O tal nó da Solidão

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Um dos meus livros favoritos do Garcia Marquez é “Eu não vim fazer um discurso”. De fato os discursos dele nunca foram discursos, e sim obras-primas. Dentre os tantos, parte em especial de um deles me toca. Trata-se do discurso feito sobre a solidão da América Latina, na Suécia, em 1982, no qual certo ponto ele diz: Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito à imaginação, porque para nós o maior desafio foi a insuficiência dos recursos convencionais para tornar a nossa vida acreditável. Este é, amigos, o nó da nossa solidão.
Esse trecho sempre me arrepia. Qual o nó da solidão Brasileira? Seria o mesmo da América Latina toda? Acho que temos semelhanças, mas pedimos diferente à nossa imaginação. Compensamos a dor com carnaval, futebol, brigadeiro de colher, de granulado, de copinho, do que for, e agora até gourmet. Com pão de queijo, pinga 51, caipirinha, capiroska e todas as variáveis possíveis. Compensamos com bossa nova e samba, porque não dizer um sorriso no rosto, sempre. Compensamos de forma acolhedora.
Gabriel cita no mesmo discurso nossas mortes cotidianas, as quais enfrentamos com a mesma imaginação. E porquê não haveríamos de enfrentar? Eu, se fosse você, adotaria para a vida essa teoria de tornar a vida acreditável com a imaginação. Partes de nós morrem a todo o tempo. Perdemos tempo, perdemos coisas e perdemos pessoas. Perdemos amizades, sorrisos e amores.
Em compensação, tem sempre o samba da esquina regado a qualquer cerveja que gele a alma. Tem a bossa nova tocando no radinho retrô do vizinho, temos Copacabana, temos filmes e temos dança no pé. Temos amigos outros, que fizemos com nosso sorriso, amores outros, que ganhamos com nossa lábia, malandragem que herdamos da dialética de qualquer sargento de milícias, temos heranças a mil. Temos bons livros, Chico, Djavan, Renato ou um Rock internacional qualquer no Pub mais próximo. Temos tudo que queremos na ponta dos dedos, o que falta é movê-los.
Para tornar a vida acreditável, não precisamos abandonar o nó da solidão. Garcia Marquez no ensina que é melhor tirar o que há de melhor nela. Então, se está sozinho, olhe para dentro. Para frente há ainda muita vida, que ganhamos com nossa imaginação. Então não a deixe morrer, nunca.

*Foto por Malu Lima em Lisboa, Portugal 11/2013

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