Arquivo do mês: novembro 2014

Divã com Sertalina

Ontem fui assistir ao filme “Boa Sorte”, com a Deborah Secco. Filme lindo, impecável, me fez chorar (como se fosse algo difícil no meu caso). Achei que o filme retrata, de forma verídica e dócil (duas características complicadas de serem colocadas lado a lado) a realidade da saúde mental no país. Bom, em resumo, trata-se de reabilitação, dois protagonistas, AIDS e muitos vícios. Coincidentemente, li uma matéria em que o Allen Frances, quem coordenou por alguns anos o DMV (manual diagnóstico e estatístico, por muitos considerado a Bíblia da Psiquiatria), revela que problemas cotidianos estão sendo transformados em doenças mentais. No “Boa Sorte”, a personagem da Deborah Secco, Judith, diz que você não é considerado louco quando paga suas contas e limpa sua sujeira. Coloco isso em pauta com a revelação de Frances: somos todos pacientes psiquiátricos? Até que ponto a sociedade tolera os níveis de loucura? O que é loucura, afinal? Quando estava no colégio, algum professor me disse que loucura era uma definição do que se caminhava para um local distante do considerado normal. Ainda me questionou, o que seria normal? Até hoje não sei, não me considero normal para tecer definições. Não considero ninguém normal, todos somos diferentes. Normal, para mim, é monótono. Mas não posso e nem devo ignorar que vivemos hoje em uma sociedade débil, em que o sentir deve ser cada vez mais reprimido. A gente pensa, sim, somos pensantes. Mas também um sábio professor me ensinou que devemos pensar muito, e não demais. Você tem um milhão de coisas para fazer, todas complexas, e não consegue sair do lugar. A ansiedade te toma, não sabe por onde começar, é muita coisa e então faz o que melhor sabe fazer: dorme. Aliás, faz o que a gente faz de melhor: foge. Depois acorda com uma breve sensação de estabilidade que dá lugar a uma ansiedade ainda maior, por não ter feito nada. Em alguma parte do processo, recebe o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade, e saí com uma receita negra: temos fluoxetina, sertralina, frontal, lexotan, lítio, tem para todo gosto. Uma amiga minha estava com esse problema. Me disse que pensou em começar a tomar antidepressivo para controlar a ansiedade. Eu disse a ela que se não soubesse por onde começar, começasse por qualquer lugar e fizesse o que vem em seguida. E então ela começou e percebeu que a ansiedade dela não era doença coisa nenhuma. Que mundo é esse em que depois da briga de família todo mundo toma monocordil, AAS e Diazepam? Onde ficou a água com açúcar? O chá de camomila?  Diante de uma insônia as pessoas não ligam mais a TV, pensam nos problemas e esperam o sono chegar…Não ligam para o amigo ou conversam com o marido. Não, o melhor amigo se chama Frontal, e é uma amizade unânime. A bebedeira não é mais de vinho barato, é de Somalium. Não se tolera o muito feliz, muito triste, muito choroso, meio para baixo. Dá-lhe remédio. Meus queridos, sintam! Sentir faz bem, e só sentindo que se vive e que se faz sentido viver. O remédio só deve ser usado para fazer sentir o que já não sente mais. Acredito no progresso da psiquiatria e admiro quantos estão sendo ajudados com isso. Mas também acho que precisamos modular a mão: Amigos, amigos, psiquiatras a parte. Antes de abrir a caixinha mágica e selecionar o próximo comprimido, selecione um bom número de telefone, um bom capuccino italiano e uma boa conversa. Comece falando, antes que qualquer Sertralina te encontre, trate de encontrar você mesmo. Seja um próton e continue positivo. No mais, nunca gostei de viver no meio de normais.

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Dor de amor não mata, ensina a viver

Uma amiga me contava, durante um café, que fora ao médico. Médico psiquiatra. Ela disse entre risos que não sabia como explicar a ele que doía dentro e doía fora. Como doer dos dois lados? Onde dói? Cheguei a conclusão de que era a tal dor de amor, essa que é unânime e que tatua dentro e fora. Quem sofre por amor leva isso tatuado na testa, no cérebro e, simbolicamente, no coração. Quem sofre por amor ama demais ou ama de menos, quer chorar, se isolar, quer colo, chocolate, vinho, cerveja e, de preferência, tequila. Abomina amores de fora, e não acredita que vá colocar alguém para dentro, nunca mais. Quem sofre de amor chora e para de chorar, pesa e para de pensar, sente saudade, porque amor é o que lhe falta. Sente falta sim, daquele amor presencial para dividir a pipoca no sofá e no cinema, para lhe ceder um ombro quando falta o chão e para fazer suar um pouco o coração.  Há saudade de ter e de perder, mas acima de tudo de sentir. Pede-se uma muleta que não se quer usar, é dor de membro fantasma, o membro não está mais lá. Por fim deseja-se outro amor. Um que não seja só de fim de semana e um que não suma no fim de semana. Um que complete e que se busque completar, que divida, que faça borboleta na barriga, que seja companhia e tatuagem branda. Se existir essa de tatuagem branda, que faça doer sim, porque todo amor dói. Todo mundo tem medo de amar, porque todo mundo tem medo de perder quem se ama. Mas que a dor seja serena e gostosa, porque dor de amor também vale a pena quando dói de dentro para fora, quando não foi ferida por arma de fogo. Dor de amor te ensina a escolher quem é amor para você.

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