Quem não arrisca

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Ele não sabia quem era ela, que estava ali sentada. Ela não sabia quem era ele que a encarava e ela encarava de volta. Ele não sabia que ela ouvia The Carpenters no fone de ouvido. Ela não sabia que ele achava os Rolling Stones maneiros, apesar de falar para todo mundo que depois daquelas camisetinhas o negócio tinha virado um clichezão. Ele não sabia que desde criança ela queria casar com o Freud. Ela não sabia que ele nunca quis casar. Ele achava que ela fazia o tipo pseudo-intelectual, e ela não sabia que sem perceber ele cantarolava Across de universe no caminho de ida e vinda do trabalho. Aliás, nem ele sabia disso. Ele não sabia que ela tinha medo de elevador e subia as escadas, e ela não sabia que ele nunca aprendeu a andar de bicicleta. Ele não tinha ideia que ela tinha um cachorro chamado Valentino, e ela estava achando que ele era um nóinha qualquer. Ele não sabia que ela fumava, até ver ela tragar uma ou duas vezes. Ela não sabia que ele se dizia geração coca cola, tinha cabelo comprido na adolescência e ainda sonhava em ganhar a vida com seu violão. Ele não sabia que o bar favorito dela era em Camden town, e ela não sabia que ele já fez uns bicos de garçom em Shoredicht quando morava em Londres, em seu intercâmbio. Aliás, ela também não sabia que ele passou um ano estudando inglês e mesmo assim reprovou a proficiência duas vezes, e nem ele sabia que ela falava inglês, alemão, mandarim e vinha aprendendo sueco. Ela achou que ele tinha TOC, toda vez que ele desviava o olhar, e ele achou que ela podia ser qualquer mimada da high society. Ele não sabia que ela o achou estranho, mas que gostou dele. E ela não sabia que desde o início ele gostou dela. Assim, de longe. Um não sabia nada sobre o outro. Mas se gostaram. Agora me diz, porque a vida não fez nada sobre isso? Quinze minutos depois, cada um foi para um lado. Afinal, a gente nunca sabe. É, se nós não sabemos, porque raios a vida saberia? No final, ninguém sabe de nada. E num ímpeto todo mundo segue. 

 

* Foto por Malu Lima, em Verona, Itália

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1 comentário

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Uma resposta para “Quem não arrisca

  1. gian

    E essa conclusao no final, espetacular

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