Linha e agulha não Machadianas

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Estava eu com algumas roupas que precisavam ser ajustadas no guarda-roupas, havia algum tempo. Pois bem, sempre prometia que iria levar logo na costureira para usá-las assim que possível, até que no fim de semana resolvi que as coisas iam mal. Não organizava minhas roupas e sapatos há algum tempo. Nem meus livros. Nem as roupas de cama, todas descasadas. Isso me deu uma agonia horrível, de como se o resto da vida fosse desandar por esse motivo e então decidi: era a hora. Aquela hora que você coloca a casa para baixo, como se fosse fazer uma mudança. Não simplesmente guardar tudo aquilo que você não quer desapegar no armário do quarto de visitas. Não, não, não…o lema passou a ser desapego. Tudo que eu olhava e brevemente me desagradava ia para o saco de doações, inclusive muitas daquelas roupas folgadas, principalmente as que eu pensei que nunca usaria, mesmo após o conserto. Enfim, não posso dizer que tudo está a mil maravilhas. Acabei tudo isso com sacolas de papel infinitas (porque raios eu guardava tanta sacola?) no chão do closet, de modo que não consigo circular, mas ganhei algum espaço livre. Aliás, ganhei espaço livre em todos os compartimentos do móvel e o processo me renovou. Sério mesmo, recomendo. O caso é que ainda sobraram quatro regatas a serem ajustadas. Como eu me conheço e sei que vou passar longe da costureira, comprei linha, agulha e fui à luta. Há tanto tempo não dava um ponto que sinto até vergonha em mencionar. Mas a última vez me lembro de ajudar minha mãe a colocar a linha na agulha. Quando era criança me julgava numa habilidade enorme de enfiar a linha na agulha. Eu me gabava com todo mundo que tinha olho de cobra, colocava a linha na agulha como ninguém. Sinto informar que o tempo passou, e eu me vi penando, que agulha é essa? Eu era profissional nisso, não era? Como assim estou demorando tanto para colocar essa linha? Pode parecer idiota, mas isso me fez sentir algo que vivo sentindo. Será que regredi? Sabe, muitas vezes paro e penso em como tomava certas decisões mais seguras e firmadas na infância. Como era uma criança responsável, que não pisava na bola e, bem, sabia colocar a linha na agulha. Fui tomada por a sensação de regressão. Mas então eu lembrei que dia desses usei uma bota que não usava há tempos. Me perguntei porque passei tanto tempo sem usá-la, e a resposta veio quando cheguei ao trabalho. Tum, tum, tum. O salto era extremamente incomodativo. ” Ah”, pensei comigo. Vez ou outra ouço alguém usar uma expressão a qual eu era acostumada, e estranho. Ou contar uma piada que eu costumava contar e rir, estranho também. Onde foram parar as partes de nós que tínhamos no passado e se perderam com o tempo? A memória que é fraca ou somos nós que não nos esforçamos suficientemente para guardar nossos pedaços favoritos de nós mesmos? Acho que são as duas coisas. Precisamos fazer força e nos lembrar o porque somos o que somos, como chegamos aqui, pelo que passamos e porque devemos nos valorizar. Não podemos esquecer das partes da batalha que doeram e como fizemos para passar por cima disso, nem quem nos ajudou a atravessar a ponte. Devemos recordar as partes ínfimas de nós, que muitas vezes são detalhes, mas acima de tudo, lembremos que de detalhes somos feitos, célula por célula, orgão por orgão, lembrança por lembrança. Então, aquele velho conhecido seu vai te encontrar e vai estranhar aquela piada que era sua cara ter sumido do repertório. Você também vai estranhar, assim como eu estranhei minhas habilidades de costura. Nossa memória é fraca. Mesmo as fortes são fracas. Quando visitei Londres pela primeira vez, decidi que era minha cidade favorita do mundo. Na segunda, me surpreendi ao relembrar várias coisas que não recordava ao mencionar a cidade Inglesa nas minhas lembranças, e me via inconformada. Mas fui, e olhei. Olhei e relembrei, fiz valer o porquê Londres continua sendo minha cidade favorita. Mesma coisa ocorreu quando dia desses, um amigo meu perdeu alguém especial. Eu disse: preste atenção para os valores que ela te passou, e não se esqueça de aplicá-los na sua vida, assim você sempre vai lembrar com carinho dela. Atenção que, com tudo isso, não digo que não vamos evoluir. Você vai mudar sim, mas é importante que carregue com você  aquilo que te faz você, e o que te faz gostar de você. Quando a gente não sabe muito bem do porquê somos apreciáveis, isso pode se perder, então se abrace, se conheça, recupere e mude quando for necessário. Puxe suas lembranças. No fim das contas, entendi o que estava acontecendo… Lembrei vagamente de quando era criança, e fiz força para provar meu talento na costura. Não foi fácil da primeira vez, mas aí descobri que a linha desfiava facilmente e isso a impedia de entrar na agulha. A culpa não era só minha. Nem da agulha. A culpa era da linha. A culpa era da vida. Mas viver é igual a andar de bicicleta, não dizem? A gente pode enferrujar, mas nunca esquece.

* Foto por Malu Lima, em Londres, UK

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