As pétalas do maquinário

psicaria1

Estava andando na rua. Na calçada. Eu tropecei em alguns pensamentos, em certos problemas que me atordoavam. A calçada era acidentada, cheia de pedras, e eu tropecei nelas algumas vezes também, o que estava me deixando irritada. Eu fui e voltei várias vezes naquele trecho de calçada, até que em uma dessas vezes não achei a chave do carro, que estava estacionado logo na esquina. Parei naquele ímpeto de respirar e se preparar para afundar a mão no buraco negro que é bolsa de mulher. Nada. Ao olhar para baixo para tentar varrer com os olhos o ambiente hostil de minha bolsa, meus olhos foram além. Transpassaram a bolsa e devo dizer que transcenderam, para variar, como só sua bendita (ou maldita) idiossincrasia seria capaz. A calçada era sim acidentada, e cheia de pedras que me incomodavam. Mas ela estava cheia de pétalas dos ypês que perderam suas flores. Não pude deixar de olhar para o céu e agradecer o universo. Mas que bom, Universo, você sempre me pregando das suas peças, me fazendo pensar em tudo que as pessoas não pensam. Muito obrigada por me receber com flores, mesmo estando irritadíssima. Era aquilo…eu precisei agradecer a ele, mesmo que por entre dentes. Mas era tão bonito. Tinham flores no meu caminho, literalmente, e eu nem sabia desde quando elas estavam ali. Mal agradecida que fui, parei de ranger dentes, sorri, e logo em seguida achei a chave do carro. Pensativa que sou, não pude deixar de pensar, como é de tal lógica essa ordem dos fatos (e já sabemos disso). Valorizamos tanto nossas pedras do caminho, e não vou culpar Drummond unicamente pela metáfora. Pobre Drummond, ele também fez nascer uma rosa que quebrou o asfalto, o tédio e o nojo. Acontece que nós olhamos para as curvas, para as pedras, para os problemas e para tudo que nos faz pensar, sofrer e resolver, de maneira tão negativa. Eu ainda sou a favor de que nunca ninguém viverá uma vida sem problemas. As pessoas tendem a se perguntar porque fulano está deprimido, afinal, ele tem tudo. Eu digo que a vida não se resume a bens materiais e ao que se pode ter. Muitas vezes falta um pedaço da alma. Nós nos apegamos ao desejo, a ambição e ao que não temos, deixando de prestar atenção no que temos e que nós é fundamental. A coisa fica tão automática que deixamos de ver e de enxergar tudo que está ali e que faz nossa vida funcionar, movendo a maquinaria dia após dia. Dispensando o maquinismo universal brevemente, eu te desafio a transformar seus desejos em sonhos. O que te falta em possibilidades. Te desafio a viver uma vida bem vivida, que é quando se gosta dos próprios problemas. Porque gostar de resolver pepino é no mínimo dizer que se gosta do que faz. Que se apegou à charada que é a vida. Te desafio a dar valor às pessoas que tem ao seu lado e que querem ficar ao seu lado, se esforçando para isso. A ficar de bem com quem quer estar de bem com você, quem olha para o seu lado de dentro sem precisar de demandas para isso. Quem entende o que você fala e te entende, do jeitinho que você é. Te desafio a condicionar seu olhar, para que ele automaticamente se volte aos dizeres positivos e às flores que eu deixei passar, e que você deixa passar todos os dias. Eu tenho certeza que seu caminho está cheio de pétalas que você se tornou incapaz de ver. E então, acho que é hora de parar e desligar os motores. De prestar atenção no mundo em volta, até na formiga no pote de mel da sua cozinha. De reaprender o que deve ser valorizado, enquanto procura uma chave qualquer. Não a chave do carro, mas a chave de alguma porta dentro do seu eu, que te faz ver o mundo mais bonito. Abre essa porta, abre. Desviar das pedras na calçada exige concentração, mesmo. Não te culpo. Bobeou, tropeçou, caiu. Mas essa concentração nunca deveria ter te impedido de ver as pétalas que sempre estiveram logo a frente. Então, veja e enxergue. Depois, diga que mandei lembranças.

* Foto por Malu Lima, em São José do Rio Preto, Brasil

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