Arquivo do mês: julho 2015

Primeiro seu azul

Em “O céu não sabe dançar sozinho”, Ondjaki fala, em um de seus contos, em como a criança achava que o homem por dentro seria azul, numa analogia a ter o céu dentro de si. Às vezes a gente coloca para dentro tanta coisa inútil, que na hora de fazer o balanço geral, não sabemos se é positivo ou negativo. Se estamos azul, cinza, roxo.
O céu dentro da gente é o que nos deixa serenos, calmos, nos inspira segurança de seguir em frente. Nosso céu tem que ter o amigo do café da segunda a tarde, a caminhada do domingo de manhã, o que se gosta de fazer. Nosso azul precisa enfatizar o que nos agrada, o que soma com a brisa lá de fora e te traz paz. Nosso céu interno tem um quê de passado, o qual pode ser perturbador, mas traz alguns leves aprendizados que as vezes são necessários mais adiante.
Parar e colocar para dentro também nos inspira a colocar coisas para fora. Não dá para levar tudo consigo, as coisas pesam.Não se gabe de lembrar de todos os detalhes, todas alegrias, vitórias, tristezas, decepções. Deixe isso um pouco pra lá, diminua a carga, mude de marcha, não precisa exigir tanto. Não exija tanto de si, apenas o suficiente para se apreciar. Aprecie a si, a sua vida, suas ideias, se orgulhe. Leve isso, leve o fundamental para entender a cada passo porque está ali e porque vai andar um pouco mais, um pouco menos.
Se esqueça do compromisso das dez e meia, se esqueça da música que ouviu ontem a noite, do pesadelo que atordoou, das tristezas que estavam em esquinas e te pegaram desprevenido. Deixe isso ali, mas lembre, todos os dias, de se perguntar como está. Lembre de no fim do dia saber se está bem, se está mal. Saiba, e ao saber, leve isso para seu céu interno: brinque de quebra cabeça, reúna suas peças, arranje uma solução e deixe que ela caía de cima, para suas mãos.
Antes de ser predicado, seja sujeito. Mas antes de ser sujeito, busque seus predicados. Tenha respaldo, não pela literatura, pela ciência, pela vida, mas por você, aprecie o que sente agora, aprenda a se interpretar e, principalmente, se perdoa, vai.
No seu céu azul interno você tem que ter seu perdão. Porque ali existem vários vocês em fúria pelo que já foi e, meu amigo, o que foi, foi. Então, faz o favor de repetir em voz alta que se perdoa, e que dali em diante é tudo novo, vida nova. Refaça seu céu, abra esse porão, tira o que não lhe vale e segue.
Muito pertinentemente, Renato Russo escreveu durante sua estadia em Vila Serena: primeiro as primeiras coisas. Seja, pois, assertivo sobre suas primeiras coisas, porque a gente não abandona o medo, é ele que nos abandona.

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Ao youtube

Youtube, não me peça para esperar cinco segundos, estou atrasada para ir ali. Preciso fugir das pessoas, da realidade, do mundo. Preciso correr das ideias negativas que me acercam, dos meus planos impossíveis, de tudo aquilo que envolve iminência de morte. Youtube, toque logo essa música, não há tempo para marketing, preciso tomar um café com pão de queijo na padoca da esquina, mas antes quero ouvir a música. Se ouço dez músicas por dia, se vão cinquenta segundos do meu tempo? Pare com isso, querido, me deixe ir. Deixe-me ir no carro escutando a playlist que quiser, em qualquer estrada que leve a cidade mais interiorana onde eu possa comprar doce caseiro. Ainda tenho que ir no cinema, andar doze quilômetros, preciso ir ao médico e comprar confete para festa de aniversário. Youtube, seus cinco segundos atrasam minha sobriedade, meu centro de gravidade.

Você me atrasa as férias, a vida, meus tropeços e o tempo que eu levo para fosforilar. Me faz levantar num ímpeto, e seguir qualquer caos particular.

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