Arquivo do mês: abril 2015

Deixo você ir

Está feito. Te pisaram, te colocaram em uma alga e enrolaram igual temaki. Você chorou, esperneou, bebeu pelo menos duas garrafas de vinho ao som de Alanis e James Blunt por fim de semana, e seus amigos não conseguem mais ouvir sobre sua dor. Então você resolveu correr sete quilômetros toda vez que ela batesse, e isso não te fez emagrecer. Não mais do que você já tinha emagrecido, porque só chorava, você já tinha passado dessa fase. Já estava sobrevivendo ciclicamente de migalhas e se entupindo de uma ansiedade vazia e de comida confortável. O ciclo se mantém: términos e conversas sem fim. É difícil deixar alguém ir, não é? Tem horas que você decide colocar a poeira toda para baixo da cama, desiste de falar, bloqueia em todas as redes sociais, porque agora tem dessa também. Um toque e você acessa o que quiser. Mas quem disse que sempre tem resposta? Ou que o assunto vem naquela hora em que você sabe, é a hora do tédio? E o assunto, ele te alimenta. Ele te faz acreditar que nem tudo está perdido.
A cada pisada você tem consciência de que precisa parar com tudo isso. Que já não é saúde, que já não tem idade. Todos te falam que o único capaz de acabar com esse filme de drama romântico mal sucedido é você, e depois de ouvir pela milésima vez a sua vontade é gritar: EU SEI.
E eu sei que você sabe. Mas você não deixa isso pelo orgulho, por depois de tantas lágrimas você ver a batalha perdida, por não se perdoar de ter feito tão mal a si mesmo. E aí você continua na busca do seu final feliz, para provar para todos e principalmente para si mesmo que sua aposta não foi errada. Que o sangue que caiu valeu a pena, que no final tudo deu certo. É nisso que te fizeram acreditar: em um orgulho verdadeiro, que magoa mais que qualquer outra coisa, e que até um final feliz (o qual não existe), é infindável. Você não pode dar às costas aos seus sentimentos, e sim ir de encontro a eles.
Você está magoado, pisado, enrolado. Você se rastejou e deu tudo de si, e tenta esconder de todo mundo o quanto realmente se sente machucado e humilhado. Você permitiu que fizessem isso com você sim, mas é plausível, uma vez na vida todo mundo passa por isso.
Então, pára. Olha para dentro, deixe os conselhos de fora. Olhe para você, se perdoa. Não faz mal, não é feio sofrer de amor. Pare de gritar aos sete ventos, se perdoa. Se perdoa por ainda amar a pessoa que acabou com seus últimos dias, meses, anos. Se perdoa por ouvir seu coração capotar quando vê, quando encontra, fala. Se perdoa por ter mandado os oitocentos e trinta e quatro últimos “ois”. Pelas crises de ciumes e por todas as vezes que se permitiu sair de você e abdicar do que você é por essa coisa que te consome. Se perdoa e assume para si mesmo, não tem jeito e nem para onde correr. Você ama. Mas amor também pode ter começo, meio e fim. Início, vida e lembrança, é a história natural das coisas. Você não pode deixar as coisas irem embora de você com mágoa, ódio e lágrimas, porque essas coisas marcam na alma, então, deixe ir com espontaneidade. Deixe-as ir com o amor que a elas foi atribuído. Deixe-as ir naturalmente, e sorrindo. Ela se vão, não sem causar dor. Mas elas vão te deixando de presente a paz. Então, meu amigo, desiste. Mas desiste e vai ser feliz.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Conversas alheias

Saí afobada, fiz menção de entrar no carro, a guia me atrapalhava de abrir a porta. Então voltei, puxei, puxei de novo, e abri. Entrei no carro, respirei fundo, óculos escuros, cinto de segurança, rádio, abri o vidro para enxergar melhor o retrovisor, bendita miopia. Então as duas senhoras por quem passara um pouco antes, e as quais conversavam calorosamente, pararam. Notei que claramente estavam em um dilema, e a certo ponto desse, me incluíram brevemente. ” Que dia é hoje, moça?”. Me senti pausadamente honrada. Afinal, para dilema notadamente tão importante, fui escalada. ” Hoje é dia nove. Eu acho”. Nunca sei dos dias, só sei em que dia da semana estou por pura conveniência. Sabe-se que é fevereiro pelo cheiro da chuva, dezembro pelas árvores de Natal, e assim vai. Mas naquele dia, mais que o mês e dia da semana, eu sabia. Eu sabia a mais. Tinha a data na ponta da língua.
E foi então que senhora número um disse ” Nossa, dia nove, será que é hoje?”, ao que Senhora número dois respondeu, ” Talvez seja sim, acho que é”. E eu fiquei lá, no silêncio do meu carro, com o motor ruindo, me questionando o que seria hoje. A festa de aniversário da neta? Dia que saí pão doce na padaria? Dia de pagar a previdência? Venceria algum prazo? Morreria alguém? Estaria prevista a passagem de um meteoro bem próximo a terra? Será que estavam programando uma manifestação coletiva e ninguém me avisou? Hoje era o dia de caminhada, da hidroginástica, de ir ao médico, de tomar sol, de uns drinks em qualquer hotel da cidade? Dia de alguém finalmente sair da prisão? Hoje é dia de ver pôr-do-sol, de ser babá das crianças, da festa do pijama, de ir ao cinema, do casamento para o qual não foi convidada?
Me via incomodada. Que dia era aquele, Deus? Então sacudi a cabeça repetindo que deixasse, não importava. Fosse o que fosse, não era cabível estar chateada. Acelerei e saí daquele nimbo, fui para meu nicho pessoal, na solidão que me foi atribuída, torcendo para o melhor. Dia que é dia é assim mesmo.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Tem quem não volte

A vida fechara seus olhos. Ela já não ligava de andar na escuridão, e nem sabia como andar se assim não fosse. E de repente, se tirassem suas vendas, fechariam seu coração? E então, a vida tirou as vendas, e surgiu um mundo feio e doente. De tão feio e doente, ela parou ali na sarjeta, sentou e fechou todas as portinhas. Se fechou em si, apertada, até sumir. Fechou o coração e fechou tudo. Não poderia, afinal, culpar a vida. Não queria se culpar. Se esfarelou, culpou seus farelos e colocou as palavras para dentro, enquanto esperava o tempo, que não chegava para a poeira. De posses, só tinha o coração, espalhado pelo asfalto. Mas ele estava ali. Ela ainda o tinha, e talvez fosse um trecho de qualquer esperança que esqueceram por ai, em migalhas, de um filme mudo à toa.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized