Arquivo do mês: fevereiro 2015

O tal nó da Solidão

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Um dos meus livros favoritos do Garcia Marquez é “Eu não vim fazer um discurso”. De fato os discursos dele nunca foram discursos, e sim obras-primas. Dentre os tantos, parte em especial de um deles me toca. Trata-se do discurso feito sobre a solidão da América Latina, na Suécia, em 1982, no qual certo ponto ele diz: Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito à imaginação, porque para nós o maior desafio foi a insuficiência dos recursos convencionais para tornar a nossa vida acreditável. Este é, amigos, o nó da nossa solidão.
Esse trecho sempre me arrepia. Qual o nó da solidão Brasileira? Seria o mesmo da América Latina toda? Acho que temos semelhanças, mas pedimos diferente à nossa imaginação. Compensamos a dor com carnaval, futebol, brigadeiro de colher, de granulado, de copinho, do que for, e agora até gourmet. Com pão de queijo, pinga 51, caipirinha, capiroska e todas as variáveis possíveis. Compensamos com bossa nova e samba, porque não dizer um sorriso no rosto, sempre. Compensamos de forma acolhedora.
Gabriel cita no mesmo discurso nossas mortes cotidianas, as quais enfrentamos com a mesma imaginação. E porquê não haveríamos de enfrentar? Eu, se fosse você, adotaria para a vida essa teoria de tornar a vida acreditável com a imaginação. Partes de nós morrem a todo o tempo. Perdemos tempo, perdemos coisas e perdemos pessoas. Perdemos amizades, sorrisos e amores.
Em compensação, tem sempre o samba da esquina regado a qualquer cerveja que gele a alma. Tem a bossa nova tocando no radinho retrô do vizinho, temos Copacabana, temos filmes e temos dança no pé. Temos amigos outros, que fizemos com nosso sorriso, amores outros, que ganhamos com nossa lábia, malandragem que herdamos da dialética de qualquer sargento de milícias, temos heranças a mil. Temos bons livros, Chico, Djavan, Renato ou um Rock internacional qualquer no Pub mais próximo. Temos tudo que queremos na ponta dos dedos, o que falta é movê-los.
Para tornar a vida acreditável, não precisamos abandonar o nó da solidão. Garcia Marquez no ensina que é melhor tirar o que há de melhor nela. Então, se está sozinho, olhe para dentro. Para frente há ainda muita vida, que ganhamos com nossa imaginação. Então não a deixe morrer, nunca.

*Foto por Malu Lima em Lisboa, Portugal 11/2013

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Entre a imitação e o Agnóstico

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Fui ontem assistir ao múltiplo indicado ao Oscar “O jogo da Imitação”. Dentre o roteiro sedutor, 2ª Guerra, Criptografia, Aliados, e uma super máquina alemã de transmissão de dados criptografados, o protagonista se destaca por sua personalidade peculiar, como a de todo gênio que se preste, e sua genialidade em desenvolver uma máquina tão ou mais capaz que a alemã. A essência dessa história baseada em fatos reais é maravilhosa, mas um ponto em especifico me chamou a atenção.
Alan Turing, em um dado momento, é tido como pacifista universitário, tendo sua capacidade de lidar com a Guerra subestimada, apesar de ser o melhor matemático da época. A essa insinuação respondeu: Não era contra a violência, era um Agnóstico da violência. De fato, constatação brilhante. Em certo ponto do filme, Turing é obrigado a esconder as informações que duramente conseguiu interceptar do exército alemão para que esse não suspeitasse de que as tinha e mudassem os códigos de criptografia. Essa atitude levaria ao afundamento de um navio de carga da Inglaterra e, consequentemente, a morte de muitas pessoas. Sua decisão, porém, foi esconder o fato de que as tropas alemãs iriam se aproximar e, assim, impedir a defesa Inglesa. A justificativa foi que a morte daquelas pessoas era necessária para vencer a guerra e salvar tantas outras vidas a mais.
Decisão difícil, não? Tipo de decisões que tomamos todos os dias, não da mesma magnitude mas nas pequenas coisas. Hoje percebo que não sou contra mentirosos, sou agnóstica da mentira. Quem nunca contou a tal mentira do bem? Quem não tentou poupar o outro? Não sou contra o ódio, sou agnóstica a ele. O ódio às vezes cresce para nos proteger. Não sou contra a trapaça, sou agnóstica a ela. Trapaça às vezes salva vidas. Não sou contra paixões vazias, amizades superficiais e sorrisos falsos. Sou agnóstica a isso tudo. Por mais vazias que sejam, preenchem em dado momento qualquer espaço provisório e paliativo, que estava realmente precisando daquilo.
Não sou contra esmolas, não sou contra discussões, brigas, refrigerante, drogas, manifestações violentas, vidas vazias, espaços em branco e canetas sem tinta.
Bom, não é segredo para ninguém que a Inglaterra ganhou a guerra. Turing se tornou uma das maiores mentes de guerra da história. E eu? Descobri dentro de mim uma agnóstica nata.

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A melhor e a pior mulher

Uma amiga minha estava em prantos, tinha terminado seu affair. Acreditando que ela precisasse de consolo, fomos conversar. Qual o motivo do choro? O que houve, não foi você quem quis terminar? Ela me olhou perplexa, esperou as lágrimas pararem de cair e veio com a surpresa: “Não estou chorando por mim, estou chorando por ele. Ele me perdeu! Ele conseguiu”. A partir daí não preciso dizer que quem ficou perplexa fui eu. Não sabia se considerava o comentário um tanto arrogante, mas o choro era sincero.
Parei para pensar no assunto, e de fato era motivo de choro, o escárnio da vida. Todo homem vai ter na vida aquela mulher que vem depois de outra, aquela outra que sem dó nem piedade colocou o pé na frente dele até ele tropeçar, cair e deu até um chutinho para completar a cena. Essa outra não arreia o pé dali, e ele saí disso tudo pensando que nunca vai conseguir sair de lá, dela, daquela vida. E aí a novidade aparece. A novidade que ele encara com mil pés atrás, porque não quer quebrar a cara de novo. A novidade com a qual ele exige se colocar em um patamar de indiferença já que não quer se apegar, faz birra, gosta mesmo é da outra, do passado, do trauma, de estar sozinho ou de qualquer outra coisa. A novidade chega e arranca sorrisos, ouve desabafos, mostra coisas novas que ele nunca antes pensou que poderia gostar. Ele se agrada, se diverte, admira, e por vezes até respira fundo, achando que aquilo de algum modo mexeu com ele. Pode? Não, não pode, de novo não. Então ele barra, ele puxa uma pedra e coloca na cabeça: dali ninguém tira seus traumas. Ali eles ficarão para sempre, ninguém começa do zero.
Ela não liga, ela tenta incansavelmente. O seu espírito chora e esperneia, ela precisa salvar aquele rapaz dessa morbidade e escuridão de vida. Ela faz ele dançar, ela faz ele chorar, viajar, ela faz guerra de comida e de travesseiro. Fez ele andar no carrossel do parque da esquina segurando um sorvete em cada mão, fez ele beber três doses de tequila de vez e depois girou a cabeça dele, foi dona dos melhores toques, foi louca, foi santa, foi tudo que pode ser. Com ela, ele foi Ele. Ela buscou de todas as formas fazer ele sorrir. Mas ele se mantém sempre naquela dureza inflexível que o obriga a fechar os olhos para qualquer opção de vida mais feliz e menos segura. Acontece que ele só enxerga o inseguro.
Mas então ela cansa, e vai embora. Ela junta tudo, e vai embora. Ela dá tchau por educação, não quer mais saber, porque o tanto de escárnio e trauma dele matou um pedaço dela. Só que meu querido, ela sempre vai ser vida, e quem tem vida vira célula tronco, renasce emocionalmente todo dia.
Quando ele acordou, gostava dela. Quando correu atrás, ela não quis, mandou procurar a outra. Quando se tocou, a vida passou, e ela também. E de repente ele notou que a melhor mulher que ele conheceu foi também a pior, mas a culpa nunca esteve nela. Ele despertou seu pior lado, afinal, quem vive de traumas não vive, está enraizado em um passado que não volta e não teria porquê voltar.
Desde então vivo tentando tomar decisões sem cada lembrança, seja boa ou ruim. Levo comigo o presente, porque quem vive de passado perde o presente e qualquer chance de futuro. Aqueles que foram felizes no passado, agradeçam, mas não se impossibilitem da felicidade de cada momento, assumam sempre que a vida pode ser melhor. Não é ambição, é otimismo. Não se boicote, o mundo ainda te oferece chances, é você quem se incapacita de vê-las.
Não fiz minha amiga enxugar as lágrimas. No fim descobri que eram lágrimas de humildade.

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Poesia de mim

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Amo, não amo
De dúvidas cruéis tenho
Sou ou não sou
Dúvidas cruéis temo
Você ou eu
Passado ou futuro
Dúvida cruel para mais
para menos
Para escolher
No mais que perfeito
presente
De dúvidas cruéis tenho
eu
Inteira

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Sobre os outros

Não me surpreendi quando saiu a lista dos indicados ao Oscar desse ano, principalmente ao ver as tantas indicações de O Grande Hotel Budapeste. A primeira vez que tive conhecimento desse filme foi por uma sinopse e um cartaz que me atraíram por um minimalismo bonito, sutil e sugestivo. A vida vive ensinando que o minimalismo ressalta as coisas, não é? Assim que tive a oportunidade, assisti, e não me decepcionei. Todo o cenário que Wes Anderson armou volta para uma atenção maior a um roteiro aparentemente simples, mas que trás consigo uma história intrigante e, como não poderia deixar de ser, lições de vida.
O filme se passa em 1932, e entre cenas hilárias, dramáticas, roubos, conflitos de inocência e paradigmas de certo e errado destaca-se um tema que, ao meu ver, é cada vez mais colocado em xeque: fidelidade. Gustave é gerente máximo do Hotel, e demanda um treinamento intensivo a Zero, seu fiel aprendiz. Não faltam desqualificações pessoais para o gerente: mulherengo nato, competitivo, por vezes egoísta e ambicioso. Zero, por outro lado, é capaz de olhar para o mestre e captar sua melhor parte, sempre, a ponto de lhe prestar uma fidelidade a qual está em falta no mundo. Essa é a parte comovente.
Obviamente o conjunto atingiu um esplendor remoto. Acontece que me fez pensar. Em um mundo ligado no sim e no não, no certo e errado, entre extremos bem distantes e opiniões duras somadas a julgamentos extremos, tornamo-nos incapazes de ver o lado bom das coisas. Fulano errou, fulano acabou. O rapaz é visto como mal caráter e desprovido de alma ou sentimentos. Pergunte se alguém se coloca no lugar do fulano? Não. As pessoas se tornam cada vez mais descartáveis por não serem perfeitas de bondade, e eu pergunto, quem é? Será que olhamos para o próprio umbigo e enxergamos nosso lado ruim? O lado que sente inveja, o lado fútil, egoísta? Não esconda ele não, eu sei que existe. Todos sabemos, mas ignoramos, julgamos, ignoramos, em qualquer ordem que seja, para qualquer ciclo vazio.
As pessoas carregam cada vez mais traumas de pessoas ruins e apagam de si as lembranças boas e aprendizados que levaram dessas mesmas pessoas. Todo mundo tem algo a oferecer e a ensinar.
Desculpe o spoiler, mas Zero acaba feliz. Ele não se torna um mulherengo, ele não é um ambicioso dos mais egoístas, ele é um dos personagens mais puros de espírito que já vi no cinema. Nada parecido com Gustave, certo? Mas ainda assim levou o tudo de bom que foi capaz de reconhecer no chefe, fez dele seu mestre e daí partiu sua própria vida. Quando não ter o que criticar, olhe para frente. Antes de julgar, reconheça o que te desperta aquele mesmo lado ruim. Na falta do que aprender, aprenda o outro.

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Geração Fanta uva

A geração fanta uva está em dúvida. Não sabe se quer refrigerante e manda um dane-se, ou se prefere ficar no suco de uva para manter a forma. A geração fanta uva vive oscilando nos dois quilos, preocupada com a instabilidade dos bens e com um dramalhão psicológico próprio, geralmente causado pelos pais ou simplesmente por se verem como outliers na corrida que leva para aquela placa final. O nome da placa? Felicidade. Eles falam bastante dela, alguns viveram de forma responsável, outros nem tanto. A geração fanta uva vive com muito medo, medo de assumir, medo de viver, e o próximo passo é medo. Medo de errar, de errar e ser infeliz, de escolher errado porque as opções são muitas, e muita coisa pode dar certo, mas e o medo de o certo dar errado? A geração fanta uva só arrisca com 101% de chances a favor, e eles não namoram, eles saem, ficam, dão as mãos e carregam traumas de mãos dadas: traumas de tudo que já deu errado em algum relacionamento na história natural do amor. A geração uva não sabe terminar namoro, é por isso que não namora. Vai que o namoro embrola e vira casamento? Vai que eu não quero casar? Tem tanta gente, e o medo de errar? É uma geração julgada e aparentemente livre, vai do trabalho para casa, para academia, para casa, para balada. Lida com o peso na consciência de não ser geração coca-cola, mas não liga para isso, já que no facebook é politizado e chama os colegas de coxinha e de petralha. A culpa é sempre de alguém. Reclama de tudo, mas está cansado para sair de casa ou para comentar algo a mais desse assunto. É a geração que pára no tempo e pára com tudo por não saber bem onde começar, tem medo de começar aqui e não dar tempo ali. São aqueles que competem com afinco para chegar não sabem muito bem onde e lutam por uma independência mas prefere que os outros respondam suas questões internas. Então, quando não tem resposta, fazem “terapia bem participativa”. Os filhos da geração fanta uva não vão ver álbuns de fotos, vão ver perfis do instagram, e é por isso que eu rezo para que esses perfis ainda durem algum tempo. Vão ver papai e mamãe nos melhores selfies, filtros e pau de selfies. Vão assistir a auto estima trabalhada, invejada, invadida. Vão lidar com críticas duras, e não vão saber muito bem para onde ir. Pára no tempo, pára com tudo, e para.

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Abreviado pontual

As vezes a história se torna evidente e escarrada diante dos nossos olhos. Caí uma ficha no fim da nossa parte de dentro e simplesmente nós sabemos, desde o primeiro “Oi”, olho no olho, aperto de mão, sorriso, risada. Nós descobrimos que ali tem algo demais, que diferencia tudo aquilo do todo. Vamos assumir para nós mesmos um pressentimento no qual é difícil de acreditar, mas está ali. De repente aparece amizade, cumplicidade e bem estar. Do nada você não sabe bem o que vem sentindo, mas não faz a menor diferença saber das coisas, porque é legal sentir desse jeito e é legal viver desse jeito. Você opta por fazer as coisas sem rótulos e sem destino definido, sem cobrança, sem chatice, sem partes ruins, e nem teria porque tê-las. Afinal, tudo vai tão bem. Nada é forçado, as coisas fluem, o tempo pára ali. E as mãos são dadas, e os beijos são longos, as conversas são intermináveis, os sorrisos inatingíveis, o silêncio é palpável, e nada é piegas.E tudo vai bem. E chegam as pessoas. Chegam questões a que não se quer responder. E vem aquela cobrança não se sabe da onde. E perde-se o rumo, se preocupa demais, desanda demais, anseia de menos. É tão melhor não saber. Qual a graça de saber do amanhã? Que graça tem decidir hoje se amanhã vou almoçar comida japonesa, se no fundo eu sei que minha melhor amiga vai me chamar para comer em um árabe bem mais tentador? Para quê decidir três anos antes se dali a outros sete o vestido da formatura ainda vai estar na moda? Não me peça para te contar onde vou morar o resto da vida. Porque levar tudo a ferro e fogo, na ponta do lápis? Minha ânsia por viver me deixa ansiosa quando vivo ansiosamente, prevendo, visando, pontuando. Gosto tanto de viver o destino imprevisível, que constrói e que magoa, mas que é por si só vivo. Vivo, pois, na ânsia de não viver qualquer coisa previsível e pré estabelecida. O previsível desanima, o determinado perde a graça, não se constrói mais nada em alicerces fragilizados por tanta preocupação. Se é para viver, mergulhe. Se for para mergulhar, assuma a possibilidade de se afogar. Se for pra afogar, deseje nascer de novo. Jogue fora relacionamentos de bolso, sinta. Permita-se sentir, permita-se viver, não veja grandes problemas em ser feliz. Não viva uma história abreviada por pontos compactuados. Que seja breve ou longo, mas intenso. Que seja dor, êxtase ou os dois. Que seja eu, você e todos. Mas que seja o futuro de uma vida, como deve ser. Porque história bonita, com ou sem final feliz, se começa do zero e não de pressupostos.  As pessoas temem traumas passados. Eu temo o trauma de não viver qualquer coisa bem vivida.

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