Aquele amor ubíquo

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Quem faz parte da minha rotina já conhece meus rituais diários de acordar mais cedo só para comer o pão na chapa e o expresso da padaria. Meu dia não começa sem café, já sabemos disso. Gosto de fazer meu ritual com calma, mas há sempre aqueles dias em que a função soneca do celular foi adiada 5 vezes e meia, e nessas ocasiões sou obrigada a correr. Foi numa dessas que após comer e beber cheguei ao caixa com meu velho e bom cartão problemático. As pessoas tem dificuldade em compreender que apesar de constar senha bloqueada, a dita senha não está bloqueada coisa nenhuma. Aguarda-se uns momentos e você digita a senha, fica tudo bem. Mas é aquela coisa, a maioria vem com um “sua senha está bloqueada”, ao que eu tenho que correr em explicar “não tire o cartão, vai funcionar”, blablabla, de modo que isso é tão ritual quanto minha ida a padaria. Naquele dia a funcionária abriu a boca para falar e eu já adiantei “não está bloqueada, ele vai funcionar”. Ela me encarou e disse “eu sei, mas a máquina saiu fora do ar e eu estou reiniciando”.
Não devia, mas por um minuto fiquei atônita. Se eu sabia muito bem do meu cartão, ela também sabia da máquina dela. Me senti um pouco envergonhada. Assim como sei de mim e não gosto que os outros se metam nisso, ela sabe dela, do trabalho dela e da máquina dela. E eu me meti. Abaixei a cabeça, agradeci e esperei calada. Se todos soubessem de todos, acho que o mundo seria sem graça. E é por isso que quando alguém está aprendendo sobre a gente, nós viramos ao avesso e confundimos tudo. As vezes somos tão irreconhecíveis, apesar de sermos os mesmos. Dentro da gente nos perdemos em cada buraco, esquecemos de tanta parte, que eu acho que nossa maior missão aqui é nos reconstruirmos em nós mesmos todos os dias. Nos lembrarmos quem somos e porquê somos, qual é a da nossa vida, porquê estamos acordados e escolhemos viver ou então o que você está fazendo dormindo no teclado do computador. Nesse mundo de ódio e miséria disseminados, precisamos manter a luz acesa. Precisamos saber de nós e precisamos fazer desse amor (o nosso, que mora dentro da gente), um amor ubíquo. Leve amor para tudo que faz e não vai precisar de ninguém dando sentido para sua vida. Entenda: o sentido é você. A nossa luz precisa acender e todo dia deve estar acesa. Mesmo fraca, deixe acesa, para que possamos ver todos os becos escuros da alma.

Foto por Malu Lima em SJRP Brasil

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