de não esperar que o outro mude alguma coisa na sua vida, porque o que vai mudar é você. As atitudes que você espera vem das chances que você cria e das escolhas que você faz. E se elas não correspondem às suas expectativas é hora de mudar de esperança. Mudar de ares, trocar as pessoas. Não digo abandonar, e sim vê-las de um ponto novo. As peças de um quebra cabeça estão sempre lá, falta descobrir onde cada uma encaixa. Onde encaixa amizade, onde encaixa amor e onde encaixa as duas coisas. Uma peça não excluí a outra, elas só completam um enigma que esclarece certas verdades internas. Bom, o que eu levei de tudo isso? Que dar as respostas para os pequenos estava errado. Eu não estava ensinando eles aprenderem. Me surpreendi quando parei de dar palpites e em três minutos o quebra-cabeça estava completo. Me orgulhei silenciosamente por deixar que eles tomassem a atitude. Quando a gente não espera, mesmo agindo com o silêncio, as coisas nos surpreendem. As pessoas agem. E nós somos mais felizes. Então deixa a falta de atitude passar, porque ela passa sozinha. Deixa o que não vale a pena sair da vida, porque se faz a retirada automática. Deixa o que é nosso nos procurar, porque quem procura o que é seu acha. Volte-se a procurar suas belas partes de vida, que elas perpetuarão para sempre plenas e intensas. É o que faz a vida valer a pena.

* Foto: Por Malu Lima, em Zurique, Suíça

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