Sobre os outros

Não me surpreendi quando saiu a lista dos indicados ao Oscar desse ano, principalmente ao ver as tantas indicações de O Grande Hotel Budapeste. A primeira vez que tive conhecimento desse filme foi por uma sinopse e um cartaz que me atraíram por um minimalismo bonito, sutil e sugestivo. A vida vive ensinando que o minimalismo ressalta as coisas, não é? Assim que tive a oportunidade, assisti, e não me decepcionei. Todo o cenário que Wes Anderson armou volta para uma atenção maior a um roteiro aparentemente simples, mas que trás consigo uma história intrigante e, como não poderia deixar de ser, lições de vida.
O filme se passa em 1932, e entre cenas hilárias, dramáticas, roubos, conflitos de inocência e paradigmas de certo e errado destaca-se um tema que, ao meu ver, é cada vez mais colocado em xeque: fidelidade. Gustave é gerente máximo do Hotel, e demanda um treinamento intensivo a Zero, seu fiel aprendiz. Não faltam desqualificações pessoais para o gerente: mulherengo nato, competitivo, por vezes egoísta e ambicioso. Zero, por outro lado, é capaz de olhar para o mestre e captar sua melhor parte, sempre, a ponto de lhe prestar uma fidelidade a qual está em falta no mundo. Essa é a parte comovente.
Obviamente o conjunto atingiu um esplendor remoto. Acontece que me fez pensar. Em um mundo ligado no sim e no não, no certo e errado, entre extremos bem distantes e opiniões duras somadas a julgamentos extremos, tornamo-nos incapazes de ver o lado bom das coisas. Fulano errou, fulano acabou. O rapaz é visto como mal caráter e desprovido de alma ou sentimentos. Pergunte se alguém se coloca no lugar do fulano? Não. As pessoas se tornam cada vez mais descartáveis por não serem perfeitas de bondade, e eu pergunto, quem é? Será que olhamos para o próprio umbigo e enxergamos nosso lado ruim? O lado que sente inveja, o lado fútil, egoísta? Não esconda ele não, eu sei que existe. Todos sabemos, mas ignoramos, julgamos, ignoramos, em qualquer ordem que seja, para qualquer ciclo vazio.
As pessoas carregam cada vez mais traumas de pessoas ruins e apagam de si as lembranças boas e aprendizados que levaram dessas mesmas pessoas. Todo mundo tem algo a oferecer e a ensinar.
Desculpe o spoiler, mas Zero acaba feliz. Ele não se torna um mulherengo, ele não é um ambicioso dos mais egoístas, ele é um dos personagens mais puros de espírito que já vi no cinema. Nada parecido com Gustave, certo? Mas ainda assim levou o tudo de bom que foi capaz de reconhecer no chefe, fez dele seu mestre e daí partiu sua própria vida. Quando não ter o que criticar, olhe para frente. Antes de julgar, reconheça o que te desperta aquele mesmo lado ruim. Na falta do que aprender, aprenda o outro.

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