Força da gente

IMG_4831

Me afundei na poltrona, me perguntaram da minha última viagem. Respondi que foi boa, mas. No meio do caminho tinha um ” mas ” que eu não conseguia tirar da cabeça. Viajar a qualquer lugar sempre me faz sentir que dali levei algum aprendizado, coisas boas, sim, mas viagem que é viagem também tem perrengue. Não de um jeito ruim, é como aquela dor gostosa que ninguém entende, só você. A dor que te dá satisfação por ter superado algum obstáculo interno o qual sabe-se lá quando você traçou. Foi bem assim, já exausta de caminhar indefinidamente pelas trilhas peruanas, subir não sei quantos degraus, não parecia estar perto de chegar a algum lugar. E então, alcançamos um mirante de tirar o fôlego, tipo de coisa indescritível. Sentimos alguém atrás de nós, ao que foi constatado quando nos viramos e abaixamos o rosto. Cinco ou seis anos de idade? Nunca sei dizer, algo entre isso. Em uma breve atitude, estendeu a mão com uma miniatura de estátua local. Questionamos o que era. Ele respondeu em um espanhol também breve: queria vendê-lo por quinze soles. Tínhamos vinte, ele não tinha troco, não vendera nada no dia. Deixasse para lá, não precisava de troco, guardamos a peça. Olhei para ele e senti o coração doer. Era um menino, por Deus. Sujo, desamparado, aparentemente sozinho. Lembro de morder o lábio aflita, e não aguentei. Perguntei se o moço que estava por perto era seu pai, ao que ele disse que era um Senhor, mas não seu pai. Então questionei onde estavam os pais, e ele me disse que não por ali, estava trabalhando porque a mãe estava doente. Então a viagem foi boa, mas. O que eu levei dela, dessa vez? Ele. O olhar e a força. Quase me matei para subir o que ele sobe todos os dias. Algumas pessoas admiram minhas conquistas, porque então ninguém presta atenção nas dele? Ele faz aquilo que me causou dispneia intensa diariamente, ele foi mais forte. A vida não admirou as conquistas dele, chega em casa com vinte soles e a mãe doente, ele foi mais forte. Estudei vinte e dois anos para escrever isso, ele trabalha o dia todo em um sol desumano e fugindo dos guardas, ele foi mais forte. Eu tenho vinte e quatro, já tive mais de cinco refeições hoje, estou confortavelmente sentada na frente de um computador, eu reclamo. Ele foi mais forte. Ele é mais forte. E para a grande maioria das pessoas ali, o mais forte é também o invisível.
Longe dos clichês, não vou dizer que aprendi a valorizar mais a minha vida com isso. Eu sofro em lembrar dessa cena, me sinto fraca e impotente.
Mas aprendi com ele algo sobre olhar adiante e ver perspectivas, superar qualquer injustiça com o olhar. Aprendi que sem tentar ele não teria nem os vinte soles, e soube nomear ele como mais um dos Anjos que um dia pousaram ao meu lado.
Me confortou mais que o mirante, mais que a paisagem, mais que ele mesmo. Algumas pessoas tem disso, elas não só te ensinam, elas te inspiram algo que vem de dentro e te torna maior. Então, tenha em mente: força também se aprende apesar de “mas”, males e outros pesares.

(FOTO POR MALU LIMA EM SACSAYHUAMAN, PERU)

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s