A melhor e a pior mulher

Uma amiga minha estava em prantos, tinha terminado seu affair. Acreditando que ela precisasse de consolo, fomos conversar. Qual o motivo do choro? O que houve, não foi você quem quis terminar? Ela me olhou perplexa, esperou as lágrimas pararem de cair e veio com a surpresa: “Não estou chorando por mim, estou chorando por ele. Ele me perdeu! Ele conseguiu”. A partir daí não preciso dizer que quem ficou perplexa fui eu. Não sabia se considerava o comentário um tanto arrogante, mas o choro era sincero.
Parei para pensar no assunto, e de fato era motivo de choro, o escárnio da vida. Todo homem vai ter na vida aquela mulher que vem depois de outra, aquela outra que sem dó nem piedade colocou o pé na frente dele até ele tropeçar, cair e deu até um chutinho para completar a cena. Essa outra não arreia o pé dali, e ele saí disso tudo pensando que nunca vai conseguir sair de lá, dela, daquela vida. E aí a novidade aparece. A novidade que ele encara com mil pés atrás, porque não quer quebrar a cara de novo. A novidade com a qual ele exige se colocar em um patamar de indiferença já que não quer se apegar, faz birra, gosta mesmo é da outra, do passado, do trauma, de estar sozinho ou de qualquer outra coisa. A novidade chega e arranca sorrisos, ouve desabafos, mostra coisas novas que ele nunca antes pensou que poderia gostar. Ele se agrada, se diverte, admira, e por vezes até respira fundo, achando que aquilo de algum modo mexeu com ele. Pode? Não, não pode, de novo não. Então ele barra, ele puxa uma pedra e coloca na cabeça: dali ninguém tira seus traumas. Ali eles ficarão para sempre, ninguém começa do zero.
Ela não liga, ela tenta incansavelmente. O seu espírito chora e esperneia, ela precisa salvar aquele rapaz dessa morbidade e escuridão de vida. Ela faz ele dançar, ela faz ele chorar, viajar, ela faz guerra de comida e de travesseiro. Fez ele andar no carrossel do parque da esquina segurando um sorvete em cada mão, fez ele beber três doses de tequila de vez e depois girou a cabeça dele, foi dona dos melhores toques, foi louca, foi santa, foi tudo que pode ser. Com ela, ele foi Ele. Ela buscou de todas as formas fazer ele sorrir. Mas ele se mantém sempre naquela dureza inflexível que o obriga a fechar os olhos para qualquer opção de vida mais feliz e menos segura. Acontece que ele só enxerga o inseguro.
Mas então ela cansa, e vai embora. Ela junta tudo, e vai embora. Ela dá tchau por educação, não quer mais saber, porque o tanto de escárnio e trauma dele matou um pedaço dela. Só que meu querido, ela sempre vai ser vida, e quem tem vida vira célula tronco, renasce emocionalmente todo dia.
Quando ele acordou, gostava dela. Quando correu atrás, ela não quis, mandou procurar a outra. Quando se tocou, a vida passou, e ela também. E de repente ele notou que a melhor mulher que ele conheceu foi também a pior, mas a culpa nunca esteve nela. Ele despertou seu pior lado, afinal, quem vive de traumas não vive, está enraizado em um passado que não volta e não teria porquê voltar.
Desde então vivo tentando tomar decisões sem cada lembrança, seja boa ou ruim. Levo comigo o presente, porque quem vive de passado perde o presente e qualquer chance de futuro. Aqueles que foram felizes no passado, agradeçam, mas não se impossibilitem da felicidade de cada momento, assumam sempre que a vida pode ser melhor. Não é ambição, é otimismo. Não se boicote, o mundo ainda te oferece chances, é você quem se incapacita de vê-las.
Não fiz minha amiga enxugar as lágrimas. No fim descobri que eram lágrimas de humildade.

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