Não era para ser

Alguém me disse que viu uma ferida no meu coração. Falou também que eu não me afetasse, que o que não foi, não era para ser. Calculemos, então, quantas vezes ouvimos isso na vida? Não se preocupe, não era para ser. E de repente, o rosto que se vê todos os dias, em todos os lugares, não era para ser. A mão a que se apega, o abraço que acolhe, não era para ser. As palavras de conforto, o choro calado, o esperneado, o companheirismo, o silêncio mútuo, a vida compartilhada, nada disso era para ser. Sabe aquilo a que você passou tempos acostumado? Não era para ser também. Nem as mensagens de bom dia, nem as brigas. Sabe o motivo pelo qual algumas vezes você levantou a cabeça e decidiu que valia a pena continuar dali, ou mesmo recomeçar? Não era para ser.
Não era para ser a brincadeira a dois, não era para ser amizade, não era para ter contato, não era para ser a pessoa na qual você pensa todo Santo dia, e nos não santos, nem aquele que você deixou ir por uma bobeira qualquer. Nem aquele futuro que você imaginou e mudou de ordem e cores por duzentas e uma vezes. Não era para ser tudo que, agora, te impede de continuar. Então, qual atrevimento de alguém dizer o que não era para ser?
Hoje eu entendo. E foi? Não foi. Era para ser sim. Mas nada que te impede de andar, de prosseguir, crescer, mudar, era para continuar. Nada que mudou a ponto de ser irreconhecível e perder todo sentido deve perdurar. As coisas são findáveis, friáveis e muitas vezes somos nós quem definimos o limítrofe e a exclusão. A vida cobra da gente não só vírgulas e reticências, que adoramos colocar. Ela cobra pontos, ela cobra padrões definitivos, ela nos implora auto proteção e auto piedade quando não temos discernimento para isso. Nos grita a excitar, nos incita a continuar. Então, se seu coração está marcado, não tarda. Não se apegue às perspectivas do passado, elas já foram, são efêmeras e mudaram. Crie seus novos vislumbres, monte um novo reflexo, transforme seu horizonte. Era pra ser. Podia ter sido. Mas não é para ser. Decida o que você quer de novo, e de novo, e quantas vezes forem necessárias. Quando a vida nos tira um pedaço, é para colocar outro no lugar, e em algum momento você vai ter certeza que aquela partezinha você não quer tirar de você. Então, é.

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