Abreviado pontual

As vezes a história se torna evidente e escarrada diante dos nossos olhos. Caí uma ficha no fim da nossa parte de dentro e simplesmente nós sabemos, desde o primeiro “Oi”, olho no olho, aperto de mão, sorriso, risada. Nós descobrimos que ali tem algo demais, que diferencia tudo aquilo do todo. Vamos assumir para nós mesmos um pressentimento no qual é difícil de acreditar, mas está ali. De repente aparece amizade, cumplicidade e bem estar. Do nada você não sabe bem o que vem sentindo, mas não faz a menor diferença saber das coisas, porque é legal sentir desse jeito e é legal viver desse jeito. Você opta por fazer as coisas sem rótulos e sem destino definido, sem cobrança, sem chatice, sem partes ruins, e nem teria porque tê-las. Afinal, tudo vai tão bem. Nada é forçado, as coisas fluem, o tempo pára ali. E as mãos são dadas, e os beijos são longos, as conversas são intermináveis, os sorrisos inatingíveis, o silêncio é palpável, e nada é piegas.E tudo vai bem. E chegam as pessoas. Chegam questões a que não se quer responder. E vem aquela cobrança não se sabe da onde. E perde-se o rumo, se preocupa demais, desanda demais, anseia de menos. É tão melhor não saber. Qual a graça de saber do amanhã? Que graça tem decidir hoje se amanhã vou almoçar comida japonesa, se no fundo eu sei que minha melhor amiga vai me chamar para comer em um árabe bem mais tentador? Para quê decidir três anos antes se dali a outros sete o vestido da formatura ainda vai estar na moda? Não me peça para te contar onde vou morar o resto da vida. Porque levar tudo a ferro e fogo, na ponta do lápis? Minha ânsia por viver me deixa ansiosa quando vivo ansiosamente, prevendo, visando, pontuando. Gosto tanto de viver o destino imprevisível, que constrói e que magoa, mas que é por si só vivo. Vivo, pois, na ânsia de não viver qualquer coisa previsível e pré estabelecida. O previsível desanima, o determinado perde a graça, não se constrói mais nada em alicerces fragilizados por tanta preocupação. Se é para viver, mergulhe. Se for para mergulhar, assuma a possibilidade de se afogar. Se for pra afogar, deseje nascer de novo. Jogue fora relacionamentos de bolso, sinta. Permita-se sentir, permita-se viver, não veja grandes problemas em ser feliz. Não viva uma história abreviada por pontos compactuados. Que seja breve ou longo, mas intenso. Que seja dor, êxtase ou os dois. Que seja eu, você e todos. Mas que seja o futuro de uma vida, como deve ser. Porque história bonita, com ou sem final feliz, se começa do zero e não de pressupostos.  As pessoas temem traumas passados. Eu temo o trauma de não viver qualquer coisa bem vivida.

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