Divã com Sertalina

Ontem fui assistir ao filme “Boa Sorte”, com a Deborah Secco. Filme lindo, impecável, me fez chorar (como se fosse algo difícil no meu caso). Achei que o filme retrata, de forma verídica e dócil (duas características complicadas de serem colocadas lado a lado) a realidade da saúde mental no país. Bom, em resumo, trata-se de reabilitação, dois protagonistas, AIDS e muitos vícios. Coincidentemente, li uma matéria em que o Allen Frances, quem coordenou por alguns anos o DMV (manual diagnóstico e estatístico, por muitos considerado a Bíblia da Psiquiatria), revela que problemas cotidianos estão sendo transformados em doenças mentais. No “Boa Sorte”, a personagem da Deborah Secco, Judith, diz que você não é considerado louco quando paga suas contas e limpa sua sujeira. Coloco isso em pauta com a revelação de Frances: somos todos pacientes psiquiátricos? Até que ponto a sociedade tolera os níveis de loucura? O que é loucura, afinal? Quando estava no colégio, algum professor me disse que loucura era uma definição do que se caminhava para um local distante do considerado normal. Ainda me questionou, o que seria normal? Até hoje não sei, não me considero normal para tecer definições. Não considero ninguém normal, todos somos diferentes. Normal, para mim, é monótono. Mas não posso e nem devo ignorar que vivemos hoje em uma sociedade débil, em que o sentir deve ser cada vez mais reprimido. A gente pensa, sim, somos pensantes. Mas também um sábio professor me ensinou que devemos pensar muito, e não demais. Você tem um milhão de coisas para fazer, todas complexas, e não consegue sair do lugar. A ansiedade te toma, não sabe por onde começar, é muita coisa e então faz o que melhor sabe fazer: dorme. Aliás, faz o que a gente faz de melhor: foge. Depois acorda com uma breve sensação de estabilidade que dá lugar a uma ansiedade ainda maior, por não ter feito nada. Em alguma parte do processo, recebe o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade, e saí com uma receita negra: temos fluoxetina, sertralina, frontal, lexotan, lítio, tem para todo gosto. Uma amiga minha estava com esse problema. Me disse que pensou em começar a tomar antidepressivo para controlar a ansiedade. Eu disse a ela que se não soubesse por onde começar, começasse por qualquer lugar e fizesse o que vem em seguida. E então ela começou e percebeu que a ansiedade dela não era doença coisa nenhuma. Que mundo é esse em que depois da briga de família todo mundo toma monocordil, AAS e Diazepam? Onde ficou a água com açúcar? O chá de camomila?  Diante de uma insônia as pessoas não ligam mais a TV, pensam nos problemas e esperam o sono chegar…Não ligam para o amigo ou conversam com o marido. Não, o melhor amigo se chama Frontal, e é uma amizade unânime. A bebedeira não é mais de vinho barato, é de Somalium. Não se tolera o muito feliz, muito triste, muito choroso, meio para baixo. Dá-lhe remédio. Meus queridos, sintam! Sentir faz bem, e só sentindo que se vive e que se faz sentido viver. O remédio só deve ser usado para fazer sentir o que já não sente mais. Acredito no progresso da psiquiatria e admiro quantos estão sendo ajudados com isso. Mas também acho que precisamos modular a mão: Amigos, amigos, psiquiatras a parte. Antes de abrir a caixinha mágica e selecionar o próximo comprimido, selecione um bom número de telefone, um bom capuccino italiano e uma boa conversa. Comece falando, antes que qualquer Sertralina te encontre, trate de encontrar você mesmo. Seja um próton e continue positivo. No mais, nunca gostei de viver no meio de normais.

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4 Comentários

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4 Respostas para “Divã com Sertalina

  1. Marcela Esteves Brito

    A- d – o – r – e – i

    “No mais, nunca gostei de viver no meio de normais”.

    🙂

  2. Sensacional,eu assisti o filme pela primeira vez ontem e foi sobre essa mesma fala dela que eu refleti uma mega verdade de até onde somos considerados normais ou não. Um lugar onde a conversa em uma família não ocorreu, um almoço de Domingo, um olhar,carinho etc. Crianças sendo diagnosticadas com TDAH e tomando remédios tarja preta coisas que poderiam ser resolvidas com conversa, atividades físicas,amor,atenção etc. o que vivemos hoje é um mundo imediatista, onde pessoas não suportam mais nada, não tem paciência de esperar, não querem ter trabalho só querem resolver o problema o mais rápido possível, onde decepções comuns da vida se tornam depressão a sociedade esta muito acelerada e se você não respira, você pira . Adorei seu texto.Parabéns

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