E o que fica?

A Professora chamou e todos se reuniram em volta de um pequeno ser. Ela disse que iria fazer o protocolo de morte cerebral. Demorei a entender, a me tocar, que aquela pessoa inofensiva, pequena, e com nem um vigésimo de vida vivida tinha o destino traçado a uma ladeira negra. Pelo menos foi o que eu pensei na hora, me desligando dos pormenores que vinham depois…não responsividade, eletroencefalograma, doação de órgãos. Nada passava na minha cabeça. Não sei qual foi minha expressão, sei o quanto marcou em mim. O que fica, afinal? Os olhos ainda estavam lá, e é como se ela ainda lutasse, como se ela ainda nos olhasse e suplicasse uma segunda chance para a vida. Então, no dia seguinte existia ainda a remota possibilidade de um reflexo e uma ínfima possibilidade de luta. A minha resposta veio. O que ficaria afinal? Ficaria a lembrança, ficaria a marca da luta e o passo para a batalha. Ficaria o olhar de súplica e todos aqueles dados após derrotas e também após vitórias. Ficaria o nome impresso em qualquer papel que em um dia qualquer será destruído, mas não apagado. Ficará na história, na literatura, mas sobretudo na história de outras pessoas. Fica pelo mal, e fica mais pelo bem. Pela lealdade de estar do lado dos que amam para o resto de uma vida que, eventualmente, já acabou, mas consegue ser propagada pela imagem refletida na vida dos com quem se conviveu. Por isso fale sobre quem você ama. Mesmo que essa pessoa tenha te abandonado, propague a vida dela. Seja extensão de várias vidas, seja ponte. Propague o ensinamento, olhe nos olhos. Ame de fundo, ame com a alma e não só com os olhos. Ame com os dois, com todas as partes de você. Fale sobre o mundo, mostre sua visão, marque a vida de alguém e o destino de muitos. Faça o bem para você, seja feliz e envolva os outros nisso. Deixe sua imagem pelas gerações, dê as mãos, você não precisa andar sozinho. Você não vai viver melhor assim, nem vai viver mais. Deixe estar, ficar, perpetuar, juntar e ser. Seja você o que é. E o que é, é o que fica. O que fica? As partes de nós que deixamos para as pessoas. E é por isso que eu vou ali, me dividir até onde puder. Até onde eu sei, todas essas células se regeneram, e toda essa alma nasce e levanta quantas vezes forem necessárias, por toda a vida. Para o pequeno ser eu digo que a divisão foi válida, e ainda que tenha ido, não foi. Ela continua aqui, marcada com força, por mais toda uma vida, em nome dela, de mim e de todos, bem vivida.

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