O que não mata, engorda

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Acho que sou constantemente testada pela vida. Todos somos. Me coloque um cardápio na frente e pronto, tenho um AVC imediato. Posso passar horas lendo o cardápio sem decidir. E como eu decido, afinal? Me obrigando a escolher. E mais, me forço a escolher rápido, não só porque em geral tem alguém na frente esperando. A gente precisa escolher, sempre. E quando é para dividir o prato, então? Invariavelmente a educação nos obriga a colocar a decisão nas costas do outro, que joga a peteca de volta para nós, naquela coisa de ninguém querer ser responsável pelo desastre, no caso dele acontecer. Vai que fulano não gosta da pimenta daquele prato ou do bife acebolado do outro. Antes ele escolha, eu engulo. De contramão já deixo claro, assim como você fingiria bem se não gostasse da escolha do fulano, ele também sabe fingir. Quero chegar no ponto de que várias vezes ao dia somos colocados nessas encruzilhadas de não conseguir tomar decisões. Travamos e abrimos mão das nossas escolhas. Vamos direto na opinião amiga ou alheia, com medo de errar. Agora eu te pergunto, se a opinião da esquina errar, quem vai sofrer com isso? Quem vai comer a cebola crua do bife que o outro escolheu? Pois devo te falar que sim, você vai perder, uma ou várias vezes na vida. Vai sofrer, vai cair, e com certeza vai se decepcionar. Vão te trair, vão mentir para você. Você vai sim repetir o mesmo erro, vai insistir na pessoa errada, vai amar pessoas erradas que no fim não vão se tornar pessoas certas. Vai desejar que certos milagres aconteçam, mas eles nunca vão acontecer. Vai imaginar um ponto edílico no qual você provavelmente nunca vai chegar. Mas eu te garanto que quando tudo isso se concretizar você vai se sentir melhor se a decisão foi sua. Ouça a opinião, faça com suas mãos. Escolha. Erre. Deixe o erro ecoar bem fundo, até você dar risada dele. Você vai rir, eu sei disso. Vai crescer, também, deveras, se cresce com bifurcações. Vá por uma, ande por outra, conheça as duas, e viva. Erre, mas viva. Aprende. Vá de mãos dadas, vá sozinho, mas nunca deixe que decidam sua vida por você. Parta seu coração sozinho, com uma escolha sua. Vá de encontro ao espelho, bate a cabeça e quebra. Deixe quebrar. Escolha o prato errado, não tem problema. A gente nunca tem a garantia de que as pessoas continuam ali para nos ajudar a juntar os cacos e colar, um por um. Então, caso quebre, ajoelhe, junte, cole. Viva. Para então você ganhar, achar a pessoa certa, tornar o que achava errado certo, ter um milagre na sua vida e chegar em um lugar diferente do que imaginou, e que te fez mais feliz desse jeito. Você vai estar grande para escolher aquela empada de camarão terrível no boteco ali da frente, olhar adiante e morrer de rir da dor de barriga do amanhã. O que não mata, engorda.

 

* Foto por Malu Lima, em Valencia, Espanha

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