A felicidade do dane-se.

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Acho que minha vida pode ser divida entre antes de conhecer Bauman e depois dele. Não por um acaso, recentemente me deparei com uma entrevista com ele, e então resolvi voltar a ler alguma coisa. Não obstante, o cara deu um show e sambou na minha cara, detonando com qualquer conceito que eu tinha sobre amor próprio. Explico: a teoria dele é que o amor próprio, genuíno, daquele jeito que gostaríamos que existisse, não existe. É isso aí, vai para o saco. Sabe todo o tempo que você passou tentando ser fiel a você e se dedicando a coisas as quais supostamente te fazem uma pessoa melhor quando você se olha no espelho? Pois bem, você na verdade usou todo esse tempo para conseguir a aprovação do outro. Basicamente, o amor próprio consiste em conseguir o amor do outro. A teoria do danado é que você só se ama quando é amado, e que gostar mais de si implica chegar a uma imagem que o pai, a mãe, o tio, o namorado, o mundo todo aprova. E eu te pergunto, é isso mesmo que você quer para você? As horas de academia são pela endorfina e felicidade extrema ou são para um ideal de beleza? Aquele comportamento polido é porque te faz feliz ser assim ou é porque todos estão vendo? Bom, nesse ponto de reflexão eu primeiro entrei em uma êxtase exasperada pela conclusão louvável. Depois parei de pensar num quase fundir mental e fui ao Starbucks, e como-todo-sábado-de-manhã pedi o bom e velho Mocha com meu bagel de sempre. Pedi o leite desnatado, para a consciência não pesar tanto (e confesso que mais uma vez o negócio do amor próprio ecoou, porquê, Deus, porquê?). Bom, me surpreendi em, ao tirar a tampa para adoçar a bebida, ter notado que tinha chantilly ali. E do que adiantava leite desnatado e chantilly? Era um oxímoro se materializando bem na minha frente. Fiquei inconformada. Pensei em tirar a gordice ali de cima, mas sabe de uma coisa? Não tirei. Gritei dane-se para minha consciência, fechei, fingi que não era comigo e zum, bebi sem pensar duas vezes. O que posso dizer sobre isso hoje? Que Mocha fica bem mais gostoso com chantilly, embora eu vá retificar da próxima vez: leite desnatado e sem chantilly. Acontece que bebendo aquilo, eu fui mais feliz. Me desapegando de uma consciência coletiva e, por vezes, bruta e rude, a coisa foi mais gostosa. Então eu percebi que o Bauman estava mesmo certo. Não se trata do que você faz para se olhar no espelho e se achar mais bonito. Não se trata daquele monte de coisa que empilhamos na gente, na tentativa de ser amado. Se trata do “dane-se”. Dane-se o que os outros pensam, se quiser gritar, grite. Quer ligar, ligue. Quer brigar, briga. Quer atravessar a paulista cantando? Atravessa. Vão te achar louco? Vão. E daí? Dane-se. Permita-se. Não precisa subir na mesa da empresa e rebolar até o chão, ser demitido ou se divorciar porque resolveu sumir por um mês já que estava cansado da vida. Não é nada disso. Mas se permita momentos de você. Permita-se não ligar muito. Ache o seu lugar, onde você pode ser você sem pensar ou se preocupar sobre o que os outros estão pensando. Não tire o chantilly da bebida se você não quer, e dane-se se a magrela orgânica do lado te olhar com cara feia por isso. Faça o que te faz sentir bem. Esteja com quem te aceita como você é. Ame a pessoa com quem você consegue ser você mesmo, sem forçar um comportamento artificial. Case com quem você consegue se divertir e confiar. Se trata de saber a ocasião e ter o controle sobre o momento certo de perder o controle. Uma amiga um dia me disse “se você tirar o mundo das costas, ele não vai acabar”. E não acabou. Sabe qual é a do amor próprio? O dane-se, seja você para você. Saiba quem você é, domine a propriocepção e abrace sua causa. Se mostre para quem você quer se mostrar, apenas. Vista vermelho, porque se você for baleado, ninguém vai descobrir. O sangue vai ficar disfarçado, e isso deixa as coisas mais fáceis, já que quem importa vai estar ali e vai saber o porquê de você estar usando vermelho. E hoje, se me perguntarem se eu sou feliz eu vou responder: Até que sou. Sou feliz socialmente.

* Foto por Malu Lima, Estocolmo, Suécia

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